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Custo por saca de soja: escreva os dois custos antes de vender

O custo da saca que você acha publicado é a conta de outra fazenda. Escreva os dois custos da sua e você sabe na hora se a oferta cobre o que sai do caixa na safra e se cobre também máquina, família e terra.

Publicado em Atualizado em 16 min
Neste artigo

Você procura o custo por saca de soja para saber se a oferta do comprador serve? São dois números, e a distância entre eles muda a resposta. O primeiro é o custo do caixa, o que sai do caixa na safra. O segundo é o custo total, que soma também máquina, trabalho da família e terra. Chame de piso o menor preço da saca que cobre um desses custos. Veja a soja 2023/24 de Carazinho (RS). A conta do Cepea de setembro de 2023, passada para reais pelo preço que ele supunha, dava um piso de R$ 98 por saca para o custo do caixa. Para o custo total, o piso era de R$ 167. Na colheita, a saca valia R$ 119 na praça vizinha. Por isso, antes de vender, escreva os dois custos por saca da sua fazenda, com o que entrou em cada um e a data, e compare cada oferta com os dois.

Por que o custo da saca não é um número só?

Porque o custo muda conforme as linhas que você conta, e duas dessas contas servem para decidir. O custo por saca é o custo de produzir um hectare dividido pelas sacas que você espera colher nele.

A metodologia do Campo Futuro, que a CNA e o Cepea usam, separa o custo em três degraus. O primeiro é o custo operacional efetivo: “todos os custos efetivamente desembolsados em um ano agrícola”. Daqui em diante, o texto o chama de custo do caixa. Entram nele semente, fertilizante, defensivo, diesel, salário, juro do custeio e o arrendamento, se a terra é arrendada.

O segundo degrau soma a depreciação da máquina e o pró-labore, o pagamento de quem administra, que “em alguns casos pode incluir a mão de obra familiar”. O terceiro, o custo total, soma o que a terra própria e o capital renderiam em outro uso.

O manual da FAO sobre custo de produção, a agência das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação, traz a mesma escada num exemplo da Zâmbia. Dos três degraus, este texto usa dois: o primeiro e o último. Lá, os três níveis são o desembolso em dinheiro, o desembolso mais o trabalho da casa e os bens próprios sem a terra, e o custo total com a terra.

Figura: Os três degraus do custo na metodologia do Campo Futuro, e a pergunta que cada um responde
Três degraus de custo, cada um somando linhas ao anteriorDegrau 1, custo do caixa: a venda paga o custeio da safra? Degrau 2, mais depreciação e pró-labore: a venda paga a máquina e quem administra? Degrau 3, custo total, mais a terra e o capital próprios: a lavoura rende mais que a alternativa, como a poupança? O boletim de Carazinho dá o primeiro e o último degrau.Três degraus, uma venda1. Custo do caixaA venda paga o custeio da safra?2. Mais depreciação e pró-laboreA venda paga a máquina e quem administra?3. Custo total: mais terra e capital própriosA lavoura rende mais que a alternativa?O boletim de Carazinho dá o primeiroe o último degrau.

Para acompanhar o raciocínio, pense numa fazenda de soja em Carazinho. Em setembro de 2023, o gerente escreve os dois pisos com os números do Cepea daquele mês, como se fossem os da fazenda.

Abra uma planilha por lavoura com duas colunas: o custo do caixa e o custo total, com a terra.

O que cada piso responde?

Acima do primeiro piso, a venda cobre o custo do caixa. Acima do segundo, cobre também máquina, família e terra. Entre os dois, cobre o caixa da safra e não cobre o resto.

Na metodologia do Campo Futuro, cada degrau tem uma leitura. Com a receita acima do custo do caixa, “o produtor consegue saldar pelo menos o custeio da atividade”, e a atividade se mantém no curto prazo. Abaixo do segundo degrau, a máquina e quem administra podem não ser pagos, e o produtor rural fica num “processo de descapitalização”. Acima do custo total, a lavoura rendeu mais que as alternativas, como a caderneta de poupança.

