Pular para o conteúdo
Diagnóstico
BibliotecaComercialização

Hedge de milho na B3: que preço sobra depois de travar?

A cotação do futuro na tela da corretora não é o que o seu comprador paga. Você recebe essa cotação corrigida pela base do seu ponto de entrega, e a base ainda pode mudar.

Publicado em Atualizado em 17 min
Neste artigo

O comprador de Lucas do Rio Verde (MT) paga R$ 8,00 por saca de milho abaixo do futuro de setembro que aparece na tela da corretora, e em 50.000 sacas essa diferença soma R$ 400.000. O preço que sobra depois de vender futuro é o preço travado menos essa diferença, que o mercado chama de base. Se a base sair R$ 3,00 pior que a esperada, as mesmas 50.000 sacas rendem R$ 150.000 a menos. Antes de vender qualquer contrato, escreva o preço que você espera receber ao lado do seu custo de produção e dimensione o hedge a partir dele.

Os números são de um exemplo, não de cotação. A fazenda fica em Lucas do Rio Verde, espera colher 100.000 sacas de 60 kg de milho safrinha e vende o futuro de milho da B3, a bolsa de São Paulo. Vender futuro para fixar o preço antes da colheita é o que o mercado chama de hedge de venda. Na calculadora de cenário de preço e hedge você digita os mesmos dois números e recebe o preço que sobra, não o da tela.

No fim você tem a planilha do hedge, uma página em papel ou no computador. Nela entram o preço que sobra, a pior base que o seu custo aguenta, as sacas cobertas com o motivo e o dinheiro reservado para a margem, o depósito que a corretora exige. Preencha antes de a corretora ligar, porque na ligação a cotação do futuro costuma ser o único número na tela.

Que preço sobra quando você vende futuro?

Sobra o preço do futuro menos a base, porque o contrato é cotado para um ponto de entrega que não é o seu. Dhuyvetter, num guia de extensão da Kansas State University, escreve a conta numa linha: preço à vista menos preço futuro, no mesmo momento, é a base. Quando o futuro passa do preço à vista, a base é negativa. Frete, manuseio, armazenagem, qualidade e oferta local abrem essa diferença, e por isso a fazenda longe do ponto de entrega costuma ter base negativa.

Você vende o futuro agora e o recompra quando vende o grão. Se o preço cai, o grão perde valor e a posição no futuro ganha quase o mesmo. A CME Group resume: com o hedge feito, o nível do preço futuro está travado, e a única variável é a base.

Confira a conta pelos dois lados. Se o preço local na entrega for R$ 64,00 com base R$ 8,00 abaixo, o futuro está em R$ 72,00. Recomprar custa R$ 12,00 a mais do que você vendeu, e R$ 64,00 menos R$ 12,00 dá R$ 52,00. Se o preço local for R$ 40,00, o futuro está em R$ 48,00, a posição ganha R$ 12,00 e R$ 40,00 mais R$ 12,00 dá R$ 52,00 de novo.

Figura: Do preço do futuro na tela ao preço que sobra, por saca, no exemplo
O preço que sobra é o preço do futuro menos a baseExemplo, por saca de milho. O futuro de setembro na tela custa R$ 60,00. A base no comprador é R$ 8,00 abaixo. O preço que sobra é R$ 52,00. O piso, o custo de produção, é R$ 44,00.Por saca, milho (exemplo)Futuro na telaR$ 60,00Base no seu compradorR$ 8,00 abaixoPreço que sobraR$ 52,00Seu piso (custo de produção)R$ 44,00

E se a base sair em outro lugar?

Então sobra outro preço, porque a base é o único número que o hedge deixa aberto. A CME Group descreve a troca: com futuros, quem compra e quem vende eliminam o risco do nível do preço futuro e assumem o risco da base. No exemplo, uma base de R$ 11,00 abaixo, em vez de R$ 8,00, deixa R$ 49,00 por saca, ou R$ 150.000 a menos em 50.000 sacas. Só as sacas cobertas carregam esse risco, porque as outras vendem ao preço local do dia, que já traz a base que apareceu.

O hedge costuma compensar porque a base se mexe menos que o preço. Para Dhuyvetter, os níveis de base em geral se preveem com mais exatidão que os níveis do futuro ou do preço à vista. Menos movimento não é movimento nenhum, e a base reflete a oferta e a demanda locais. Num estudo de soja em cinco municípios de Mato Grosso, de 2009 a 2019, Nardino e Figueiredo acharam “um padrão de perdas, isto é, redução de receita” para quem fez hedge contra Chicago. É soja contra outra bolsa, mas indica que o hedge pode render menos que o esperado quando a base não se comporta como se previa.

