Travar o preço é combinar hoje com o comprador quanto você vai receber por grão que entrega depois. A oferta a termo chega como um preço só, e o comprador embute nele uma taxa por ficar com o seu risco de preço. Tire da oferta o preço do futuro e sobra a base embutida nela, que você compara com a base que espera na entrega. Em 10.000 sacas de milho, uma diferença de R$ 2 por saca custa R$ 20.000. Se vale pagar essa taxa depende do que você tem a pagar antes da entrega. Escreva numa página só a oferta, as duas bases, a taxa e o volume que você decidiu, com data e nome.
Onde está a taxa numa oferta que chega como um preço só?
Na base. Numa terça-feira de maio, a trading perto de uma fazenda de milho em Sorriso (MT) oferece R$ 47 por saca de 60 quilos, para entrega em julho, válida até o fim do dia. O futuro de milho da B3 com vencimento em setembro, a cotação pública da bolsa, está em R$ 62. A oferta fica R$ 15 abaixo do futuro. Essa distância é a base embutida na oferta: o preço pago na sua região menos o preço do futuro.
Quem calculou o preço assumiu o seu risco de preço e cobrou por isso dentro da cotação. A parte do futuro é um número público que o comprador não move, então a taxa só pode estar na base.
A Universidade Estadual do Kansas mediu essa taxa no trigo. Taylor e dois colegas coletaram ofertas a termo toda quarta-feira em 18 armazéns e estimaram o custo de contratar a termo em US$ 0,086 por bushel entre 2002 e 2007. Um bushel de trigo pesa cerca de 27 quilos. Entre 2008 e 2012, quando a base local ficou instável, a estimativa subiu para US$ 0,327 por bushel.
Por bushel parece pouco, e uma taxa embutida no preço nunca chega como cobrança. Num contrato de 5.000 bushels, deu US$ 430 no primeiro período e US$ 1.635 no segundo. Nenhum contrato tinha uma linha para esses valores. O produtor rural os pagou numa oferta com a base mais larga, isto é, mais abaixo do futuro.
Os autores descrevem armazéns que garantem um preço de colheita em troca de uma taxa, que chamam de prêmio de risco, e que cobram mais quando a base local fica menos previsível. Num terminal fluvial de Oklahoma, Townsend e Brorsen estimaram o custo de contratar trigo a termo em seis a oito centavos de dólar por bushel, 100 dias antes da entrega. O gerente do terminal acreditava que as ofertas não traziam prêmio de risco, e os dados mostraram que traziam.
Os dois estudos são de trigo, em lugares e anos específicos. Mostram que a taxa existe e acompanha a base. Não dizem quanto o seu comprador cobra, e nenhum deles mediu milho.
Como achar a taxa com os seus números?
Compare a base embutida na oferta com a base que você espera na entrega, porque a base varia muito menos de um ano para o outro que o preço. Num guia de extensão do Kansas, Dhuyvetter compara dois anos de trigo em Dodge City: diferença média de US$ 1,42 por bushel no nível de preço, contra apenas US$ 0,17 por bushel na base. Ninguém sabe o preço do próximo julho. Da série de preços que você guarda, uma lista de cotações com a fonte e a data de cada uma, dá para estimar bem a base do próximo julho.
Dhuyvetter faz disso um teste para a oferta: conhecida a base esperada, a oferta a termo pode ser avaliada. O produtor rural de Sorriso olha os julhos passados na mesma praça e espera uma base R$ 13 abaixo do futuro.
Se esperar custa algo que travar evita, como juro ou quebra sobre grão que você carregaria até uma venda mais tarde, desconte esse custo dos R$ 49. Se você entrega no mesmo dia de qualquer jeito, esse custo é zero.
Vale pagar R$ 2 por saca se o preço ainda pode subir?
A taxa é uma vantagem pequena diante de um preço que pode andar R$ 10 ou mais para qualquer lado, então o preço esperado não decide. Escreva o menor e o maior preço de entrega da sua própria série, deixando um ano ruim que você viveu marcar o menor. O produtor rural de Sorriso escreve R$ 38 e R$ 60.
Não confie numa faixa só porque ela parece confortável. Cruz Júnior e quatro colegas fizeram um estudo brasileiro revisado por pares. Em outubro e novembro de 2008, pediram a 90 produtores rurais de milho do Sul e do Centro-Oeste que repartissem suas expectativas de preço em faixas. Dos 81 cujas respostas puderam ser comparadas, 62 deram uma faixa mais estreita que a produzida pelo mercado futuro. Os autores leem isso como uma percepção de risco inferior ao risco de mercado.
