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Quanto da produção já tem preço fixado, e quem assinou cada negócio?

Ninguém vende a mesma carga duas vezes de propósito. Acontece quando os negócios estão em quatro lugares e ninguém soma. Uma planilha, um total e um nome no pé dela mostram quantas toneladas a fazenda ainda pode prometer.

Publicado em Atualizado em 15 min
Neste artigo

Considere uma fazenda de algodão de 1.000 hectares no cerrado baiano, que espera colher 1.937 toneladas de pluma (a fibra, já separada do caroço) e já fixou o preço de 1.750. Se a colheita ficar 15% abaixo do esperado, faltam 104 toneladas para entregar, e cada R$ 1 por quilo de diferença entre o preço fixado e o preço do dia custa R$ 104.000 à fazenda. Para saber onde a fazenda está antes disso, anote numa planilha só cada venda que ela comprometeu, some as linhas com preço fixado e tire esse total da produção que você espera colher. No pé da planilha vai um nome: quem pode comprometer a fazenda na próxima venda, e até que volume.

Essa é a planilha de compromissos: uma página com uma linha para cada venda que a fazenda combinou, qualquer que tenha sido a forma do negócio. Um contrato a termo (venda para entrega mais adiante, com preço combinado) fica num lugar. O barter (troca de produção por insumos), a conta na corretora e o negócio por telefone que ninguém anotou ficam em outros. Quem atende a próxima ligação do comprador não tem nenhum desses lugares na frente.

Volume comprometido é volume com preço fixado?

Muitas vezes não, e é na coluna de preço que a planilha se paga. A Bolsa de Comercio de Rosario, a principal bolsa de grãos da Argentina, levantou cinco safras de vendas de trigo. Entre os contratos com entrega mais adiante, 29% foram negociados com preço ainda a fixar, contra 64% fechados com preço já acertado. O trigo estava comprometido; o preço, não.

Preço a fixar precisa de um preço de referência, a cotação publicada que o contrato vai usar para chegar ao preço depois. Daqueles contratos argentinos, 47% usavam a cotação diária publicada pelas câmaras de cereais do país, e 42% não registravam referência nenhuma, falha que a própria bolsa aponta.

Linha cuja fórmula não nomeia preço de referência continua sem preço, e quem lê os contratos com pressa conta essa linha como fixada. A coluna de preço, então, tem dois estados: com preço fixado, e comprometida mas ainda sem preço. Marque cada linha com um dos dois.

Figura: Como os contratos de trigo com entrega mais adiante, na pesquisa de Rosario, se dividem por preço, e o que os sem preço usavam como referência. Fonte: Bolsa de Comercio de Rosario, dezembro de 2025
Quase um terço dos contratos deixou o preço a fixar, e 42% deles não tinham referênciaContratos argentinos de trigo com entrega mais adiante, na pesquisa de Rosario: 64% tinham o preço acertado e 29% tinham o preço ainda a fixar. Dos contratos com preço a fixar, 47% usavam a cotação diária publicada pelas câmaras de cereais e 42% não registravam referência.Contratos com entrega mais adiantePreço já acertado64%Preço ainda a fixar29%Dos contratos com preço a fixarUsavam a cotação diária das câmaras47%Não registravam referência42%

Escreva hoje o estado do preço em cada linha, antes de o próximo comprador ligar.

O que todo compromisso precisa registrar?

Poucos dados, os mesmos que as definições oficiais dos Estados Unidos e do Brasil já listam. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos define contrato de comercialização como o que fixa um comprador ou destino, uma quantidade a entregar e um preço ou uma fórmula de preço. O produtor rural continua dono do produto.

No Brasil, a Lei nº 8.929, de 1994, dá à Cédula de Produto Rural os dados do artigo 3º. Entre eles estão a data da entrega ou vencimento e a promessa pura e simples de entrega do produto, com suas especificações de qualidade e quantidade. Estão também o local e as condições da entrega, a data e o lugar da emissão, e o nome e a assinatura do emitente, isto é, de quem assina a cédula. As sete colunas abaixo saem dessas duas listas, e nenhuma foi inventada para este artigo.

As sete colunas da planilha de compromissos
Coluna O que ela responde
Produto De qual cultura, classe ou categoria é o compromisso
Volume Quanto foi comprometido
Unidade Toneladas, arrobas, sacas, cabeças, quilos, o que o contrato usar
Preço ou fórmula de preço O preço, ou a regra que vai chegar a ele depois
Data do fechamento O dia em que a fazenda ficou comprometida
Data de entrega ou liquidação O dia em que vence
Quem assinou O nome de quem comprometeu a fazenda

O grão entregue para a cooperativa vender junto com o dos outros sócios (o pool) é a linha que mais fica de fora. Está comprometido, mas o preço sai do que o pool conseguir, e costuma ser arquivado com os papéis da cooperativa, como o registro dos vínculos com cooperativas, e não com as vendas. Uma linha por compromisso, qualquer que seja a forma, é o único jeito de as linhas somarem um número só.

