Pular para o conteúdo
Diagnóstico
BibliotecaComercialização

Venda antecipada do milho: vale a pena travar o preço?

A oferta do comprador chega como um preço só, com uma taxa embutida. Tire dela o preço do futuro, compare o que sobra com a base que você espera e trave o volume que cobre o que vence antes da entrega.

Publicado em Atualizado em 15 min
Neste artigo

Travar o preço é combinar hoje com o comprador quanto você vai receber por grão que entrega depois. A oferta a termo chega como um preço só, e o comprador embute nele uma taxa por ficar com o seu risco de preço. Tire da oferta o preço do futuro e sobra a base embutida nela, que você compara com a base que espera na entrega. Em 10.000 sacas de milho, uma diferença de R$ 2 por saca custa R$ 20.000. Se vale pagar essa taxa depende do que você tem a pagar antes da entrega. Escreva numa página só a oferta, as duas bases, a taxa e o volume que você decidiu, com data e nome.

Onde está a taxa numa oferta que chega como um preço só?

Na base. Numa terça-feira de maio, a trading perto de uma fazenda de milho em Sorriso (MT) oferece R$ 47 por saca de 60 quilos, para entrega em julho, válida até o fim do dia. O futuro de milho da B3 com vencimento em setembro, a cotação pública da bolsa, está em R$ 62. A oferta fica R$ 15 abaixo do futuro. Essa distância é a base embutida na oferta: o preço pago na sua região menos o preço do futuro.

Quem calculou o preço assumiu o seu risco de preço e cobrou por isso dentro da cotação. A parte do futuro é um número público que o comprador não move, então a taxa só pode estar na base.

Figura: A oferta de Sorriso ao lado do futuro de setembro, em reais por saca. Valores inventados para o exemplo
A oferta fica R$ 15 abaixo do futuroFuturo de milho da B3 para setembro a R$ 62 por saca e oferta da trading a R$ 47 por saca. Os R$ 15 entre os dois são a base embutida na oferta, e a taxa fica aí.Milho, uma terça-feira de maioFuturo de setembroR$ 62 por sacaOferta da tradingR$ 47 por sacaR$ 15 abaixo:a base na ofertaO futuro é público, então a taxa fica na base

A Universidade Estadual do Kansas mediu essa taxa no trigo. Taylor e dois colegas coletaram ofertas a termo toda quarta-feira em 18 armazéns e estimaram o custo de contratar a termo em US$ 0,086 por bushel entre 2002 e 2007. Um bushel de trigo pesa cerca de 27 quilos. Entre 2008 e 2012, quando a base local ficou instável, a estimativa subiu para US$ 0,327 por bushel.

Por bushel parece pouco, e uma taxa embutida no preço nunca chega como cobrança. Num contrato de 5.000 bushels, deu US$ 430 no primeiro período e US$ 1.635 no segundo. Nenhum contrato tinha uma linha para esses valores. O produtor rural os pagou numa oferta com a base mais larga, isto é, mais abaixo do futuro.

Os autores descrevem armazéns que garantem um preço de colheita em troca de uma taxa, que chamam de prêmio de risco, e que cobram mais quando a base local fica menos previsível. Num terminal fluvial de Oklahoma, Townsend e Brorsen estimaram o custo de contratar trigo a termo em seis a oito centavos de dólar por bushel, 100 dias antes da entrega. O gerente do terminal acreditava que as ofertas não traziam prêmio de risco, e os dados mostraram que traziam.

Os dois estudos são de trigo, em lugares e anos específicos. Mostram que a taxa existe e acompanha a base. Não dizem quanto o seu comprador cobra, e nenhum deles mediu milho.

Como achar a taxa com os seus números?

Compare a base embutida na oferta com a base que você espera na entrega, porque a base varia muito menos de um ano para o outro que o preço. Num guia de extensão do Kansas, Dhuyvetter compara dois anos de trigo em Dodge City: diferença média de US$ 1,42 por bushel no nível de preço, contra apenas US$ 0,17 por bushel na base. Ninguém sabe o preço do próximo julho. Da série de preços que você guarda, uma lista de cotações com a fonte e a data de cada uma, dá para estimar bem a base do próximo julho.

