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Como saber se a escarificação ou o terraço funcionou

O talhão do fundo foi escarificado porque chegou o terceiro ano, e o terraço da encosta foi refeito depois de um ano de muita chuva. Sem uma leitura feita antes, ninguém sabe dizer se algum dos dois serviços mudou alguma coisa.

Publicado em Atualizado em 14 min
Neste artigo

Em 8 de junho de 2026, o gerente de uma fazenda de soja perto de Cornélio Procópio, no norte do Paraná (exemplo), crava duas estacas num talhão de 60 hectares. Escarificar é romper a camada compactada, e o talhão está na vez. Uma estaca marca a faixa pior, a outra um trecho junto à cerca onde nenhuma máquina passa. Em cada uma, o gerente enfia um penetrômetro, uma haste com mostrador que indica a dureza do solo, e anota a data e os dias desde a última chuva. A escarificação custa R$ 10.800 (valor suposto), e sem essas leituras ninguém sabe depois se compensou. Avalie o serviço só contra uma leitura feita antes, num ponto marcado.

A ferramenta é uma ficha de solo, uma página por área (uma mancha compactada, um terraço ou um canal). Ela tem uma linha para cada leitura, cada serviço e a data da próxima leitura. Fazer uma leitura é ir ao ponto marcado e voltar com números anotados.

Quanto dura o efeito de uma escarificação?

Depende do que se mede, e por isso uma única leitura depois do serviço não mostra se o efeito ainda vale. Na Embrapa Trigo, em Coxilha (RS), pesquisadores escarificaram parcelas de um Latossolo argiloso em plantio direto em datas de 0 a 36 meses antes da medição. Mediram todas as parcelas na mesma safra. O efeito durou 6 meses na densidade e na porosidade, 18 meses na resistência à penetração e 24 meses na infiltração da água.

Quanto durou uma escarificação em Coxilha, conforme o que se mediu, comparado a um calendário de 36 meses
O que se mediu Quanto durou o efeito Fração de um calendário de 36 meses
Densidade e porosidade do solo 6 meses Um sexto (17%)
Resistência à penetração 18 meses Metade (50%)
Infiltração da água 24 meses Dois terços (67%)
Figura: Meses que durou cada efeito de uma escarificação em Coxilha, comparados a um calendário de 36 meses
Uma escarificação durou 6, 18 ou 24 meses, conforme o que se mediuEm Coxilha, o efeito de uma escarificação durou 6 meses na densidade e na porosidade do solo, 18 meses na resistência à penetração e 24 meses na infiltração da água. Um calendário de três anos tem 36 meses.Meses que o efeito durouDensidade e porosidade do solo6 mesesResistência à penetração18 mesesInfiltração da água24 mesesCalendário de três anos36 meses

Isso vale para um solo e um experimento, e o seu talhão pode manter a mudança por mais ou menos tempo. No norte do Paraná, num levantamento com 145 proprietários e usuários do plantio direto, 88% disseram usar um implemento (escarificador, arado ou grade) a cada 3 anos. Isso é escarificar por calendário. Um calendário fixado de antemão não acompanha um efeito que muda com o solo, o tráfego de máquinas e a chuva depois da passada.

O que a escarificação por calendário rende?

Às vezes muito pouco, e só leituras no seu talhão mostram em qual caso você está. Um experimento longo da Embrapa Soja em Londrina (PR), num solo muito argiloso, rodou de 1988 a 2007. Escarificar a cada três anos no plantio direto aumentou a produtividade da soja em 7 de 14 safras sob rotação e em só 1 de 19 safras sob sucessão. Na sucessão, a mesma sequência de culturas se repete todo ano. A escarificação reduziu a produtividade em 2 safras da rotação e em 5 da sucessão. A circular cita esses resultados como dados não publicados.

Figura: Safras de soja em Londrina, conforme o que a escarificação a cada três anos fez com a produtividade
A escarificação aumentou a produtividade da soja em metade das safras da rotação e em 1 de 19 da sucessãoNa rotação, 14 safras: produtividade maior em 7, pouca diferença em 5, menor em 2. Na sucessão, 19 safras: produtividade maior em 1, pouca diferença em 13, menor em 5.Safras de soja, por mudança na produtividadeapós escarificar a cada três anosRotação, 14 safras7 maior, 5 pouca diferença, 2 menorSucessão, 19 safras1 maior, 13 pouca diferença, 5 menorProdutividade maiorPouca diferençaProdutividade menor

Os autores acrescentam que a resposta das plantas parece depender da espécie, do solo, do clima e do grau de compactação inicial. O último fator é o que a leitura de antes registra. Na fazenda do exemplo, as leituras nas duas estacas, comparadas com a produtividade daquela safra, é que colocam a escarificação numa das três colunas.