No exemplo, a saca valia R$ 119 em Não-Me-Toque, município vizinho, na semana até 18 de abril de 2024. É R$ 21 acima do primeiro piso e R$ 48 abaixo do segundo: vender a R$ 119 cobria o custo do caixa e não cobria o custo total.

Figura: Os dois pisos da fazenda do exemplo, escritos em setembro de 2023, e a oferta na colheita, em reais por saca
A oferta da colheita ficou entre os dois pisosEscala vertical em reais por saca. Custo do caixa, R$ 98. Oferta na colheita, abril de 2024, R$ 119. Preço que o Cepea supunha, R$ 137. Custo total, com a terra, R$ 167. Entre os dois pisos, a venda cobre o custo do caixa e não cobre o custo total.Soja, em reais por sacaR$ 167custo total, com a terraR$ 137preço que o Cepea supunhaR$ 119a oferta na colheitaR$ 98custo do caixaEntre os pisos, a venda cobre o caixae não cobre o custo total.

Compare toda oferta com os dois pisos e escreva ao lado a data e quem ofereceu. O piso só ajuda se a oferta também ficar anotada: veja a série de preços anotada.

O que entra em cada coluna, e por que o piso do vizinho não é o seu?

Porque a mesma linha é custo numa fazenda e não aparece na outra. Quem arrenda tem o arrendamento no custo do caixa, porque ele sai do caixa na safra. Quem é dono da terra não tem essa linha, e o piso do caixa dele sai mais baixo só porque não há arrendamento para contar.

Um estudo das contas de fazendas tchecas, de 2022, mostra o mecanismo. O indicador de renda de costume conta o salário, o arrendamento e o juro pagos, e não leva em conta o trabalho não pago, a terra própria nem o capital próprio.

Figura: Onde entra a terra na planilha de quem arrenda e na de quem é dono
O arrendamento entra no custo do caixa; a terra própria, só no custo totalQuem arrenda: o custo do caixa tem insumos, diesel, salário e juro, mais o arrendamento; o custo total soma máquina, pró-labore e capital. Quem é dono: o custo do caixa tem insumos, diesel, salário e juro, sem linha de terra; a terra própria só entra no custo total, como o que ela renderia em outro uso.Quem arrendaQuem é donomáquina,pró-laboreterraprópriamáquina,pró-laborearrendamentoinsumos, diesel,salário, juroinsumos, diesel,salário, juroAbaixo da linha tracejada, o custo do caixa;com o que está acima, o custo total.Mesma lavoura, mesmo custo: o piso do caixade quem é dono sai mais baixo.

As fontes também cortam a primeira coluna em lugares diferentes. Os orçamentos de Illinois, nos Estados Unidos, contam a máquina e a mão de obra contratada no primeiro piso. O guia de Purdue deixa as duas para depois. A margem de contribuição dele é a receita que sobra depois dos custos que variam com a lavoura, e serve para cobrir a máquina própria, o trabalho da família e o contratado e o arrendamento.

Escreva no cabeçalho de cada coluna a regra do que entra nela. Decida com o seu contador se o que a família retira para viver é custo e se a terra própria entra na conta pelo que renderia arrendada.

Por quanto você divide?

Pela produtividade esperada, e ela é uma escolha, como toda linha de custo. O manual da FAO faz a conta ao contrário: o custo total dividido pelo preço esperado dá a produção mínima que cobre todos os custos. Uma produtividade otimista baixa o piso só no papel.

Figura: O custo por hectare da fazenda do exemplo dividido por duas colheitas, em reais por saca. Os mesmos números do quadro acima
Uma colheita menor sobe os dois pisosDivididos por 54 sacas, os pisos são R$ 98 de custo do caixa e R$ 167 de custo total. Divididos por 35 sacas, são R$ 152 e R$ 258.O mesmo custo, duas colheitas54 sacas por hectareR$ 98R$ 16735 sacas por hectareR$ 152R$ 258Custo do caixa, R$ 5.316 por hectareCusto total, R$ 9.042 por hectareCom 35 sacas, a oferta de R$ 119 não paganem o custo do caixa.

Escreva na planilha a produtividade usada e de onde ela veio.

O que ficou de fora?