Dhuyvetter faz disso um teste para a oferta: conhecida a base esperada, a oferta a termo pode ser avaliada. O produtor rural de Sorriso olha os julhos passados na mesma praça e espera uma base R$ 13 abaixo do futuro.

Figura: A base na oferta contra a base que você espera, em reais abaixo do futuro. Valores inventados para o exemplo
A diferença entre as duas bases é a taxaA oferta fica R$ 15 abaixo do futuro e a base esperada é de R$ 13 abaixo. A diferença, R$ 2 por saca, é a taxa, que soma R$ 20.000 em 10.000 sacas.Reais abaixo do futuro de setembroNa oferta15Esperada da sua série13A diferença: R$ 2 por sacaEm 10.000 sacas: R$ 20.000

Se esperar custa algo que travar evita, como juro ou quebra sobre grão que você carregaria até uma venda mais tarde, desconte esse custo dos R$ 49. Se você entrega no mesmo dia de qualquer jeito, esse custo é zero.

Vale pagar R$ 2 por saca se o preço ainda pode subir?

A taxa é uma vantagem pequena diante de um preço que pode andar R$ 10 ou mais para qualquer lado, então o preço esperado não decide. Escreva o menor e o maior preço de entrega da sua própria série, deixando um ano ruim que você viveu marcar o menor. O produtor rural de Sorriso escreve R$ 38 e R$ 60.

Não confie numa faixa só porque ela parece confortável. Cruz Júnior e quatro colegas fizeram um estudo brasileiro revisado por pares. Em outubro e novembro de 2008, pediram a 90 produtores rurais de milho do Sul e do Centro-Oeste que repartissem suas expectativas de preço em faixas. Dos 81 cujas respostas puderam ser comparadas, 62 deram uma faixa mais estreita que a produzida pelo mercado futuro. Os autores leem isso como uma percepção de risco inferior ao risco de mercado.

Os 90 foram selecionados, não sorteados, e os autores dizem que a amostra não garante representatividade estatística dos produtores rurais de milho brasileiros. Fique com o padrão, não com a fração exata: muitos desses produtores rurais imaginaram uma faixa mais estreita que a do mercado.

O que decide é com qual ponta da faixa você consegue viver, e as duas pontas não pesam igual. O produtor rural de Sorriso espera 60.000 sacas e deve R$ 2.640.000 antes da entrega, entre a parcela do financiamento e a conta dos insumos. Para cobrir isso, o milho precisa sair a R$ 44 por saca. No preço alto de R$ 60, o dinheiro a mais faz um ano melhor. No baixo, de R$ 38, a venda rende R$ 2.280.000 e fica R$ 360.000 abaixo de um pagamento com data fixa, e aí o problema é uma conversa com o banco.

Figura: Preços de entrega no exemplo de Sorriso, em reais por saca, contra os R$ 44 de que a fazenda precisa. Valores inventados
O preço baixo fica abaixo do que cobre o que venceNa série da fazenda, o preço de entrega foi de R$ 38 a R$ 60 por saca. O mercado indica R$ 49, a oferta travada é de R$ 47 e R$ 44 cobre o que vence. O preço baixo de R$ 38 fica abaixo disso.Alto na sua sérieR$ 60Mercado indicaR$ 49Oferta travadaR$ 47Cobre o que venceR$ 44Baixo na sua sérieR$ 38

Confira a ponta baixa contra a parcela que vence naquele mês e contra o preço de equilíbrio, o menor preço que cobre o que a lavoura custou. A proteção custa a taxa e mais uma coisa: o preço travado não sobe quando o mercado sobe, então você abre mão do alto da faixa.

O que ainda pode dar errado depois de assinar?