A sequência de culturas pesou nesse resultado, e por isso vale conferir se o talhão seguiu o plano de rotação na mesma comparação. Uma safra melhor depois da passada também não resolve. Comparar a produtividade do talhão com a média da fazenda ou da região em cada safra separa o efeito do ano do efeito do talhão.

O que torna a leitura de depois comparável com a de antes?

Comece pela água no solo, porque uma semana seca pode mostrar compactação que não existe. A Embrapa Cerrados avisa que medir com o solo seco pode dar leituras muito altas e um falso diagnóstico de compactação. Ela sugere medir depois de um período chuvoso, com o solo perto da capacidade de campo. Capacidade de campo é o solo que absorveu toda a água que retém e escoou o resto. A Embrapa Soja acrescenta que a umidade do solo na hora da avaliação deve ser medida também, principalmente para comparar glebas, camadas ou épocas.

Depois, o ponto. Marque um ponto na área e um ponto de comparação junto à cerca, onde o solo não é mexido, e leia os dois no mesmo dia.

Um educador da Cornell Cooperative Extension, no estado de Nova York, usou esse par num pasto. Ele dividiu a leitura da cerca pela leitura do pasto, de modo que solo mais duro dá razão menor, para controlar o tipo de solo e a umidade que muda. Em agosto de 2020, as razões do pasto e de um quadrado de teste cortado como feno caíram juntas, e ele não soube explicar por quê. A única medida que deixou de acompanhar foi a umidade do solo, e ele escreve que ainda faltam respostas para a razão ser uma ferramenta confiável. O que se aproveita é anotar a umidade ao lado do número.

Figura: Uma leitura na ficha de solo, com a primeira anotação da fazenda do exemplo
Uma linha de leitura: data, pontos, solo, ferramenta e quem foiA data, 8 de junho de 2026. Os pontos, A na faixa pior e B junto à cerca. O solo, mostrado pelos dias desde a última chuva. A ferramenta, um penetrômetro, e a profundidade. Quem foi, pelo nome.Uma leitura, uma linha1. A data8 de junho de 20262. Os pontosA: faixa pior. B: junto à cerca3. O solodias desde a última chuva4. A ferramentapenetrômetro, e a profundidade5. Quem foio nome, para a dúvida ter a quem ir

Duas leituras feitas de jeitos diferentes não se comparam, e por isso a ferramenta e a profundidade ficam na mesma linha do número. O resultado de laboratório segue a mesma regra: laudos de solo copiados numa página por talhão só se comparam quando alguém anota o laboratório, o método e o mês ao lado de cada número.

Terraço feito é terraço que funciona?

Nem sempre. Terraço é uma crista com canal atravessada na encosta, que segura a enxurrada para a água infiltrar em vez de descer o declive. Pesquisadores brasileiros acompanharam a reforma de terraços num talhão de 32,4 hectares em Bela Vista do Paraíso, no norte do Paraná, em 2016. Dos 15 terraços de base larga, reformou-se um e retirou-se o seguinte, e ficaram 7. A seção do canal, que define quanta água o terraço comporta, variou de 2,71 a 0,73 m² de um terraço para outro.

A equipe simulou quanta água os terraços precisavam armazenar com o solo infiltrando 30, 40 e 50 milímetros por hora. Com 30, pelo menos três terraços ficaram em cerca de 49% da eficiência necessária, situação que os autores chamam de preocupante. Com 40, o talhão inteiro passou de 76% para 97%, mas os terraços deficitários continuaram em cerca de 63%, e só com 50 chegaram a cerca de 87%.

Figura: Eficiência simulada dos terraços reformados, conforme a taxa com que o solo absorve a água
Os terraços deficitários só chegaram a 87% com o solo infiltrando 50 milímetros por horaCom 30 mm por hora, o talhão inteiro ficou em 76% e pelo menos três terraços em cerca de 49%. Com 40 mm, o talhão inteiro ficou em 97% e os terraços deficitários em cerca de 63%. Com 50 mm, os terraços deficitários ficaram em cerca de 87%; o número do talhão inteiro não foi informado.Talhão inteiroTerraços deficitários30 mm por hora76%49%40 mm por hora97%63%50 mm por horaTalhão inteiro: não informado87%

Os autores concluem que a reforma pode não controlar a erosão se outras práticas não elevarem a taxa de infiltração da água no solo. Eles citam a compactação excessiva entre as condições que tornam provável uma erosão significativa. Isso liga o terraço à mancha compactada, porque os dois dependem de a água entrar no solo depressa.

