Pular para o conteúdo
Diagnóstico
BibliotecaSustentabilidade

Quem pode usar os dados da faixa de ensaio na sua fazenda?

Antes de uma empresa, um instituto ou uma universidade fazer um ensaio na sua fazenda, as duas partes podem assinar um termo de parceria de uma página, com seis itens. O primeiro diz quem pode usar os dados da faixa de ensaio, uma pergunta que nenhuma lei específica, nas fontes lidas, responde.

Publicado em Atualizado em 12 min
Neste artigo

Quem paga quando o ensaio de uma empresa deixa 10 hectares da sua soja em Londrina (PR) 5 sacas por hectare abaixo do resto da lavoura, e quem pode usar os dados dessa faixa depois? Ao preço médio de R$ 118,16 por saca de 60 kg que o Deral registrou no Paraná na primeira semana de 2026, essa diferença custa R$ 5.908 numa safra. Por isso, antes da primeira passada de máquina, escreva um termo de parceria de uma página, com seis itens, e assine com a outra parte. O primeiro item diz quem pode usar os dados da faixa. O termo de parceria é um acordo escrito de uma página entre você e quem faz o ensaio, e não substitui um contrato feito por advogado.

Quanto custa receber um ensaio na sua lavoura?

A faixa de ensaio é uma tira do talhão que o patrocinador semeia ou trata do jeito dele. A faixa testemunha, ao lado, fica como você sempre cultivou, para as duas serem comparadas. As duas podem render menos que o resto do talhão: um tratamento pode falhar, e uma testemunha pode ficar sem um insumo.

O custo vem de três formas. A primeira é o trabalho de máquina. A Embrapa, no livro sobre agricultura de precisão, lista a necessidade de sobrepor ou manter próximas as linhas de semeadura do cultivo anterior, o que pode criar dificuldades para o maquinário. A segunda é a produtividade. Os mesmos autores dizem que pode ser preciso manter tratamentos com produtividade abaixo da média da fazenda, como testemunhas sem um dos nutrientes.

A terceira é o tempo. Eles observam que ensaios de adubação em lavouras há muitos anos em plantio direto pedem experimentos de longo prazo, porque um ou dois ciclos de cultivo costumam não bastar para testar a ideia.

Há quem pague por isso. Nos Estados Unidos, a Practical Farmers of Iowa, uma organização de pesquisa conduzida por agricultores, paga um valor anual a quem coopera, para cobrir custo e tempo do projeto. Em projetos maiores, a equipe e o agricultor combinam o pagamento antes do início. Combine o seu do mesmo modo, antes da primeira passada.

Figura: O que 5 sacas por hectare a menos custam no exemplo, ao preço de R$ 118,16 por saca. Fonte: Deral, via Revista Cultivar, 2026, e a suposição do exemplo
Uma faixa com 5 sacas por hectare a menos custa R$ 5.908 em 10 hectaresPor hectare, 5 sacas a R$ 118,16 são R$ 590,80. Em 10 hectares, numa safra, são R$ 5.908. Em duas safras, R$ 11.816.5 sacas a menos, a R$ 118,16 a sacaPor hectareR$ 590,8010 hectares, uma safraR$ 5.90810 hectares, duas safrasR$ 11.816Diferença suposta no exemplo

Escreva na página o pagamento e o número de safras antes de alguém ligar o trator.

De quem é a pergunta que o ensaio responde?

Do patrocinador, a menos que você escreva a sua. Os autores da Embrapa separam dois tipos de estudo. Nos de inoculantes, fertilizantes, máquinas e proteção de plantas, o foco está na efetividade da tecnologia em si e não na aplicação dela na área onde o estudo foi conduzido.

A experimentação on-farm, escrevem eles, busca na maior parte das vezes resultados que valem para o talhão estudado. Para isso, é preciso coletar dados do local e criar confiança entre os parceiros sobre o acesso e o uso das informações.

Eles também registram que a interação com um instituto de pesquisa ou uma empresa prestadora de serviço muitas vezes é vista como um jeito de obter dados da propriedade para uso de terceiros. Não dizem quem a vê assim.

Figura: Duas perguntas que um ensaio pode responder. Fonte: Pires e outros, Embrapa, 2024, p. 38 a 42
O patrocinador pergunta pelo produto; você pergunta pelo talhãoO ensaio de um produto pergunta se a tecnologia funciona, e o resultado serve ao estudo do patrocinador. O ensaio na lavoura pergunta o que vale para este talhão, e para isso precisa dos dados do talhão e de confiança sobre quem os usa.A pergunta do patrocinadorA tecnologia funciona?Foco: o produto em si, nãoa área onde o estudo rodouPrecisa de: a sua faixaA sua perguntaO que vale para este talhão?Foco: resultado para o talhãoestudadoPrecisa de: dados do talhão e confiança

Antes de falar com o patrocinador, escreva a sua pergunta numa folha própria, com o talhão e a cultura. O que um ensaio pode e não pode testar está em outro artigo: o que o ensaio da sua lavoura testa.

