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Onde está o plano dos próximos três ciclos de produção?

A sequência que está no chão hoje é registro de decisões já tomadas. Sem a folha escrita antes, ninguém separa o que foi escolha do que foi esquecimento.

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Neste artigo

Registro do que foi semeado não é plano, e o que separa os dois é a data no alto da página. A exigência da versão datada já existe fora da porteira. O decreto que regulamenta a agricultura orgânica no Brasil determina que as atividades do período de conversão deverão estar estabelecidas em plano de manejo orgânico da unidade de produção, e a instrução normativa que criou os mecanismos de controle fecha o laço: as auditorias e inspeções feitas nesse período deverão verificar o cumprimento do plano de manejo orgânico previsto. Previsto, e não relatado depois.

A maioria das fazendas decide o que entra em cada área perto da semeadura, com o preço da semana e o que o vizinho está fazendo. Peça a sequência que estava prevista para aquele mesmo talhão dois ciclos atrás e não há o que entregar, o que significa que ninguém consegue dizer se a cultura que está lá hoje foi escolhida ou é o resultado de três decisões apressadas seguidas. A conta aparece em outro lugar. O armazém que faltou e a máquina que não estava lá no ano seguinte foram decididos contra um plano que nunca existiu.

O que um terceiro pede para você entregar por escrito?

A descrição do que vai ser feito, com que frequência vai ser feito, e a prova de que alguém conferiu. A norma norte-americana da produção orgânica é a que enuncia isso de forma mais crua: o produtor precisa desenvolver um plano do sistema de produção acordado entre ele e uma certificadora credenciada, contendo a descrição das práticas e dos procedimentos a executar e a frequência com que serão executados. O que essa norma nunca pede é uma cultura. Ela manda o produtor implementar uma rotação de culturas e nomeia quatro funções que a rotação precisa cumprir, entre elas manter ou melhorar o teor de matéria orgânica do solo e dar controle de erosão.

Qual cultura cumpre essas funções em qual talhão continua sendo de quem trabalha ali. A mesma exigência encolhe para uma linha no instante em que um comprador ou um banco pergunta por um talhão só, e o que precisa sair da gaveta ali é o laudo de solo por talhão daquele talhão, copiado para uma página própria com a data, a profundidade, o laboratório e o método, e não o anexo inteiro com todos os talhões dentro.

Alguém já desenhou o formato da folha?

Um regulador desenhou, até a última coluna. A resolução orgânica argentina exige que o plano de produção traga o programa de rotação de todos os lotes do estabelecimento, por um período mínimo de cinco anos, em forma de matriz: os lotes vão nas linhas, os ciclos vão nas colunas, e o cultivo ou a produção vai na célula onde a linha encontra a coluna. Uma última coluna fica reservada para observações. Qualquer mudança nessa matriz precisa ser comunicada à certificadora e aprovada por ela, no artigo 132 do Anexo I da Resolución SENASA 374/2016.

A parte que vale copiar está três parágrafos antes, no mesmo artigo. O histórico produtivo dos últimos três anos é exigido no mesmo formato, com os lotes nas linhas, os ciclos nas colunas, o que foi cultivado nas células e a mesma última coluna de observações. Folha para trás e folha para frente são um formulário só, preenchido pelas duas pontas, e é isso que faz do plano o histórico escrito antes de acontecer.

Por que a linha é o talhão e não o ciclo?

Porque a obrigação gruda na terra, e a terra atravessa toda fronteira de ciclo. No Brasil, a instrução normativa da qualidade orgânica manda o sistema de controle interno guardar o croqui das unidades de produção e uma ficha com histórico das parcelas, no mínimo, dos últimos 3 (três) anos, além de uma tabela de certificação especificando status por talhão por produtor.

A norma norte-americana escolhe a mesma unidade e põe o relógio nela: a área da qual sai colheita vendida como orgânica precisa ter ficado sem substância proibida pelos três anos imediatamente anteriores à colheita. Normas diferentes, países diferentes, e todas põem o talhão na linha. A cultura muda a cada ciclo e o chão embaixo dela não, e é por isso que uma coisa como uma avaliação de compactação com data pertence à linha e continua valendo muito depois de a cultura daquele ciclo ter sido vendida.