Figura: A planilha de compromissos da fazenda de algodão do exemplo, quatro linhas, volumes em toneladas de pluma
Quatro linhas numa planilha, três com preço fixado e uma semFazenda de algodão do exemplo. Venda a termo para a trading, 900 toneladas, preço fixado. Troca por insumos com a revenda, 350 toneladas, preço fixado. Operação na bolsa pela corretora, 500 toneladas, preço fixado. Telefonema com um comprador, 120 toneladas, comprometida e sem preço. Total com preço fixado 1.750 toneladas, total comprometido 1.870 toneladas.Planilha de compromissos, plumaVenda a termo para a trading900 toneladas, preço fixadoTroca por insumos com a revenda350 toneladas, preço fixadoOperação na bolsa pela corretora500 toneladas, preço fixadoTelefonema com um comprador120 toneladas, comprometida, sem preçoCom preço fixado: 1.750 toneladasComprometido: 1.870 toneladas

Preencha uma linha para cada negócio, começando pelo que ninguém anotou.

Quanto está em aberto, e quanto custa uma colheita menor?

Some a coluna de volume, escreva a produção esperada embaixo e subtraia duas vezes, porque os dois estados de preço dão duas respostas. Produção esperada menos todas as linhas comprometidas é o volume que ainda não foi prometido a ninguém. Produção esperada menos só as linhas com preço fixado é o volume que ainda precisa de preço.

Tire a produção esperada do plano que a fazenda já usa, e não de um chute feito para esta planilha. Se você tem um plano plurianual de produção, o plano que outro artigo daqui descreve para o que cada talhão ou rebanho deve produzir nos próximos três anos, use o número dele. Se não há plano, escreva a estimativa e quem a fez.

A Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) projetava para a safra 2022/23 do cerrado baiano 1.937 quilos de pluma por hectare. A projeção consta do relatório de junho de 2023 da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). É o número que a fazenda do exemplo usa.

O erro que custa caro é comprometer mais do que a fazenda vai colher. O relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos lista uma desvantagem do contrato de comercialização. A quantidade contratada tem de ser entregue, o que deixa o produtor rural exposto ao risco de quebra de produtividade. O que faltar na colheita costuma ter de ser comprado pelo preço do dia.

Duas coisas chamam a atenção. O volume com preço fixado sozinho já passa da colheita em 104 toneladas, e as 120 toneladas comprometidas sem preço vêm por cima, para entregar a um preço que ninguém definiu.

Uma quebra de 15% não é exagero de exemplo. Segundo o mesmo relatório, a produtividade que o Imea, o instituto de economia agropecuária de Mato Grosso, projetava para a safra 2022/23 do estado era 16,96% superior à registrada no ciclo anterior. Entre dois ciclos seguidos, a produtividade andou quase esse tanto.

Figura: Produção esperada, volume comprometido, volume com preço fixado e uma colheita 15% menor, fazenda de algodão do exemplo, em toneladas de pluma
O volume com preço fixado passa de uma colheita 15% menorFazenda de algodão do exemplo, em toneladas de pluma: produção esperada 1.937, comprometido 1.870, com preço fixado 1.750, colheita 15% menor 1.646. As 104 toneladas que faltam contra o volume com preço fixado custam R$ 104.000 para cada R$ 1 por quilo de diferença.Toneladas de plumaProdução esperada1.937Comprometido1.870Com preço fixado1.750Colheita 15% menor1.646Faltam 104 toneladasR$ 104.000 para cada R$ 1 porquilo de diferença de preço

O preço também anda mais do que quem carrega o volume espera. Cruz Júnior e quatro coautores publicaram um estudo na Revista de Economia e Sociologia Rural. Eles entrevistaram 90 produtores de milho do Sul e do Centro-Oeste em outubro e novembro de 2008 sobre para onde esperavam que o preço fosse. Dos 81 cujas respostas puderam ser comparadas com o mercado futuro, 62 esperavam uma variação de preço menor do que a que o mercado tinha de fato mostrado. Na comparação com o histórico de preço da própria região, 44,4% ainda esperavam uma variação estreita demais.

O grupo não foi sorteado. Eram 90 produtores rurais que aceitaram responder, então o tamanho da diferença vale para aqueles dois meses de 2008. O que se leva para outras safras é o padrão: o volume em aberto está exposto a uma variação maior do que quem o carrega imagina.