Três coisas que as subtrações não resolvem. A primeira é a quantidade. A MATba, bolsa de grãos de Buenos Aires, ensina que o contrato a termo fixa qualidade, quantidade, momento e lugar de entrega e preço. O cumprimento depende da boa-fé das duas partes. Se você colher menos do que assinou, continua devendo as sacas. Leia a cláusula que diz o que acontece quando você entrega menos.

A segunda é a exigência do comprador. Um telefonema não diz se o comprador vai honrar o contrato. Use a ligação no que você consegue conferir: qual classificação, qual umidade, qual janela de entrega e o que acontece com o preço se a carga sair abaixo do combinado.

A terceira é uma taxa que sai a seu favor. Se a base na oferta é melhor que a que você espera, o comprador paga mais do que a sua série diz que o mercado paga. Dhuyvetter descreve esse caso com bezerros: uma base oferecida mais forte que o normal é um forte incentivo financeiro para vender hoje, para entrega futura. Trate como motivo para travar volume, nunca para assinar além do que uma colheita ruim entrega.

Figura: Três pontos a resolver com o comprador e com a sua série antes de assinar
Três coisas que o teste da taxa não resolveQuantidade: você deve o volume que assinou, então leia a cláusula de entrega menor. Exigência do comprador: classificação, umidade, janela de entrega e o preço se a carga sair abaixo. Taxa a seu favor: motivo para travar volume, nunca além do seu pior ano.QuantidadeVocê deve o volume que assinou;leia a cláusula de entrega menorExigência do compradorClassificação, umidade, janela,preço se a carga sair abaixoTaxa a seu favorMotivo para travar volume,nunca além do seu pior ano

Quanto travar, e o que escrever primeiro?

Trave a parte da safra que precisa pagar o que vence aconteça o que acontecer e deixe o resto em aberto. O volume tem dois limites. O piso é o preço: nada assinado abaixo do preço de equilíbrio. O teto é a quantidade: as sacas que o seu pior ano ainda entrega, e não as que você espera.

Figura: As 60.000 sacas do exemplo de Sorriso e quanto cada parte rende ao preço baixo. Valores inventados
Travar 40.000 sacas cobre o que vence mesmo no preço baixoDas 60.000 sacas, 40.000 são travadas a R$ 47 e rendem R$ 1.880.000. As outras 20.000, vendidas ao preço baixo de R$ 38, rendem R$ 760.000. Juntas somam R$ 2.640.000, o valor que vence antes da entrega.60.000 sacas esperadasTravadas: 40.000 sacas a R$ 47R$ 1.880.000Em aberto: 20.000 sacas a R$ 38R$ 760.000Total no preço baixo: R$ 2.640.000A pagar antes da entrega: R$ 2.640.000

Confira esse volume contra o que já tem preço travado e contra a parte que o seu plano de comercialização escrito reserva para esta data. Só oito dos 90 produtores rurais do estudo brasileiro tinham vendido algo antecipadamente, e nenhum tinha vendido tudo. Na prática, a pergunta é quanto travar, mais que se vai travar.

Quando a taxa é o número que chama atenção, mude o que você pede em vez de decidir se assina. Peça ao comprador que cote o futuro do mês de entrega e a base como dois números, e não como um preço só. Uma oferta em dois números dá para negociar, e uma base que lhe disseram dá para registrar e comparar no ano seguinte. A calculadora de venda antecipada, gratuita neste site, faz as mesmas subtrações.

Se você quer proteção de preço sem a promessa de entrega, o contrato futuro na bolsa cobre o mesmo risco de outro jeito. Você fica com o risco de base em vez de pagar uma taxa de base. Townsend e Brorsen concluem que os custos de contratar a termo são substancialmente maiores que o custo do hedge, para um terminal naqueles anos. Isso não é conselho sobre o seu comprador, e um comprador comprometido a levar o seu grão numa data fixa pode valer algo por si só. O artigo sobre qual preço sobra depois do hedge trata desse caminho.

Meia hora, com a oferta à mão, a sua série de preços aberta e uma página em branco para esta oferta.