Pagamentos que chegam sem venda, como apoio do governo e indenização de seguro; o custo de guardar o grão depois da colheita; e o grão que não se vende. Cada um muda o que sobra no fim, e nenhum aparece como linha de custo. Os orçamentos de Illinois para 2026 dizem isso do próprio número: o piso deles não inclui outras receitas, como os pagamentos de apoio.

Para ver o peso dessa linha, vale um caso dos Estados Unidos, onde o apoio do governo é outro que no Brasil. Na terra arrendada de alta produtividade do centro de Illinois, a soja de 2025 foi vendida a US$ 10,24 o bushel (a medida de peso usada lá). Ficou acima do piso sem a terra (US$ 6,69) e abaixo do piso com a terra (US$ 11,04).

Figura: A soja de 2025 por acre arrendado no centro de Illinois: o que faltou no preço e o que os pagamentos cobriram. Fonte: farmdoc, Illinois Crop Budgets for 2027, tabela 2; cálculo da Rurivia
Os pagamentos, e não o preço, cobriram o vão até o segundo pisoO preço de 2025, US$ 10,24 o bushel, ficou acima do piso de US$ 6,69 e 80 centavos abaixo do piso de US$ 11,04: faltaram US$ 60 por acre. Pagamentos do governo e indenizações de seguro trouxeram US$ 75. Sobraram US$ 15 por acre.Illinois, 2025, por acre arrendadoUS$ 10,24: acima de 6,69, abaixo de 11,04Faltou para o custo totalUS$ 60Pagamentos e indenizações de seguroUS$ 75O que sobrouUS$ 15Sem os pagamentos, faltariam US$ 60por acre para o custo total.

Faltaram 80 centavos por bushel, US$ 60 por acre (o acre mede cerca de 0,4 hectare), e o governo e o seguro trouxeram US$ 75, segundo o realizado publicado em setembro de 2026. Na sua planilha, o que chega sem venda, como uma indenização de seguro, fica numa linha à parte, fora dos dois custos.

Guardar o grão depois da colheita soma juro e manuseio a cada mês, e a quebra, o grão perdido na armazenagem, deixa menos sacas para dividir o custo. Por isso o custo de guardar é apurado por saca e por mês. O manual da FAO também conta só a produção que se vende, sem o descarte.

Embaixo dos dois pisos, liste o que ficou de fora, com um motivo para cada.

Quem assina a planilha, e quando ela é refeita?

Quem fez, com a data, e a planilha é refeita a cada safra pela mesma regra. O manual da FAO pede, ao valorar o trabalho não pago da família, que o método escolhido seja aplicado sempre do mesmo jeito. É a constância, a transparência e a regularidade na aplicação do método que tornam as contas comparáveis ao longo do tempo.

No boletim de setembro de 2023, a equipe do Cepea lembra o produtor rural de “proteger primeiro sua margem de lucro para garantir a sustentabilidade do negócio. Depois disso, pensar em especular”. Como meios, a equipe cita a venda antecipada e a troca por insumo. Com os dois pisos escritos, você sabe qual preço protege a margem.

Figura: A planilha do preço da soja da fazenda do exemplo, preenchida
A planilha de uma lavoura: produtividade, dois pisos com a regra, o que ficou de fora, data e nomeSoja 2023/24. Produtividade: 54 sacas por hectare, a média que o Cepea usa para Carazinho. Custo do caixa: o que sai do caixa na safra, arrendamento se houver; R$ 5.316 dividido por 54, R$ 98 por saca. Custo total: mais depreciação, pró-labore, terra e capital próprios; R$ 9.042 dividido por 54, R$ 167. Ficou de fora: dinheiro que chega sem venda, armazenagem, grão que não se vende. Escrita em setembro de 2023, com o nome de quem fez; refeita na safra seguinte.Soja, safra 2023/24Produtividade pela qual se divide54 sacas por hectare: a média queo Cepea usa para CarazinhoPiso 1: custo do caixao que sai do caixa, arrendamento se houverR$ 5.316 ÷ 54 = R$ 98 a sacaPiso 2: custo totalmais máquina, pró-labore, terra e capitalR$ 9.042 ÷ 54 = R$ 167 a sacaFicou de fora, com o motivopagamentos que chegam sem venda,armazenagem depois da colheita,grão que não se vendeData e nomeEscrita em setembro de 2023 por (nome);refeita na safra seguinte

O plano de vendas e o orçamento de três safras precisam de um custo para partir, e o segundo piso é o que conta tudo. O plano de comercialização escrito mantém cada preço dele acima desse piso. O orçamento de médio prazo parte do custo total projetado. Antes de plantar, o lucro por hectare que você escreve parte das mesmas linhas.