Linha fixada abaixo do menor preço aceitável da fazenda, o preço mínimo que cobre o custo e que outro artigo daqui ensina a calcular, é prejuízo já contratado. Se travar o preço agora compensa é outra pergunta, que outro artigo daqui abre. Nos artigos sobre venda desta biblioteca, você acha o que anotar, nunca o que assinar.

Faça as duas subtrações na sua planilha e depois teste uma colheita 15% abaixo do seu plano.

Quem pode assinar o próximo compromisso?

Uma pessoa nomeada, até um volume definido. A oferta de fechar mais um compromisso vem do comprador, e pode chegar a qualquer hora. O comprador liga para quem atender.

Escreva a linha de autoridade no pé da planilha: esta pessoa pode comprometer até este volume sem consultar ninguém, e acima disso uma segunda pessoa assina junto. Um limite acima do volume ainda não prometido a ninguém deixa um telefonema vender toneladas que a fazenda não espera ter. No exemplo, esse volume é de 67 toneladas.

Se a fazenda tem a descrição escrita do cargo de cada pessoa, o mesmo limite entra lá. Decidir quem pode comprometer a fazenda, e até onde, é uma parte simples da gestão de fazendas: transforma uma lista de negócios num limite pelo qual uma pessoa responde.

Figura: A linha de autoridade no pé da planilha da fazenda de algodão do exemplo
A linha de autoridade: uma pessoa até 67 toneladas, uma segunda assinatura acimaFazenda de algodão do exemplo. Uma pessoa nomeada pode comprometer a fazenda sozinha até 67 toneladas. Acima de 67 toneladas, uma segunda pessoa assina junto. O limite de 67 toneladas é a produção esperada de 1.937 toneladas menos as 1.870 toneladas já comprometidas.Linha de autoridadeUma pessoa nomeada, sozinhaaté 67 toneladasAcima dissouma segunda pessoa assina juntoDe onde saem as 67 toneladas1.937 toneladas esperadasmenos 1.870 comprometidas

Escreva o nome e o limite na planilha, e date.

Por onde começar

Uma hora e meia, com os contratos e os extratos da corretora na mesa. Nada de novo é decidido aqui. Tudo já aconteceu; só nunca esteve num lugar só.

Figura: A planilha de compromissos em seis passos
Os seis passos da planilha de compromissosJuntar: todo documento que compromete produção. Montar a planilha: sete colunas, uma linha por negócio, preço de referência nas linhas sem preço. Contar: dois totais e duas subtrações. Testar e limitar: tirar o volume com preço fixado de uma colheita menor e escrever a linha de autoridade.Juntar1. Junte todo documento que comprometeAbrir a planilha2. Sete colunas, uma linha por negócio3. Preço de referência nas linhas sem preçoContar4. Dois totais, duas subtraçõesTestar e limitar5. Uma colheita menor6. A linha de autoridade

Compromisso nesta planilha ainda não é venda. Vira venda no dia em que o produto sai e o dinheiro cai, e a linha passa então para o registro da venda feita contra o plano de comercialização escrito. Até lá é uma obrigação que a fazenda carrega.

Procedência

Deriva de
  1. Abrapa, Relatório de Safra, Principais indicadores do algodão brasileiro, Brasília, 16 de junho de 2023
  2. Prager, Burns, Tulman e MacDonald, Farm Use of Futures, Options, and Marketing Contracts, EIB-219, U.S. Department of Agriculture, Economic Research Service, 2020
  3. Lei no 8.929, de 22 de agosto de 1994, que institui a Cedula de Produto Rural, com as alteracoes da Lei no 13.986 de 2020 e da Lei no 14.421 de 2022
  4. Maldonado, Ferrari e Terré, Mapa comercial del trigo en Argentina, Informativo Semanal 2223, Bolsa de Comercio de Rosario, dezembro de 2025
  5. Cruz Júnior, Irwin, Marques, Martines Filho e Bacchi, O excesso de confiança dos produtores de milho no Brasil e o uso de contratos futuros, Revista de Economia e Sociologia Rural 49(2):369-390, 2011
O que este artigo cobre
Anotar numa planilha só cada compromisso de venda, qualquer que tenha sido a forma do negócio, somar o que já tem preço fixado, tirar esse total da produção esperada para achar o volume em aberto, calcular o que custa uma colheita menor do que a esperada contra o volume com preço fixado, e nomear quem pode assinar o próximo compromisso e até que volume.
O que ele não cobre
Não recomenda tipo de contrato, corretora, momento nem volume a fixar, e não compara formas de fixar preço. Se um contrato pode ser cobrado na Justiça, e o que acontece quando alguém descumpre, é pergunta para advogado no país de quem lê. A fazenda de algodão do exemplo é inventada, e os números dela são escolhas do exemplo, não dados.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Quanto da produção já tem preço fixado, e quem assinou cada negócio? [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/volume-travado-em-contrato/. Acesso em:


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