O que acontece quando a folha para em um ciclo só

Ela responde a pergunta que já estava respondida e deixa a pergunta cara em aberto. De Mera, Guma e Ferreira descreveram o caso na Revista de Política Agrícola em 2023, construindo uma ferramenta de gestão junto com o dono de uma propriedade de grãos em Cruz Alta, no noroeste do Rio Grande do Sul.

A demanda que originou o trabalho estava escrita sem rodeio: o produtor queria bases históricas comparativas de custos de produção entre safras, talhões e culturas, e o talhão, e não a safra, foi definido como o centro de custo. O que a ferramenta pronta faz é manter uma planilha por safra. A única coisa que passa de uma para a outra é o estoque que sobrou, relançado à mão como um item de nota chamado saldo de estoque safra anterior.

Os autores fecham o artigo pedindo eles mesmos a metade que falta, ao dizer que novas versões deveriam incluir uma planilha auxiliar com todo o histórico dos lançamentos, para que os dados das safras registradas possam ser unificados em relatórios comparativos. É uma propriedade só, construída sob encomenda do dono, e os próprios autores dizem que o estudo não pode ser generalizado. A leitura que sobra é sobre onde a linha mora, e não sobre software: uma ferramenta encomendada para comparar safras terminou com cada safra no seu próprio arquivo, porque nada obrigava o talhão a ser a coisa que persiste.

Quantas colunas valem a pena escrever?

Tantas quantas você conseguir nomear alguém que ainda estará com aquele talhão, e nunca menos de três. Onde há certificadora orgânica no meio, o piso não é três, e sim os cinco anos que a Argentina fixa. Liang, Du e Faye entrevistaram 489 famílias produtoras em três municípios de Heilongjiang, na China, em agosto de 2022, e publicaram o resultado na Frontiers in Sustainable Food Systems em 2023. Onde o contrato de transferência da terra era de dois anos, a ligação com a rotação apareceu em todas as versões da análise menos uma, que eles mesmos apontam.

Onde era de um ano, não apareceu em nenhuma. A razão que eles dão é a mais simples: completar uma rotação demora mais que um ciclo, então ela exige que o direito de uso da terra seja estável por mais que um ciclo. São famílias chinesas e os números não se transferem para cá, e o que eles acharam são duas coisas que andam juntas, não prova de que uma causa a outra.

Posse da terra, e não agronomia, é o que decide quantas colunas cabem. Célula em área arrendada carrega dois nomes antes de carregar cultura, e a linha para onde o arrendamento para. Onde há pouca folga para absorver uma decisão errada, a coluna mais distante vale mais e não menos, porque a operação que não dilui o erro num ano bom é justamente a que mais precisa enxergar o erro chegando um ciclo antes. Quanto vale cada coluna em dinheiro é outra folha, e é premissa de preço declarada que transforma célula em linha de orçamento.

Escrever prende você ao que está escrito?

Não prende, e quem faz isso bem já planeja as saídas. O painel de especialistas que originou o manual de rotação da SARE, doze produtores orgânicos que passaram três dias numa casa de fazenda no norte do estado de Nova York em 2002 e cujas conclusões outros vinte produtores revisaram depois, descreve o planejamento de rotação nas fazendas bem-sucedidas como um processo contínuo e reativo, que se refaz enquanto anda. O mesmo capítulo registra que os produtores experientes planejam e executam rotações em três escalas ao mesmo tempo, a do ano, a da estação e a da oportunidade de última hora, e que a flexibilidade é construída dentro do plano anual em vez de acontecer contra ele.

Os reguladores partem do mesmo princípio, e o que eles exigem todo ano é que a mudança tenha nome. Para continuar certificada nos Estados Unidos, a operação precisa entregar anualmente um resumo, com documentação de apoio, detalhando todo desvio, mudança, modificação ou emenda feita ao plano entregue no ano anterior, junto com as inclusões e exclusões pretendidas para o ano que vem.

A resolução argentina pede que o operador ratifique ou retifique anualmente o que declarou e amplie o programa de rotação à medida que ele vai sendo executado. Os dois mecanismos não funcionam sem a primeira folha, porque desvio precisa de algo de que desviar, que é a mesma razão pela qual a própria meta precisa de data de revisão marcada.

Quem decide cada célula?

