Em abril de 2026, a CNA calculou em R$ 1.041 por saca o custo operacional efetivo (COE) de uma propriedade de café de 50 hectares em Varginha (MG), com 27 sacas por hectare. O COE é o que a lavoura desembolsa no ano. Com a saca de café arábica a R$ 1.601,95 no indicador do Cepea de 23 de outubro de 2026, sobram R$ 757.283 nos 50 hectares depois do COE. Uma queda de R$ 561 por saca zera essa sobra. Antes de assinar um arrendamento, uma máquina ou um financiamento, escreva um orçamento das próximas três safras com preço e produtividade ruins, prováveis e bons, cada um com fonte e data. Assine só se a reserva cobrir duas safras ruins seguidas.
Uma previsão de preço fecha o orçamento?
Não. O preço e a produtividade variam de uma safra para outra mais que o custo, decidem a maior parte do que sobra, e nenhuma previsão acerta nenhum dos dois. Um orçamento de três safras é o que você espera vender, gastar e guardar em cada uma das próximas três safras, escrito antes do plantio.
Nele, a produtividade é o número de sacas que você colhe por hectare, e o preço é o que você recebe por saca. O custo é o que você gasta para fazer a lavoura: insumos, mão de obra, combustível, manutenção e juros. A sobra é a receita menos o custo. A CNA chama de COE o desembolso do ano com a lavoura.
Na média de nove praças do Cepea em cinco estados, de 2022/23 para 2023/24 o preço da saca de soja caiu 18,4% e a produtividade caiu 18,2%. O gasto com fertilizante caiu 36% no mesmo período, e a sobra por hectare caiu 99,2% mesmo assim. Numa simulação da Embrapa com sistemas de grãos de seis municípios, o preço e a produtividade mexeram o lucro muito mais que qualquer insumo.
A CNA não publica o preço da saca ao lado do COE. Quem orça escolhe o preço, e é ele que decide o resultado. Por isso, tome o COE da CNA como a base de custo e escreva o preço em três cenários.
Como escrever os três cenários?
Um cenário é um preço e uma produtividade que você assume para uma safra. Escreva um ruim, um provável e um bom, cada um com fonte e data. O ruim vem de uma safra que você já viveu: a pior produtividade dos seus talhões nos últimos anos e o menor preço que você recebeu. Nenhum dos dois números é inventado.
Três números valem mais que um, porque um número só costuma pender para um lado. Em três reuniões em Illinois, pediu-se a produtores de milho a produtividade média em um número só. Eles disseram 7,6 bushels por acre acima da média do condado, cerca de 477 quilos de milho por hectare. Quando responderam em faixas, o exagero sumiu.
A fazenda do exemplo tem 50 hectares de café próprios, como a propriedade que a CNA calculou em Varginha. Ela recebe a oferta de arrendar mais 25 hectares de lavoura formada, por três safras, a R$ 6.000 por hectare ao ano. O valor do arrendamento é inventado para o exemplo.
O cenário provável usa 27 sacas por hectare, a produtividade da CNA em Varginha, e a saca a R$ 1.601,95, o indicador do Cepea de 23 de outubro de 2026. O indicador é o preço do café arábica tipo 6 na cidade de São Paulo, não o que a fazenda recebe: ajuste-o ao seu preço de venda.
O cenário bom usa 30 sacas por hectare, a produtividade que a CNA estimou em Guaxupé (MG). O ruim, 20 sacas a R$ 1.100, e o preço do bom, R$ 1.900, são inventados para o exemplo. O COE é de R$ 28.107 por hectare em todos os cenários, ou seja, 27 sacas vezes R$ 1.041.
| Cenário | Sacas por hectare | Preço da saca | Receita por hectare | Hectare próprio | Hectare arrendado |
|---|---|---|---|---|---|
| Ruim | 20 | R$ 1.100,00 | R$ 22.000,00 | prejuízo de R$ 6.107,00 | prejuízo de R$ 12.107,00 |
| Provável | 27 | R$ 1.601,95 | R$ 43.252,65 | R$ 15.145,65 | R$ 9.145,65 |
| Bom | 30 | R$ 1.900,00 | R$ 57.000,00 | R$ 28.893,00 | R$ 22.893,00 |
Tire a produtividade de cada talhão, ano a ano e o preço de uma série de preços anotada, com fonte. A safra um leva os mesmos números do seu orçamento de uma safra, com preço e produtividade de equilíbrio, e o preço provável deve ser o mesmo do seu plano de comercialização escrito.