Guarde a planilha onde quem fala com o comprador possa abri-la sem perguntar a ninguém.

Por onde começar

Duas a três horas, com as notas da safra anterior e o contrato de arrendamento na mesa. Escreva a primeira planilha para a próxima lavoura que você vai vender.

A mesma planilha serve para o bezerro desmamado no lugar da saca. Uma revisão de 2025 sobre a pesquisa em cria de bovino lista a análise do ponto de equilíbrio entre os métodos usados nas fazendas. Escrever um número, comparar cada oferta com ele e refazê-lo a cada safra é gestão da fazenda aplicada a um número só.

Procedência

Deriva de
  1. CNA, Projeto Campo Futuro, Anexo I, metodologia de cálculo dos custos de produção, março de 2018
  2. Cepea/Esalq/USP e CNA, Projeto Campo Futuro, Custos Grãos, setembro de 2023 (Carazinho/RS, soja 2023/24, e premissa de preço)
  3. Brum, CEEMA/Unijuí, comentários de mercado de 12 a 18 de abril de 2024 (preço da soja em Não-Me-Toque/RS)
  4. IBGE, Produção Agrícola Municipal, tabela 1612 do SIDRA, rendimento médio da soja em Carazinho (RS), 2022 e 2023
  5. Handbook on Agricultural Cost of Production Statistics, Global Strategy to improve Agricultural and Rural Statistics, FAO, fevereiro de 2016
  6. Paulson, Schnitkey, Zwilling e Zulauf, 2025 Illinois Crop Budgets, farmdoc daily 14:173, Universidade de Illinois, 24 de setembro de 2024
  7. Paulson, Schnitkey, Zwilling e Zulauf, 2026 Illinois Crop Budgets, farmdoc daily 15:150, Universidade de Illinois, 19 de agosto de 2025
  8. Paulson, Schnitkey, Zulauf e Zwilling, Illinois Crop Budgets for 2027, farmdoc daily (16):157, Universidade de Illinois, 1º de setembro de 2026 (tabela 2)
  9. Langemeier, 2025 Purdue Crop Cost and Return Guide, Purdue Agricultural Economics Report PAER-2025-07, Center for Commercial Agriculture, 31 de janeiro de 2025
  10. Hloušková, Lekešová, Prajerová e Doucha, Assessing the Economic Viability of Agricultural Holdings with the Inclusion of Opportunity Costs, Sustainability 14(22), 2022, 15087
  11. Johnson, Huang e Grant, Farm-Level Financial Decision-Making Methodologies within a Cow-Calf Enterprise: A Scoping Review, Journal of Applied Farm Economics 8(1), 2025, artigo 5
O que este artigo cobre
Escrever dois custos por saca para uma lavoura, o do caixa e o total; escrever no cabeçalho de cada coluna quais linhas de custo entram nela; escrever a produtividade pela qual se divide e de onde ela veio; listar embaixo dos dois o que ficou de fora, com o motivo; e datar e assinar a planilha para comparar toda oferta com os mesmos dois números.
O que ele não cobre
Qual preço aceitar e para onde o preço vai: a Rurivia não projeta preço nem recomenda qual preço aceitar. Apurar cada linha de custo é do eixo Financeiro. Se o que a família retira para viver conta como custo, e se a terra própria entra na conta pelo que renderia arrendada, quem decide é você com o seu contador, e a Rurivia não entra nessa decisão.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Custo por saca de soja: escreva os dois custos antes de vender. [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/menor-preco-aceitavel/. Acesso em:


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