A base esperada sai do seu próprio registro. Pegue a base média da mesma semana do ano, no mesmo ponto de entrega e contra o mesmo vencimento, ao longo de três a cinco anos. Para a Kansas State, o método mais comum é a média histórica de três a cinco anos. O exemplo do guia é uma média de cinco anos da base semanal da soja em Topeka, no Kansas. A semana importa porque a base de um lugar muda ao longo do ano. A média das últimas semanas dá a base de agora, não a da sua semana de entrega.

Com um ou dois anos de preços, use a média das semanas mais recentes e trate o resultado como ponto de partida. Esses anos vêm de uma série de preços anotada, um registro semanal da oferta do comprador, da cotação do futuro e da diferença entre as duas. Escreva a base esperada com a data, o local e o vencimento de onde ela saiu. Base emprestada de outro ponto de entrega ou de outro vencimento é outro número com o mesmo nome. Safra local maior que a dos anos da média pede uma base escrita mais abaixo, com o tamanho do ajuste e o motivo ao lado.

Figura: A base da mesma semana em cinco anos e a base que pode aparecer este ano, no exemplo
Média de cinco anos de base e uma base pior neste anoExemplo de base, em reais abaixo do futuro, na mesma semana e no mesmo comprador. Ano 1, R$ 7,60. Ano 2, R$ 9,00. Ano 3, R$ 7,20. Ano 4, R$ 8,40. Ano 5, R$ 7,80. A média é R$ 8,00. Uma base pior neste ano, R$ 11,00, tiraria R$ 3,00 do preço que sobra.Base abaixo do futuro, mesma semanaAno 1R$ 7,60Ano 2R$ 9,00Ano 3R$ 7,20Ano 4R$ 8,40Ano 5R$ 7,80MédiaR$ 8,00Este anoR$ 11,00

O seu piso diz até onde a base pode ir. A base de equilíbrio é o piso menos o futuro travado: R$ 44,00 menos R$ 60,00 dá R$ 16,00 abaixo. Com base esperada de R$ 8,00 abaixo, a folga é de R$ 8,00 por saca. Se a base sair pior que R$ 16,00 abaixo, as sacas cobertas rendem menos do que custaram. A folga vale só para as sacas cobertas, e as outras continuam seguindo o mercado.

Quantas sacas vale travar?

Menos que todas, e uma tabela de preços na entrega explica por quê. Cada linha é um preço local na entrega. Ao lado está a média que a safra inteira rende sem hedge e com 50.000 das 100.000 sacas esperadas cobertas a R$ 60,00, com base R$ 8,00 abaixo.

cinco preços locais na entrega, o preço médio recebido sem hedge e com 50.000 de 100.000 sacas cobertas
Preço local na entrega Sem hedge Com 50.000 de 100.000 sacas cobertas
R$ 40,00 R$ 40,00 R$ 46,00
R$ 46,00 R$ 46,00 R$ 49,00
R$ 52,00 R$ 52,00 R$ 52,00
R$ 58,00 R$ 58,00 R$ 55,00
R$ 64,00 R$ 64,00 R$ 58,00

Sem hedge, o que você recebe varia R$ 24,00, de R$ 40,00 a R$ 64,00. Com metade coberta, varia R$ 12,00, de R$ 46,00 a R$ 58,00. Só a metade sem cobertura segue o mercado, então cobrir metade reduz a faixa à metade, e cobrir tudo deixa só a base mexendo. Mesmo no pior preço, a média de R$ 46,00 fica acima do piso de R$ 44,00.

O custo dessa proteção é conhecido antes de assinar. No melhor preço, o hedge custou R$ 6,00 por saca, R$ 64,00 contra R$ 58,00. No pior, rendeu R$ 6,00 por saca, R$ 46,00 contra R$ 40,00. Você compra uma faixa de renda mais estreita, e o ganho que deixa de ter numa alta é o preço dessa proteção. A faixa pesa mais para quem tem parcela fixa de financiamento, caixa que não aguenta um trimestre ruim ou insumo já comprado a preço certo. Com folga de caixa e liberdade para escolher a época da venda, a mesma proteção abre mão de ganho e serve para pouco.

O número de sacas vem do menor de três limites. O primeiro é o teste do piso, de sim ou não: R$ 52,00 passam do piso de R$ 44,00, então há uma parte a cobrir. Se não passassem, a parte seria zero, porque travar um preço abaixo do custo só remove a dúvida sobre o prejuízo. O segundo é a produção de que você tem certeza, não a esperada. No exemplo a fazenda tem certeza de 85.000 sacas e já vendeu 20.000 em outros contratos, o que deixa 65.000. Conte essas 20.000 uma vez só, pelo volume já travado em contrato.