Os 90 foram selecionados, não sorteados, e os autores dizem que a amostra não garante representatividade estatística dos produtores rurais de milho brasileiros. Fique com o padrão, não com a fração exata: muitos desses produtores rurais imaginaram uma faixa mais estreita que a do mercado.
O que decide é com qual ponta da faixa você consegue viver, e as duas pontas não pesam igual. O produtor rural de Sorriso espera 60.000 sacas e deve R$ 2.640.000 antes da entrega, entre a parcela do financiamento e a conta dos insumos. Para cobrir isso, o milho precisa sair a R$ 44 por saca. No preço alto de R$ 60, o dinheiro a mais faz um ano melhor. No baixo, de R$ 38, a venda rende R$ 2.280.000 e fica R$ 360.000 abaixo de um pagamento com data fixa, e aí o problema é uma conversa com o banco.
Confira a ponta baixa contra a parcela que vence naquele mês e contra o preço de equilíbrio, o menor preço que cobre o que a lavoura custou. A proteção custa a taxa e mais uma coisa: o preço travado não sobe quando o mercado sobe, então você abre mão do alto da faixa.
O que ainda pode dar errado depois de assinar?
Três coisas que as subtrações não resolvem. A primeira é a quantidade. A MATba, bolsa de grãos de Buenos Aires, ensina que o contrato a termo fixa qualidade, quantidade, momento e lugar de entrega e preço. O cumprimento depende da boa-fé das duas partes. Se você colher menos do que assinou, continua devendo as sacas. Leia a cláusula que diz o que acontece quando você entrega menos.
A segunda é a exigência do comprador. Um telefonema não diz se o comprador vai honrar o contrato. Use a ligação no que você consegue conferir: qual classificação, qual umidade, qual janela de entrega e o que acontece com o preço se a carga sair abaixo do combinado.
A terceira é uma taxa que sai a seu favor. Se a base na oferta é melhor que a que você espera, o comprador paga mais do que a sua série diz que o mercado paga. Dhuyvetter descreve esse caso com bezerros: uma base oferecida mais forte que o normal é um forte incentivo financeiro para vender hoje, para entrega futura. Trate como motivo para travar volume, nunca para assinar além do que uma colheita ruim entrega.
Quanto travar, e o que escrever primeiro?
Trave a parte da safra que precisa pagar o que vence aconteça o que acontecer e deixe o resto em aberto. O volume tem dois limites. O piso é o preço: nada assinado abaixo do preço de equilíbrio. O teto é a quantidade: as sacas que o seu pior ano ainda entrega, e não as que você espera.
Confira esse volume contra o que já tem preço travado e contra a parte que o seu plano de comercialização escrito reserva para esta data. Só oito dos 90 produtores rurais do estudo brasileiro tinham vendido algo antecipadamente, e nenhum tinha vendido tudo. Na prática, a pergunta é quanto travar, mais que se vai travar.
Quando a taxa é o número que chama atenção, mude o que você pede em vez de decidir se assina. Peça ao comprador que cote o futuro do mês de entrega e a base como dois números, e não como um preço só. Uma oferta em dois números dá para negociar, e uma base que lhe disseram dá para registrar e comparar no ano seguinte. A calculadora de venda antecipada, gratuita neste site, faz as mesmas subtrações.
Se você quer proteção de preço sem a promessa de entrega, o contrato futuro na bolsa cobre o mesmo risco de outro jeito. Você fica com o risco de base em vez de pagar uma taxa de base. Townsend e Brorsen concluem que os custos de contratar a termo são substancialmente maiores que o custo do hedge, para um terminal naqueles anos. Isso não é conselho sobre o seu comprador, e um comprador comprometido a levar o seu grão numa data fixa pode valer algo por si só. O artigo sobre qual preço sobra depois do hedge trata desse caminho.
Meia hora, com a oferta à mão, a sua série de preços aberta e uma página em branco para esta oferta.
Seja qual for a decisão, ela vira uma linha na sua série de preços. Registradas oferta após oferta, essas linhas fazem parte da gestão de fazendas: no ano seguinte você vê quanto cada trava custou e se a taxa comprou uma proteção de que você precisava. Os outros artigos da seção de comercialização da biblioteca partem do mesmo registro.