No levantamento do norte do Paraná, 74% consideram o plantio direto suficiente para controlar a erosão sem terraço, e 81% dizem que retirar os terraços facilita o manejo do solo. Na fazenda do exemplo, o terraço que já existe no talhão ganha uma linha na ficha, com a data da última vistoria. “Não se sabe” é uma primeira anotação honesta.

O que escrevo na ficha e quando volto?

Uma ficha por área, com três tipos de linha.

Os três tipos de linha da ficha de solo, e para que serve cada um
Linha O que entra Para que serve
Leitura A data; o ponto marcado e o ponto de comparação; quem foi; a ferramenta e a profundidade; os dias desde a última chuva; uma frase sobre o que se encontrou Sem o ponto e a condição do solo, a leitura de depois não tem com o que se comparar
Serviço O que será feito; em qual leitura se apoia; o prazo com mês e ano; quem responde; feito ou não feito, escrito no prazo Sem a leitura por trás, ninguém sabe dizer depois se o serviço mudou alguma coisa
Próxima data A data da próxima leitura, ou da próxima caminhada pelo terraço, e quem vai Sem data marcada de antemão, a leitura de depois não acontece
Figura: As datas da fazenda do exemplo na ficha de solo, da primeira leitura à segunda
A ficha da fazenda do exemplo: ler, fazer o serviço, ler de novo nas mesmas estacas8 de junho de 2026, primeira leitura nas duas estacas. Até 22 de junho de 2026, escarificação feita, escrita como feito ou não feito. 22 de dezembro de 2026, segunda leitura nas mesmas estacas, com o solo tão úmido quanto na primeira vez. Depois disso, cada data seguinte é marcada pelo que se encontrar.8 de junho de 2026Primeira leitura nas duas estacasAté 22 de junho de 2026Escarificação feita; escrevafeito ou não feito22 de dezembro de 2026Segunda leitura nas mesmas estacas,solo tão úmido quanto da primeira vezDepois dissoMarque cada data pelo que encontrar

Uma linha de serviço sem leitura por trás não se avalia, mas ela ainda data o serviço, e a primeira leitura depois dele vira o ponto de partida. Uma manhã por área basta, com uma pá, um caderno e o celular.

Para a primeira volta, a menor duração de Coxilha, seis meses, serve só como referência. Se no ponto marcado o efeito já sumiu, a próxima escarificação se apoia nessa leitura, e não no terceiro ano. Decidir quando ler, quem vai e o que precisa aparecer antes de mandar fazer outro serviço é gestão de fazenda aplicada a uma mancha de solo. Os outros registros talhão por talhão estão na biblioteca de produção.

Procedência

Deriva de
  1. Drescher, Reinert, Denardin, Gubiani, Faganello e Drescher, Duração das alterações em propriedades físico-hídricas de Latossolo argiloso decorrentes da escarificação mecânica, Pesquisa Agropecuária Brasileira 51(2), 2016
  2. Debiasi, Franchini e Gonçalves, Manejo da compactação do solo em sistemas de produção de soja sob semeadura direta, Embrapa Soja, Circular Técnica 63, 2008
  3. Furquim, Silva e Tavares Filho, Farmers' views on the use and management of soil and its relation to the return of erosion in no-tillage system, Semina: Ciências Agrárias 39(6), 2018
  4. Sá, M. A. C. de e Santos Junior, J. de D. G. dos, Compactação do solo: consequências para o crescimento vegetal, Embrapa Cerrados, Documentos 136, 2005
  5. Benson, F., A Possible New Technique To Monitor Soil Compaction, Cornell Cooperative Extension of Cortland County, janeiro de 2022, projeto NESARE LNE19-372
  6. Franchini, Armacolo, Debiasi, Balbinot Junior e Santos, Eficiência da manutenção e readequação do sistema de terraceamento numa fazenda no norte do Paraná, Reunião Brasileira de Manejo e Conservação do Solo e da Água, 2016
O que este artigo cobre
Por que a escarificação ou a obra de terraço feita por calendário, sem uma leitura do solo antes, não se avalia depois; quanto durou o efeito de uma escarificação em experimentos, conforme o que se mediu; o que torna a leitura de depois comparável com a de antes; por que terraço feito não prova terraço que funciona; e a ficha de solo de cada área, com as linhas de leitura, as linhas de serviço e a data da próxima leitura.
O que ele não cobre
Se é o caso de escarificar, subsolar ou fazer terraço, a que profundidade ou de quanto em quanto tempo, qual limite de resistência usar, como locar ou dimensionar um terraço e o que um número de penetrômetro significa para a lavoura. Essas decisões são suas e do seu agrônomo. O artigo também não trata de plano de conservação exigido por lei ou por financiamento.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Como saber se a escarificação ou o terraço funcionou. [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/producao/compactacao-avaliada-e-registrada/. Acesso em:


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