Aplicar calcário em um talhão arrendado no último ano do contrato pode entregar ao próximo arrendatário R$ 27.000 do que uma calagem de R$ 54.000 devolve. Calagem é espalhar calcário moído para reduzir a acidez do solo. Os valores vêm de um exemplo com números inventados, feito abaixo: 120 hectares, R$ 450 por hectare, contrato de três anos que não é renovado. No ensaio da Embrapa Cerrados, uma única calagem aumentou a produtividade nas quatro safras seguidas. Por isso, escreva o plano de produção de cada talhão com pelo menos três safras à frente e marque a safra em que cada contrato termina. Antes de gastar com uma decisão que só se paga depois dessa marca, combine com o arrendador.
O plano cabe em uma tabela só, em planilha ou em papel. Cada talhão tem uma linha e cada plantio tem uma coluna, na ordem; o ano de soja e milho segunda safra ocupa duas colunas. No talhão arrendado, um traço na borda direita da última coluna que o contrato cobre é a marca do contrato. A última coluna guarda as observações.
Quanto custa a calagem se o contrato vence antes?
Em muitas fazendas, a cultura de cada talhão se decide uma safra por vez, perto do plantio. No talhão arrendado, uma decisão que se paga em várias safras falha então de duas formas. O arrendatário adia a decisão num talhão cujo contrato está acabando, ou a toma e o retorno vai para quem plantar o talhão depois dele. Um plano com uma coluna só, a da safra em curso, não mostra nenhum dos dois problemas.
O talhão do exemplo tem 120 hectares de soja e milho segunda safra no oeste do Paraná, arrendados por três anos, o prazo mínimo do Decreto 59.566, e o contrato não será renovado. O arrendatário aplica o calcário antes da soja de 2028/29, a última do contrato. Considere que o grão a mais devolve a calagem em partes iguais ao longo de quatro safras, como as quatro do ensaio da Embrapa. O contrato cobre as duas primeiras: a soja de 2028/29 e o milho segunda safra de 2029.
Quantas colheitas uma calagem continua devolvendo?
A Embrapa Cerrados fez um ensaio em Planaltina (DF), num Latossolo muito ácido desmatado em 1999. As parcelas receberam 4 toneladas de calcário por hectare, com PRNT de 100%, incorporadas uma vez nos 20 cm de cima. Seguiram em plantio direto por quatro safras de soja e milho, com plantas de cobertura entre elas e irrigação por aspersão desde 2001. Na tabela de produtividade do artigo, as parcelas com calcário produziram mais que as sem calcário nas quatro culturas.
| Safra | Cultura | Sem calcário | Calcário aplicado uma vez, em 1999 | Diferença |
|---|---|---|---|---|
| 2000/01 | Soja | 1.281 kg/ha (21,4 sc/ha) | 1.684 kg/ha (28,1 sc/ha) | 403 kg/ha (6,7 sc/ha) |
| 2001/02 | Milho | 1.480 kg/ha (24,7 sc/ha) | 6.871 kg/ha (114,5 sc/ha) | 5.391 kg/ha (89,9 sc/ha) |
| 2002/03 | Soja | 1.879 kg/ha (31,3 sc/ha) | 2.930 kg/ha (48,8 sc/ha) | 1.051 kg/ha (17,5 sc/ha) |
| 2003/04 | Milho | 5.437 kg/ha (90,6 sc/ha) | 10.419 kg/ha (173,7 sc/ha) | 4.982 kg/ha (83,0 sc/ha) |
Esse ensaio foi num solo bem mais ácido do que o de um talhão que já é cultivado e recebe calcário há anos, então o tamanho do ganho não vale para a sua fazenda. A duração vale: o ganho se manteve por quatro culturas.
O retorno nem sempre chega em partes iguais. Num ensaio de sete anos em Mococa (SP), com calcário aplicado só no primeiro ano, os autores concluíram que o investimento no calcário estava praticamente pago já no primeiro ano. O ganho não parou aí: a calagem feita só no início continuou a aumentar a produção do milho por cinco anos e, depois, a do algodão e a da soja. Mesmo quando a conta se paga cedo, as culturas seguintes ficam com quem plantar o talhão. Um artigo à parte trata de conferir o talhão contra o plano de rotação, outra decisão cujo retorno vem em safras posteriores.
Quanto tempo dura um arrendamento?
No Brasil, a lei fixa um prazo mínimo. O Decreto 59.566/1966 estabelece três anos para o arrendamento de lavoura temporária e presume esse prazo quando o contrato não indica nenhum. Quem pretende iniciar uma cultura cujos frutos não possam ser colhidos antes do fim do contrato precisa ajustar de antemão com o arrendador como pagar o uso da terra pelo tempo que passar do prazo.
