O produtor rural que lê a queda do fósforo no laudo como perda de fertilidade pode comprar adubo que o solo não pede. Num exemplo, um produtor rural com 400 hectares de pasto em Xinguara, no sul do Pará, vê o fósforo cair de 9 para 8 miligramas por decímetro cúbico (mg/dm³). Ele aplica 25 kg de adubo fosfatado, medido como P2O5, por hectare. São 10.000 kg a R$ 12 por kg, ou R$ 120.000. Antes de definir qualquer dose, copie cada laudo numa página por talhão e trace uma linha onde mudou o laboratório, o extrator, a unidade, a profundidade ou o mês. Todos os valores deste exemplo são inventados.
O solo não mudou. Os 9 mg/dm³ do ano passado vieram da resina trocadora de ânions, e os 8 mg/dm³ deste ano vieram do Mehlich-1, usado pelo laboratório novo. Resina e Mehlich-1 são dois jeitos de o laboratório tirar o fósforo da amostra. Em 301 amostras de solo de Santa Catarina, o Mehlich-3 e a resina extraíram em média 12% e 11% mais fósforo que o Mehlich-1. Nove mg/dm³ pela resina correspondem, em média, a cerca de 8 mg/dm³ pelo Mehlich-1.
Quais talhões têm análise em dia, e há quanto tempo?
Ninguém responde antes de listar todos os talhões com a data da última coleta. Os laudos estão guardados, mas a lista quase nunca existe, e a resposta de memória esquece um talhão. No exemplo, os 120 hectares de pasto arrendados há dois anos nunca foram amostrados, porque o arrendatário achou que o dono tinha laudo e o dono achou que o arrendatário ia coletar. O talhão dividido ao meio quando a cerca mudou continua sendo amostrado como um só.
Não existe um intervalo único para todo talhão. A Embrapa manda repetir a amostragem a cada 3 a 5 anos em áreas com culturas perenes e uma vez ao ano em áreas sob cultivo intensivo. O intervalo da sua fazenda você escolhe com o seu agrônomo e escreve no alto da lista, onde cada data pode ser lida contra ele.
O intervalo também define quanto tempo uma mudança na fertilidade passa sem ser vista. Ela pode começar em qualquer dia entre duas análises, e por isso fica sem ser vista, em média, metade do intervalo.
A mesma conta, em dias, está em quanto tempo você leva para saber que algo deu errado. Escreva a lista hoje: uma linha por talhão, com o nome, a data da última análise e os anos desde então.
Por que o mesmo solo dá dois números?
Uma análise de solo é duas coisas ao mesmo tempo: a solução que tira o nutriente da amostra, chamada extrator, e o modo como o laboratório mede o que saiu. Dois extratores dão números diferentes para o mesmo solo. No estudo de Santa Catarina, a diferença ainda mudou com a textura: o Mehlich-1 extraiu menos fósforo que os outros extratores em solo arenoso e mais em solo argiloso.
Por isso a média de 11% não serve de fator de conversão. Ela vale para o conjunto das amostras, e o seu talhão pode ficar longe dela. Converter um resultado em outro não é trabalho de quem copia o laudo.
Sua parte é copiar o nome do extrator ao lado de cada resultado. Quando o laudo não traz o extrator, deixe em branco e escreva quem liga para o laboratório. Qual extrator usar, e o que o número significa, é trabalho do agrônomo que assina a recomendação.
Copio o número ou a classe (baixo, médio, bom)?
Copie o número. A classe é a escala de quem imprimiu o laudo. A Universidade de Minnesota escreve que o laboratório pode usar a faixa de valores que escolher. O mesmo guia diz que o número é um índice, e não a quantidade do nutriente disponível ou presente no solo.
No Brasil, a tabela da Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais (CFSEMG) mostra a distância. Para o fósforo pelo Mehlich-1, a classe depende do teor de argila do solo. O mesmo valor de 12 mg/dm³ é Bom com 60 a 100% de argila, Médio com 35 a 60%, e Baixo com 15 a 35% e com 0 a 15%.