O terceiro é o caixa que você consegue mandar para a conta de margem enquanto o mercado sobe, tema da próxima seção. Aqui a fazenda aguenta uma alta de R$ 10,00 por saca em 50.000 sacas, o que dá R$ 500.000. O menor dos três é 50.000 sacas. Pergunte à corretora o tamanho do contrato do futuro de milho, converta as 50.000 sacas em contratos e arredonde para baixo. Escreva o número e o motivo ao lado, porque no ano seguinte o motivo é o que se esquece.

Figura: Os três limites de quantas sacas cobrir, no exemplo
O menor de três limites define as sacas a cobrirExemplo. O teste do piso passa: R$ 52,00 passam do piso de R$ 44,00. O limite de produção é 65.000 sacas: 85.000 certas menos 20.000 já vendidas. O limite de caixa é 50.000 sacas. O menor é 50.000 sacas, que se convertem em contratos inteiros.Sacas que dá para cobrir, três limitesProdução: 85.000 menos 20.000 vendidas65.000Caixa: aguenta alta de R$ 10,0050.000Teste do pisoR$ 52,00 passam do piso de R$ 44,00: simCubra 50.000 sacasConverta em contratos inteiros

Cobrir mais do que você colhe transforma proteção em aposta contra o mercado. Contrato tem tamanho fixo, e arredondar para cima numa safra pequena pode passar da produção esperada. Uma quebra de safra faz o mesmo: a posição dimensionada para a produtividade esperada cobre mais do que a produtividade que veio. Compare as sacas cobertas com a estimativa de produção toda vez que a estimativa mudar.

No exemplo, 150.000 sacas cobertas contra 100.000 colhidas rendem em média R$ 58,00 por saca se o mercado fechar em R$ 40,00 e R$ 46,00 se fechar em R$ 64,00. As 50.000 sacas a mais ganham quando o mercado cai e perdem quando sobe, sobre grão que você não tem. A calculadora mostra um aviso quando você digita mais que a produção esperada.

Às vezes o número certo é zero, mesmo com o preço passando do piso. Isso acontece se a base nunca foi medida no seu ponto de entrega, se a produção do ano é incerta demais para qualquer teto, ou se não há caixa reservado para uma alta longa. Medir a base, revisar a estimativa e reservar o caixa resolvem os três. O produtor rural também pode errar a dimensão das variações de preço. Em 2008, Cruz Júnior e colegas ouviram 90 produtores rurais de milho e concluíram que eles tinham “uma percepção de risco inferior ao risco de mercado”, resultado de um país e uma cultura.

Que caixa o hedge pede até a entrega?

O hedge de venda não paga nada por meses e pede dinheiro antes, e o pedido chega quando os preços sobem. A CME Group descreve o mecanismo: quando o futuro se move contra a posição aberta de um dia para o outro, o dinheiro sai da conta de margem do cliente para cobrir a perda. Margem é o depósito que a corretora guarda contra a sua posição, e repor esse depósito é a chamada de margem. Na B3 o acerto diário se chama ajuste diário.

O hedge de venda perde no futuro quando os preços sobem. No exemplo, uma alta de R$ 10,00 por saca no futuro tira R$ 500.000 da conta de margem nas 50.000 sacas cobertas. O preço mais alto do seu grão só chega na entrega, meses depois. Você pode estar protegido no preço e sem caixa. A calculadora dá o preço da entrega, não o caixa que você precisa pelo caminho.

Pergunte à corretora a margem por contrato antes de assinar e reserve dinheiro para uma alta do tamanho das que o mercado já fez. Uma posição que você não consegue levar até a entrega é encerrada no pior momento, com a perda do futuro já paga e o ganho ainda na lavoura.

Figura: O que uma alta de R$ 10,00 por saca no futuro faz com o seu caixa antes da entrega, no exemplo
Uma alta no futuro tira caixa antes de o grão pagarExemplo. Meses antes da entrega, o futuro sobe R$ 10,00 por saca. R$ 500.000 saem da conta de margem nas 50.000 sacas cobertas. Na entrega, meses depois, você vende o grão ao preço mais alto. Fica protegido no preço e sem caixa se não reservar dinheiro.Meses antes da entregaFuturo sobe R$ 10,00 por sacaDia a diaR$ 500.000 saem da conta de margemEntrega, meses depoisVocê vende o grão ao preço mais altoProtegido no preço,sem caixase não reservou dinheiro para a margem

O que escrever primeiro na planilha do hedge, e em quanto tempo?

Uma hora, com a sua série de preços, a cotação do futuro e o seu custo de produção, antes de a corretora ligar.