Alguma lei diz de quem são os dados da faixa?

Nenhuma lei específica, nas fontes lidas aqui. Num artigo de 2023, pesquisadores escrevem que no Brasil ainda não há iniciativas de autorregulação setorial. Segundo eles, também não há legislação específica sobre o assunto, além da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Eles avisam também que cruzar informações não pessoais por princípio pode permitir identificar o titular dos dados. São exemplos a geolocalização da propriedade rural, o tipo de cultura e imagens de satélite. Por isso o primeiro item da página diz se os resultados publicados podem mostrar o seu nome ou a localização do talhão.

O Projeto de Lei 4.123/2020 propõe tornar o produtor rural dono dos dados que um fornecedor de tecnologia agrícola contratado coleta. Em 27/10/2026 estava aguardando designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Mesmo que seja aprovado, não se sabe se alcança um ensaio na sua fazenda.

Na prática, muita gente não assina nada. Numa pesquisa pela internet da Universidade de Wisconsin-Madison com 73 produtores rurais de leite, 81 por cento não tinham assinado um acordo de compartilhamento de dados ou não sabiam se tinham. Além disso, 38 por cento não sabiam como parar o compartilhamento. O questionário foi enviado a uma amostra de conveniência e tratava de dados da fazenda em geral, não de ensaios.

Figura: O que 73 produtores rurais de leite de Wisconsin (EUA) responderam em 2021 sobre compartilhar dados. Fonte: Fadul-Pacheco e outros, 2022
A maioria de 73 produtores rurais de leite não tinha assinado acordo de dados ou não sabiaDe 73 produtores rurais de leite, 81 por cento não tinham assinado um acordo de compartilhamento de dados ou não sabiam se tinham. 38 por cento não sabiam como parar o compartilhamento. Amostra de conveniência, sobre dados da fazenda em geral.Parcela dos 73 produtores rurais de leiteNão tinham assinado acordo,ou não sabiam se tinham81%Não sabiam como pararo compartilhamento38%Amostra de conveniência, dados em geral

Como a lei deixa essa lacuna, a página escrita a preenche.

O que vai na página?

Seis itens, numa página, com uma linha para cada um.

  1. Quem pode usar os dados da faixa.
  2. O talhão e as datas.
  3. O que cada lado faz, e quem fornece as máquinas, o combustível e a mão de obra.
  4. O que você pode perder e como é pago.
  5. O que volta para a fazenda e até quando.
  6. As duas assinaturas e a data.

O item dos dados pode ser curto e exato. Numa unidade-piloto do SemeAr, projeto da Embrapa, em Caconde (SP), 232 produtores rurais responderam a um questionário pela internet. Os dados brutos ficaram restritos à unidade da Embrapa que coordenava o projeto, nome, e-mail e telefone foram retirados, e os parceiros receberam só os dados agregados. Foi um questionário, não um ensaio, mas o arranjo cabe numa frase: quem guarda os dados brutos e o que sai da fazenda, em que forma.

Este termo não é o contrato de parceria rural. Nele, uma pessoa cede à outra o uso de um imóvel rural e as duas repartem riscos e frutos, como define o Decreto 59.566, art. 4º. O termo daqui é só o combinado do ensaio, escrito com as suas palavras.

Figura: Os seis itens do termo de parceria de uma página, na ordem de escrever
Seis itens numa páginaUm: quem pode usar os dados. Dois: o talhão e as datas. Três: o que cada lado faz e fornece. Quatro: o que você pode perder e como é pago. Cinco: o que volta para a fazenda e até quando. Seis: assinaturas e data.1Quem pode usar os dados2O talhão e as datas3O que cada lado faz e fornece4O que você pode perder, e o pago5O que volta, e até quando6As duas assinaturas e a data

Marque a faixa no mapa que o tratorista usa, para a primeira passada não tratá-la como o resto do talhão. A página assinada também é o registro escrito de um vínculo entre a fazenda e uma organização de fora. Outro artigo explica como manter a lista desses vínculos.

O que escrever primeiro, e em quanto tempo?

Escreva primeiro o item um, porque é o que nenhuma lei resolve por você. Reserve cerca de uma hora para conversar os seis itens com quem propõe o ensaio e cerca de vinte minutos para escrever a página. As duas medidas de tempo são estimativas, não tempos medidos.

Escreva a data de fim na página e no plano do talhão. Outro artigo explica o plano de produção de cada talhão para três safras.