O arrendamento não é raro. No Censo Agropecuário 2017 do IBGE, os estabelecimentos de lavoura temporária tinham 19.011.772 hectares arrendados e 4.723.140 hectares em parceria, 23.734.912 hectares ao todo. Dividido pelos 91.409.423 hectares desses estabelecimentos, são 26% da área. A área é a dos estabelecimentos inteiros, não só a plantada.
Nos Estados Unidos, cerca de 40% das terras agrícolas dos 48 estados contíguos são arrendadas. O Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura (ERS) anota que os contratos costumam ser de um ano, com opção de renovar. Os autores acrescentam que o tempo em que o arrendatário está no talhão pode não decidir se ele aceita adotar práticas de longo prazo, porque nada garante a próxima renovação.
No exemplo, a marca do contrato cai depois do milho segunda safra de 2029. Toda célula depois da marca depende de renovar o contrato, e leva o nome do arrendador ao lado do seu até vocês conversarem.
Para uma melhoria como a calagem, o Decreto manda combinar a forma de pagamento antes. A coluna de observações guarda o combinado: quem paga, em que proporção e o que acontece se o contrato acabar antes. O que o contrato deve dizer e o que a lei exige é assunto do seu advogado. Se compensa comprar a terra em vez de arrendá-la é outra conta, explicada em outro artigo, sobre arrendar ou comprar a terra.
O que o arrendatário faz quando o prazo é curto?
Muitas vezes, o arrendatário adia as decisões de retorno mais longo. Na Finlândia, cerca de 40% dos contratos são de cinco anos. Na tese de doutorado de 2009, Sami Myyrä construiu um modelo econômico de calagem em terra arrendada, para cevada de primavera sob contratos de cinco anos. É cálculo, não medição. O pH mede a acidez do solo, e número menor é solo mais ácido. No modelo, a calagem compensa para quem tem certeza de ficar com a terra sempre que o pH cai abaixo de 5,4. Para o arrendatário certo de que o contrato não será renovado, aplicar no início do contrato só compensa se o pH já estiver abaixo de 5.
Quem pode perder a terra tem menos safras para recuperar o custo, e por isso deixa o pH cair mais antes de calar. No modelo, quando a calagem compensa, a melhor hora é logo depois de assinar um contrato novo.
O caso finlandês não mostra que arrendatário cultiva pior, em geral. O ERS analisou dados de levantamento sobre cinco culturas de grãos de 2011 a 2021. Encontrou pouca evidência de diferença sistemática entre áreas do dono e áreas arrendadas em dinheiro no preparo conservacionista, nas plantas de cobertura e em seis práticas permanentes. Uma razão possível é que muitos arrendatários ficam anos no mesmo talhão: em 2014, 34,7% da área arrendada em dinheiro estava com o mesmo arrendatário havia mais de 10 anos. O que muda é por quanto tempo o arrendatário pode contar com o talhão.
Que célula da tabela ganha um responsável esta semana?
Você decide as células antes da marca do contrato. As células depois dela, e qualquer decisão cujo retorno passe dela, dependem de renovar o contrato, então o nome do arrendador vai ao lado do seu. Em 2014, o USDA perguntou aos arrendadores americanos quanto participavam. As decisões de cultivo e as práticas de conservação de uma safra ficavam quase sempre só com o arrendatário, enquanto as práticas permanentes e os programas do governo envolviam mais o arrendador.
No talhão arrendado, se a safra vem antes do vencimento, a cultura é decisão sua. Se vem depois, você a combina antes com o arrendador. A célula que ninguém decidiu ainda recebe três coisas: a palavra “em aberto”, a data em que precisa ser decidida e o nome de quem vai decidir. Depois da marca, essa data é a de combinar a renovação com o arrendador.
Se você cede uma faixa do talhão para uma empresa ou instituição fazer um ensaio, ele costuma durar mais de uma safra. Nas células desse talhão, nessas safras, escreva também o nome de quem faz o ensaio. Um artigo à parte trata de quem pode usar os dados da faixa de ensaio.
A primeira versão leva cerca de duas horas, com o mapa dos talhões, o registro das duas últimas safras e os contratos de arrendamento à mão. Com uma linha por talhão, o plano fica ao lado do registro de produtividade do talhão, que outro artigo explica como manter safra a safra. Os outros planos escritos da fazenda estão na biblioteca sobre planejamento.
A célula depois da marca do contrato é a mais difícil de preencher, porque preenchê-la significa conversar com o arrendador sobre a renovação antes da decisão de retorno longo, e não depois. Se vocês conversam uma safra antes, podem dividir um custo como o da calagem em termos que os dois enxergam. Se esperam a colheita, só resta decidir quem fica com um retorno que alguém já pagou. Marcar uma data para essa conversa faz parte da gestão de fazendas tanto quanto escolher a cultura.