Seja qual for a decisão, ela vira uma linha na sua série de preços. Registradas oferta após oferta, essas linhas fazem parte da gestão de fazendas: no ano seguinte você vê quanto cada trava custou e se a taxa comprou uma proteção de que você precisava. Os outros artigos da seção de comercialização da biblioteca partem do mesmo registro.

Ferramenta

A ferramenta faz a conta e deixa o juízo com você.

Você digita os seus números e o resultado atualiza sozinho. Nada do que você digita sai do seu aparelho.

Procedência

Deriva de
  1. Taylor, Dhuyvetter e Tonsor, The Cost of Forward Contracting Wheat in Kansas, Department of Agricultural Economics, Kansas State University, novembro de 2013
  2. Townsend e Brorsen, Cost of Forward Contracting Hard Red Winter Wheat, Journal of Agricultural and Applied Economics 32(1):89-94, 2000 (revisado por pares, aberto no AgEcon Search)
  3. Dhuyvetter, Basis: The Cash/Futures Price Relationship, Kansas State University Agricultural Experiment Station and Cooperative Extension Service, MF-1003, 1992
  4. Cruz Júnior, Irwin, Marques, Martines Filho e Bacchi, O excesso de confiança dos produtores de milho no Brasil e o uso de contratos futuros, Revista de Economia e Sociologia Rural 49(2):369-390, 2011 (revisado por pares, acesso aberto)
  5. Fundacion MATba, Contratos de futuros y opciones: manual de estudio para su uso y aplicaciones, Mercado a Termino de Buenos Aires, 2017
O que este artigo cobre
Abrir a oferta a termo do comprador antes de assinar: tirar o preço do futuro para achar a base embutida na oferta, comparar com a base que você espera, achar o preço que o mercado indica para o dia da entrega, compará-lo com o menor e o maior preço da sua própria série e decidir um volume que cubra o que vence, com data e nome.
O que ele não cobre
Se o preço vai subir ou cair, que é previsão e este artigo não faz. Não escolhe comprador, instrumento nem mês de entrega, não calcula frete, secagem, classificação nem o custo de guardar grão sem preço depois da data de entrega, e não diz se um contrato assinado vale na justiça da sua região, que é trabalho de advogado. Travar com contrato futuro na bolsa, em que você fixa o preço e a base fica em aberto, está no artigo sobre qual preço sobra depois do hedge.
Publicado
Atualizado
Erro encontrado
Aponte um erro e o artigo é corrigido com nota do que mudou.

Como citar este artigo

RURIVIA. Venda antecipada do milho: vale a pena travar o preço? [S. l.], 1 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/travar-o-preco-agora-compensa/. Acesso em:


Continue lendo

Comercialização

Como rastrear um lote vendido até o talhão

O comprador pergunta de qual talhão veio o lote entregue. A nota fiscal tem o número do lote e o caderno tem os talhões, mas a resposta só existe se os dois trazem o mesmo número desde o dia da entrega.

7 de set. de 2026
Comercialização

Desconto de umidade do milho: calcule antes de entregar

A tabela de desconto do comprador decide quanto a carga paga depois da balança. Uma parte do corte é água que a secagem tiraria de qualquer jeito, e o resto é preço que a tabela fixa.

5 de set. de 2026
Comercialização

Hedge de milho na B3: que preço sobra depois de travar?

A cotação do futuro na tela da corretora não é o que o seu comprador paga. Você recebe essa cotação corrigida pela base do seu ponto de entrega, e a base ainda pode mudar.

1 de set. de 2026
Comercialização

Vender a soja agora ou esperar? Calcule o preço a vencer

O armazém é só a parte da espera que chega por fatura. O juro do dinheiro que não entrou e o peso que some no silo somam mais. Os três juntos dão o preço a vencer: o menor preço de venda que deixa você tão bem quanto vender hoje.

1 de set. de 2026

Gestão de Fazendas

Se este artigo fosse uma planta, a gestão da fazenda seria a lavoura inteira.

Planejar, organizar, dirigir e controlar: as quatro funções, o que cada uma decide, e um exemplo da fazenda para cada uma, reunidas numa página só.