Figura: A ordem do trabalho antes da primeira passada de máquina
Da sua pergunta à página assinada, antes da primeira passadaEscreva a sua pergunta. Converse os seis itens, cerca de uma hora. Escreva a página, cerca de vinte minutos. As duas partes assinam as duas vias. Primeira passada de máquina. Depois da data de fim, a faixa segue o que a página diz.Escreva a sua perguntaConverse os seis itensCerca de uma horaEscreva a páginaCerca de vinte minutosAs duas partes assinam as duas viasPrimeira passada de máquinaDepois da data de fim, como a página diz

Outros documentos deste tipo estão na parte da biblioteca sobre sustentabilidade, e o mesmo hábito de escrever antes do trabalho serve para o resto da gestão de fazendas.

Procedência

Deriva de
  1. Pires, Brandão, Resende e outros, Experimentação on-farm no âmbito da agricultura de precisão, in Bassoi e outros (orgs.), Agricultura de precisão: um novo olhar na era digital, São Carlos, Cubo, 2024, p. 38 a 42
  2. Mendes, Maranhão, Bertin, Mondo e Pires, Governança de dados para a pesquisa agrícola: segurança jurídica e autorregulação, Cadernos de Ciência & Tecnologia 40, e27209, 2023
  3. Câmara dos Deputados, Projeto de Lei (PL) 4.123/2020, ficha de tramitação, consultada em 27/10/2026
  4. Revista Cultivar, PR: safra 2025/26 de soja mantém cenário positivo em janeiro, com dados do Deral, 15/01/2026
  5. Brasil, Decreto nº 59.566, de 14 de novembro de 1966 (regulamento dos contratos agrários), art. 4º
  6. Fadul-Pacheco, Wangen, da Silva e Cabrera, Addressing Data Bottlenecks in the Dairy Farm Industry, Animals 12(6), 721, 2022
O que este artigo cobre
Como escrever um termo de parceria de uma página, um acordo escrito que as duas partes assinam antes de uma empresa, um instituto ou uma universidade fazer um ensaio na fazenda. Os seis itens: quem pode usar os dados da faixa; o talhão e as datas; o que cada lado faz, e quem fornece as máquinas, o combustível e a mão de obra; o que você pode perder e como é pago; o que volta para a fazenda e até quando; e as duas assinaturas. Também quanto custa receber um ensaio, num exemplo de soja em Londrina (PR), e por que nenhuma lei específica, nas fontes lidas, resolve o primeiro item para você.
O que ele não cobre
Se vale aceitar o ensaio e como desenhá-lo: largura da faixa, repetição, faixas testemunha e análise cabem a quem o propõe e ao seu agrônomo. Também fica de fora a forma jurídica do documento e qual lei vale, que mudam de país para país e são trabalho de advogado onde você produz, além de direito sobre cultivar, royalties e quanto cobrar pelo talhão. Não interpreta lei, não recomenda um valor de pagamento nem promete resultado. Uma página assinada não garante que os dados ou os resultados voltem; com ela, você tem algo escrito para cobrá-los.
Publicado
Atualizado
Erro encontrado
Aponte um erro e o artigo é corrigido com nota do que mudou.

Como citar este artigo

RURIVIA. Quem pode usar os dados da faixa de ensaio na sua fazenda? [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/sustentabilidade/termo-de-parceria-antes-do-experimento/. Acesso em:


Continue lendo

Sustentabilidade

Que prazo da fazenda custa mais perder, e quem responde?

Perdeu um prazo e a multa costuma ser pequena. O que o atraso custa de verdade é a porta que fecha, o crédito, a venda, a licença, no dia em que alguém pede o documento.

13 de set. de 2026
Sustentabilidade

A fazenda precisa de relatório ESG para vender e financiar?

Sem o CAR analisado e conforme, um custeio de R$ 1 milhão em Sorriso (MT) paga ao menos R$ 5.000 a mais de juros por ano. Relatório ESG não substitui essa situação; uma folha datada, com a prova, sim.

7 de set. de 2026
Sustentabilidade

Código de conduta da fazenda: consequência antes do caso

Código escrito sozinho muda pouco. No dia em que uma regra é quebrada ou alguém é assediado, o que você tem a mostrar é uma consequência decidida antes e um caminho de denúncia que não passa pelo chefe.

5 de set. de 2026
Sustentabilidade

Quanto de ano ruim a sua fazenda aguenta sem prejuízo?

Uma margem de 15% parece segura até preço e colheita caírem no mesmo ano: a folga cai para perto da metade, e um ano ruim comum pode gastá-la toda.

1 de set. de 2026

Gestão de Fazendas

Se este artigo fosse uma planta, a gestão da fazenda seria a lavoura inteira.

Planejar, organizar, dirigir e controlar: as quatro funções, o que cada uma decide, e um exemplo da fazenda para cada uma, reunidas numa página só.