A Embrapa Milho e Sorgo, na publicação com essa tabela, registra que para o fósforo Minas adota o Mehlich-1 e São Paulo, a resina, e por isso os critérios deixam de ser únicos. Um laudo de outro laboratório ou de outro estado pode imprimir outra classe para o mesmo número. Copiado com a unidade e com o extrator, o número ainda se compara no ano seguinte. A classe, não.
O que mais precisa ficar igual de um ano para o outro?
A unidade, a profundidade, o mês e o laboratório. Os laudos brasileiros trazem os cátions trocáveis, como o cálcio, em mmolc/dm³ ou em cmolc/dm³: os valores em mmolc/dm³ são 10 vezes os valores em cmolc/dm³. Sem a unidade, a mesma amostra aparece como 2 num laudo e como 20 noutro. Copie a unidade como está impressa, na mesma linha do número, e não converta para a que você conhece.
A profundidade também faz parte do número. A Embrapa manda coletar de 0 a 20 cm nas culturas anuais e, em pastagens e culturas perenes, nas camadas de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm. O NRCS, o Serviço de Conservação de Recursos Naturais dos Estados Unidos, pede, nos testes de saúde do solo, a mesma profundidade, de 0 a 15 cm, em cada coleta. Os guias divergem nos centímetros; o que vale é cada laudo trazer a sua profundidade e ela se repetir. Um laudo de 0 a 20 cm e outro de 20 a 40 cm do mesmo pasto comparam duas camadas diferentes de solo.
O NRCS pede ainda a mesma época do ano em cada coleta e o mesmo laboratório ao longo do tempo, porque laboratórios têm instrumentos ou protocolos diferentes que afetam os resultados. Copie a data da coleta com o mês, e não só o ano, para que a diferença entre dois anos possa ser atribuída ao solo ou ao calendário. A Embrapa acrescenta que convém evitar a coleta logo depois de calagem ou adubação; se houve uma das duas, escreva a data na página.
O que copio primeiro, e quem assina a página?
Abra o laudo mais recente do talhão sobre o qual alguém perguntou por último e copie os seis itens abaixo. Cada um responde a uma pergunta que alguém vai fazer depois, e o item em branco deixa essa pergunta aberta.
| Item na página | Copiado de | O que quebra quando fica em branco |
|---|---|---|
| Data da coleta | Cabeçalho do laudo | Nada pode ser chamado de atual ou vencido, e dois laudos não se ordenam |
| Profundidade coletada | Cabeçalho do laudo, ao lado do número da amostra | Duas camadas diferentes de solo são comparadas como se fossem uma |
| Laboratório | Cabeçalho ou timbre do laudo | Ninguém para consultar, e nenhum jeito de saber como o laboratório mede |
| Extrator ao lado de cada resultado | Tabela de resultados, junto ao nutriente | Ninguém sabe se dois números do mesmo talhão se comparam |
| Número e unidade como impressos | Tabela de resultados, copiados sem conversão | Um valor numa unidade é lido contra uma faixa escrita noutra |
| Nome de quem leu e a data | Escrito à mão por quem leu os resultados | Ninguém na fazenda responde pelo resultado |
Quando o talhão tem laudos anteriores, copie cada um embaixo como bloco novo com a sua data, e trace uma linha onde mudou o laboratório, o extrator, a unidade, a profundidade ou o mês. No exemplo, a linha cai entre 2025 e 2026, porque o laboratório e o extrator mudaram, e os dois números de fósforo ficam em lados opostos dela.
Quem leu o laudo assina o pé da página com a data e anota qual recomendação o laudo sustentou. Escrever as condições ao lado da medida é o mesmo hábito de uma avaliação de compactação com data. Uma página assim para cada talhão é um registro que outra pessoa encontra e lê, e é nele que se apoia a gestão de fazendas. A seção de produção desta biblioteca reúne os outros registros de produção.
Deixe em branco o que o laudo não traz. Um número escrito de memória parece resposta e ninguém consegue conferi-lo, enquanto um branco com nome e data ao lado diz quem vai ligar.