Uma pessoa, nomeada ao lado da célula, e onde ainda não há pessoa, uma data. A norma orgânica norte-americana é explícita nisso quando a operação é um grupo de produtores e não um só: o plano do grupo precisa descrever um sistema de controle interno que defina a estrutura organizacional, os papéis e as responsabilidades de todo o pessoal. A norma brasileira empurra a mesma exigência para dentro da tabela de certificação, que reporta status talhão por talhão e produtor por produtor. Célula com cultura e sem nome é vontade.

Célula que diz em aberto, com a data em que precisa estar fechada e o nome de quem fecha, é linha que trabalha, e é o estado honesto de boa parte da terceira coluna. Em qual cargo esse nome fica, e a quem ele responde, quem resolve é o organograma da fazenda, porque nome escrito ao lado de uma célula e em mais lugar nenhum é nome que ninguém consegue cobrar.

Existe um caso em que o nome fica fora da fazenda, e é o único do acervo assim: quando uma universidade ou um instituto pôs um experimento naquele pedaço, quem nomeia o decisor é um termo de parceria assinado, com a data em que o compromisso termina escrita na mesma célula.

O horizonte dentro do qual essas colunas cabem não se decide aqui. Ele vem de missão, visão e valores escritos, que é onde a fazenda diz para que existe numa data nomeada, e as células alimentam para frente o plano de comercialização escrito, porque o que se tem para vender foi decidido no momento em que a célula foi preenchida.

Quanto disso já está comprometido com um comprador é contado numa página própria, o volume travado em contrato, e se as duas folhas discordarem sobre a produção esperada, o volume em aberto está errado. A máquina ou o galpão que uma célula exige, e o ciclo em que precisam existir, pertencem ao plano de investimentos escrito. Os quatro moram dentro das mesmas quatro funções da administração, e o resto do eixo de planejamento funciona do mesmo jeito.

Por onde começar

Duas horas, com o croqui e o registro do que foi feito nos dois últimos ciclos na mesa. Uma folha, uma linha por talhão, uma coluna por ciclo, um nome em cada célula.

No primeiro ano a folha não prova nada, e vale dizer isso em voz alta, porque é no primeiro ano que a maioria dessas folhas é abandonada. Ela começa a trabalhar no segundo, quando alguém abre o arquivo e encontra uma célula dizendo uma coisa e o talhão dizendo outra. Essa diferença é o único produto que o documento tem, e a fazenda que nunca a produz ficou com três colunas de enfeite e um hábito de arquivar.

Procedência

Deriva de
  1. Instrução Normativa MAPA 19/2009, mecanismos de controle e informação da qualidade orgânica, Anexo I
  2. Decreto 6.323, de 27 de dezembro de 2007, que regulamenta a Lei 10.831 da agricultura orgânica
  3. Resolución SENASA 374/2016, sistema de produção, controle e certificação de produtos orgânicos, Argentina
  4. De Mera, Guma e Ferreira, A gestão da propriedade rural por talhões, Revista de Política Agrícola, Ano XXXII, n. 4, 2023, 69-76
  5. 7 CFR 205.201, plano do sistema de produção orgânica, National Organic Program, USDA Agricultural Marketing Service
  6. 7 CFR 205.202, exigências de área, National Organic Program, USDA Agricultural Marketing Service
  7. 7 CFR 205.205, padrão de prática de rotação de culturas, National Organic Program, USDA Agricultural Marketing Service
  8. 7 CFR 205.406, continuidade da certificação orgânica, National Organic Program, USDA Agricultural Marketing Service
  9. Liang, Du e Faye, The influence of cultivated land transfer and Internet use on crop rotation, Frontiers in Sustainable Food Systems 7, 2023
  10. Mohler e Johnson, Crop Rotation on Organic Farms, SARE e NRAES, capítulo sobre rotação e gestão da fazenda
O que este artigo cobre
O que um terceiro pede da fazenda por escrito, o formato que a folha assume, por que cada linha é um talhão e não um ciclo, até onde vale levar as colunas, e o que escrever na célula que ninguém decidiu ainda.
O que ele não cobre
Que cultura ou atividade colocar em cada célula, e se uma sequência é melhor que outra. Isso é competência de quem lê e do agrônomo dele, e a Rurivia não entra nela. Fica de fora também o cronograma de operações do ciclo em curso e a conferência do que foi de fato semeado contra o que a folha dizia.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Onde está o plano dos próximos três ciclos de produção? [S. l.], 26 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/planejamento/plano-plurianual-de-producao/. Acesso em:


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