A fazenda aguenta o arrendamento em duas safras ruins?
Passe a fazenda inteira, com o compromisso novo, por duas safras ruins seguidas, e veja se a reserva cobre o que falta. Compromisso é tudo o que você assina e precisa pagar mesmo numa safra ruim: arrendamento, parcela de máquina, parcela de financiamento. A reserva é o dinheiro em caixa, ou o crédito já aprovado, que paga o que falta.
Na fazenda do exemplo, faça uma safra ruim, uma ruim e uma provável, nessa ordem. A reserva é de R$ 800.000, inventada para o exemplo.
| Safra | Cenário | 50 hectares sozinhos | Com os 25 hectares arrendados |
|---|---|---|---|
| 1 | Ruim | prejuízo de R$ 305.350 | prejuízo de R$ 608.025 |
| 2 | Ruim | prejuízo de R$ 305.350 | prejuízo de R$ 608.025 |
| 3 | Provável | R$ 757.283 | R$ 985.924 |
Com os hectares arrendados, a fazenda precisa de R$ 1.216.050 para atravessar duas safras ruins; sozinha, de R$ 610.700. Uma reserva de R$ 800.000 cobre o segundo valor e não cobre o primeiro. Nas três safras, os 25 hectares custam R$ 376.709 à fazenda.
A sobra ainda não paga a retirada da família nem o principal das dívidas, então desconte essas duas antes. Se a reserva não cobre o que falta, arrende menos, alongue as parcelas ou forme a reserva antes de assinar. Cada hectare arrendado soma R$ 24.214 ao que falta em duas safras ruins, então esta fazenda tem espaço para 7 hectares. Isso é recomendação.
O fertilizante precisa de linha própria?
Sim, nas safras dois e três. Quando o insumo sobe, o COE sobe, e a sobra encolhe antes de o preço da saca se mexer. Em Guaxupé, o COE avançou cerca de 9%, principalmente por causa dos insumos.
Em maio de 2022, o Campo Futuro calculou que a soja 2022/23 precisaria de 12,5 sacas por hectare só para comprar o fertilizante, contra 7,4 na safra anterior, na média das principais regiões. No mesmo boletim, o COE médio da soja subiria 40,2%.
Dê ao fertilizante um valor ruim e um bom nas safras dois e três, com o preço por tonelada esperado e a data. No hectare do exemplo, um COE 9% maior, como o de Guaxupé, custa R$ 2.529,63 a mais. É uma hipótese do exemplo, não uma previsão para Varginha. O hectare próprio provável cai de R$ 15.145,65 para R$ 12.616,02, e o arrendado, de R$ 9.145,65 para R$ 6.616,02.
Que preço vai ao lado da primeira linha do orçamento?
Escreva primeiro a safra um, com os três cenários e a fonte e a data de cada um. Depois da colheita, feche a safra. Em cada fechamento, coloque o orçado ao lado do realizado e separe a diferença em erro de produtividade e erro de preço. O erro de produtividade é a diferença em sacas vezes o preço orçado. O erro de preço é a diferença de preço vezes as sacas colhidas.
A fazenda do exemplo colhe 24 sacas por hectare e recebe R$ 1.500 por saca, os dois valores inventados para o exemplo.
| Linha | Orçado | Realizado | Diferença |
|---|---|---|---|
| Receita | R$ 43.252,65 | R$ 36.000,00 | R$ 7.252,65 a menos |
| Erro de produtividade | 27 sacas | 24 sacas | R$ 4.805,85 a menos |
| Erro de preço | R$ 1.601,95 a saca | R$ 1.500,00 a saca | R$ 2.446,80 a menos |
Escreva os dois erros a cada safra, com a data em que escreveu o orçamento e a data do fechamento. Leia o erro de preço ao lado da sua venda executada contra o plano: se você vendeu como planejou, o erro veio do mercado; se não, parte dele veio das suas decisões de venda.
Depois de algumas safras, escreva ao lado do preço provável do ano seguinte quanto, em média, você recebeu abaixo ou acima do orçado por saca. Mova o provável nessa medida ou escreva por que não. Espere dois fechamentos antes de mexer em qualquer número, porque uma safra sozinha pode ter sido só uma seca. Isso é recomendação.
Os outros artigos sobre orçamento estão no eixo de planejamento. Para uma lavoura e uma safra, veja quanto sobra por hectare, escrito antes do plantio.
A mesma coluna, o orçado ao lado do realizado, serve para qualquer outra linha da gestão de fazendas.