Que preço você precisa daqui a quatro meses para sair na frente de vender hoje? O gerente do banco faz essa pergunta na renovação do custeio a um produtor rural de soja do oeste da Bahia que quer guardar 10.000 sacas de 60 kg. O produtor rural responde com um número calculado antes: o preço de hoje mais armazém e juro, dividido pela parte do grão que sobra depois da perda. No exemplo, esse preço a vencer é R$ 131,15 por saca. Com o custeio aberto, uma venda a R$ 130 deixa o produtor rural R$ 11.400 pior do que vender a R$ 120 hoje. Escreva o número numa folha datada e compare cada proposta com ele.
O que a espera custa além da fatura do armazém?
São três custos, e só o primeiro chega por fatura. O armazém é a cobrança da armazenadora, ou o custo do próprio silo. O juro é o que o dinheiro da venda de hoje renderia ou pouparia. O peso perdido é o grão que encolhe no silo e não existe mais para vender.
Janzen, da Universidade de Illinois, chama o segundo custo de custo de oportunidade de abrir mão da receita da venda na colheita. Muitos produtores rurais nunca o subtraem, porque ninguém manda fatura dele.
O peso que falta teria sido vendido na data da venda, então avalie-o ao preço da venda, R$ 130, e não ao de hoje, R$ 120. É a escolha mais dura: o preço de hoje, mais baixo, faria a espera parecer mais barata. Tire a porcentagem perdida dos seus romaneios daquele lote, grão que entrou menos grão que saiu. Desconto de classificação na armazenadora é outro custo, e esta conta não o inclui.
Que taxa de juro entra na conta?
A taxa que o dinheiro deste lote renderia ou pouparia se o grão fosse vendido hoje. Janzen calculou a mesma decisão com duas taxas dos Estados Unidos em 2024, uma de aplicação e outra de empréstimo de custeio, e o resultado mudou de uma para a outra. Rocha e colegas, num estudo brasileiro de armazenagem de soja, usaram a taxa básica de 0,617% ao mês de 2017. As duas taxas são de seus anos: use a do seu contrato de custeio e a da sua aplicação.
Rode as duas taxas no lote do exemplo e a resposta troca de lado. Com o custeio a 1,3% ao mês, a espera termina R$ 1,14 por saca pior do que vender hoje. Com a aplicação a 0,9% ao mês, o juro cai para R$ 4,32, o preço a vencer cai para R$ 129,21 e a espera termina R$ 0,78 por saca melhor, R$ 7.800 em 10.000 sacas.
Enquanto o custeio está aberto, o dinheiro da venda abateria a dívida, então vale a taxa do custeio. Abater parte da dívida não muda isso, porque o saldo que sobra continua cobrando juro. Quando outro dinheiro quita o custeio, o dinheiro desta venda iria para a aplicação, e vale a taxa menor. Se a venda deste lote é o que quitaria o custeio, a taxa do custeio vale para ele inteiro.
Quem guarda em silo próprio não recebe fatura de armazém e paga esse juro do mesmo jeito. Hurt, da Universidade Purdue, também só desconta o juro no armazenamento na propriedade.
Quantos meses a espera aguenta?
Tantos quantos o ganho esperado consegue pagar. O ganho é o preço da venda depois da perda de peso menos o preço de hoje: R$ 130 vezes 0,99 dá R$ 128,70, menos R$ 120, sobram R$ 8,70 por saca. Cada mês custa então R$ 0,90 de armazém mais R$ 1,56 de juro, R$ 2,46 na taxa do custeio. Divida R$ 8,70 por R$ 2,46 e a espera aguenta 3,5 meses. Na taxa da aplicação cada mês custa R$ 1,98, e a espera aguenta 4,4 meses.
O produtor rural planejou quatro meses, além do limite na taxa do custeio e dentro dele na taxa da aplicação. Escreva o número de meses ao lado do preço a vencer. Esperar mais tempo eleva o preço a vencer, então dois produtores rurais com a mesma soja e o mesmo preço esperado podem cair em lados opostos, um prevendo três meses e o outro nove.
Informe a perda de peso uma vez só, para a espera inteira. Numa espera maior, estime a perda de novo em vez de repetir a mesma porcentagem.
O mercado paga para esperar, e esse pagamento está garantido?
Quem precisa de grão mais adiante no ano paga para alguém guardá-lo. Parte desse pagamento aparece na base: o preço à vista local menos o preço futuro, que é o preço da bolsa para entrega em mês posterior. Dhuyvetter, da Universidade Estadual do Kansas, escreveu que a melhora da base entre a colheita e o vencimento de julho é o que o mercado paga pela armazenagem da soja. Compare esse pagamento com os R$ 2,46 por mês do lote do exemplo.
A diferença de preço entre dois meses de futuros é o carry, o pagamento do mercado por guardar o grão de um mês para o outro. Janzen chama o carry de garantido, mas só para quem vende agora para entrega futura. Grão guardado sem preço, diz ele, é apenas aposta em preço maior depois.
Os R$ 11,14 são os mesmos em qualquer caso, e o custo de guardar é pago com ou sem preço travado. Por isso você escreve na folha em que caso o lote está. Vendido a termo, a um preço fixo: a pergunta é se esse preço vence um mercado que você ainda não vê, o que travar o preço agora compensa calcula. Com hedge, isto é, vendido na bolsa de futuros enquanto o grão fica no armazém: a base continua aberta, e qual preço sobra depois do hedge a acompanha até a entrega. Sem preço: guardar é uma aposta no preço, e você escreve isso.
O preço esperado é o número mais fraco da folha. Uma forma usual de fixá-lo é o preço futuro do mês em que você pretende vender mais a base que espera, tirada de uma série de preços anotada. Médias do passado dependem dos anos. No estudo de Hurt sobre o retorno da armazenagem de milho, as safras de 2008 a 2017 renderam em média menos que os períodos mais longos. Ele atribui isso à queda dos preços do milho naqueles anos e não a uma armazenagem que pague menos com o tempo. Rocha e colegas mostram como o resultado depende do mês, com soja de Mato Grosso vendida pelo porto de Paranaguá. Com colheita em janeiro, esperar rendeu em média menos que vender na hora em todos os meses; com colheita em fevereiro, em média só a partir do quarto mês. Mantenha o preço a vencer fixo e revise o preço esperado.
Que lote vai primeiro na folha, e quanto tempo isso leva?
Reserve uma hora para o primeiro lote, com o extrato do custeio, a tabela de tarifas do armazém e os romaneios na mesa. A calculadora de vender ou armazenar faz a conta e imprime a folha de decisão; os passos seguem a ordem dela.
Se a espera sair pior do que a venda de hoje, o lote pede venda ou um motivo escrito que não seja o preço. Exemplos são uma janela de entrega já combinada e uma fila de caminhões na armazenadora. Janzen observa que guardar costuma compensar quando há espaço físico e capacidade financeira para adiar a receita. Se a espera sair melhor, o jeito de receber o ganho é vender agora o preço da data futura.
O preço a vencer não é o preço de equilíbrio, que se mede contra o que a lavoura custou. Ele se mede contra a venda de hoje. Mais artigos sobre venda de grão estão na seção de comercialização da biblioteca, e decidir uma vez, no papel, e conferir numa data marcada é um passo concreto da gestão de fazendas.