Figura: A planilha do hedge em seis passos, da cotação à entrega
Os seis passos da planilha do hedgeAntes de a corretora ligar: anotar o futuro e a base esperada; somar e comparar com o piso; escrever a base de equilíbrio. Tamanho da posição: pegar o menor de três limites; arredondar para baixo em contratos inteiros. Entrega: datar a planilha e deixar uma linha em branco para a base real.Antes de a corretora ligar1. Anote futuro e base esperada2. Some e compare com o piso3. Escreva a base de equilíbrioTamanho da posição4. Pegue o menor dos três limites5. Contratos inteiros, para baixoEntrega6. Data e linha para a base real

A linha em branco no fim é a que mais rende. Preencha na entrega e você vê a que distância a base real ficou da esperada. Depois de algumas safras, a sua base esperada vem do seu registro, não de uma média emprestada. Antes da própria planilha vem o menor preço aceitável, o seu custo por saca.

Essa linha, a diferença entre a cotação da bolsa e a oferta do seu comprador no dia da entrega, é uma parte da comercialização que ninguém mais guarda por você. Na gestão de fazendas, é um registro como esse que sustenta as outras decisões da fazenda.

Ferramenta

A ferramenta faz a conta e deixa o juízo com você.

Você digita os seus números e o resultado atualiza sozinho. Nada do que você digita sai do seu aparelho.

Procedência

Deriva de
  1. Nardino e Figueiredo, Risco da base e sua volatilidade no comércio de soja em Mato Grosso (2009 a 2019), Revista de Economia e Sociologia Rural 60(3):e240267, 2022 (revisada por pares, acesso aberto)
  2. Cruz Júnior, Irwin, Marques, Martines Filho e Bacchi, O excesso de confiança dos produtores de milho no Brasil e o uso de contratos futuros, Revista de Economia e Sociologia Rural 49(2):369-390, 2011 (revisada por pares, acesso aberto)
  3. CME Group, Self-Study Guide to Hedging with Grain and Oilseed Futures and Options, 2011 (cópia aberta hospedada pela Montana State University)
  4. Dhuyvetter, Basis: The Cash/Futures Price Relationship, MF-1003, Kansas State University Agricultural Experiment Station and Cooperative Extension Service, 1992
O que este artigo cobre
Calcular o preço que sobra depois de vender futuro como o futuro travado mais a base esperada, escrever a pior base que o seu piso aguenta, ler uma tabela de cinco preços para ver o quanto uma cobertura parcial estreita o que você recebe, escolher quantas sacas cobrir pelo menor de três limites com o motivo ao lado, reservar o dinheiro que a posição pede antes da entrega e anotar a base que de fato apareceu.
O que ele não cobre
Escolher o vencimento ou a corretora, julgar se o futuro de hoje está caro ou barato, ou prever preços. Opções são outro instrumento e ficam de fora. A proposta a termo do comprador, em que a base já vem embutida no preço oferecido, está no artigo sobre se travar o preço agora compensa. O câmbio entre a moeda do contrato e a moeda em que você paga as contas é outra exposição e também fica de fora. Fazer ou não fazer hedge continua sendo decisão sua.
Publicado
Atualizado
Erro encontrado
Aponte um erro e o artigo é corrigido com nota do que mudou.

Como citar este artigo

RURIVIA. Hedge de milho na B3: que preço sobra depois de travar? [S. l.], 1 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/qual-preco-sobra-depois-do-hedge/. Acesso em:


Continue lendo

Comercialização

Como rastrear um lote vendido até o talhão

O comprador pergunta de qual talhão veio o lote entregue. A nota fiscal tem o número do lote e o caderno tem os talhões, mas a resposta só existe se os dois trazem o mesmo número desde o dia da entrega.

7 de set. de 2026
Comercialização

Desconto de umidade do milho: calcule antes de entregar

A tabela de desconto do comprador decide quanto a carga paga depois da balança. Uma parte do corte é água que a secagem tiraria de qualquer jeito, e o resto é preço que a tabela fixa.

5 de set. de 2026
Comercialização

Venda antecipada do milho: vale a pena travar o preço?

A oferta do comprador chega como um preço só, com uma taxa embutida. Tire dela o preço do futuro, compare o que sobra com a base que você espera e trave o volume que cobre o que vence antes da entrega.

1 de set. de 2026
Comercialização

Vender a soja agora ou esperar? Calcule o preço a vencer

O armazém é só a parte da espera que chega por fatura. O juro do dinheiro que não entrou e o peso que some no silo somam mais. Os três juntos dão o preço a vencer: o menor preço de venda que deixa você tão bem quanto vender hoje.

1 de set. de 2026

Gestão de Fazendas

Se este artigo fosse uma planta, a gestão da fazenda seria a lavoura inteira.

Planejar, organizar, dirigir e controlar: as quatro funções, o que cada uma decide, e um exemplo da fazenda para cada uma, reunidas numa página só.