Três coisas chegam junto com um vínculo, e a maioria das fazendas só sabe descrever a primeira. Ser sócio de uma cooperativa é um canal de compra e venda, um capital que a fazenda tem dentro do balanço de outra pessoa, e um voto. Pergunte no escritório quanto vale o desconto na loja de insumos e a resposta sai em segundos. Pergunte quanto a fazenda tem lá de capital integralizado e a resposta é procurar o extrato do ano passado numa gaveta.
O extrato está naquela gaveta porque chegou uma vez, recebeu trinta segundos de atenção e nunca cobrou nada. Uma segunda associação vem debitando contribuição todo mês desde uma data que ninguém lembra. Um terceiro vínculo foi feito uma vez para conseguir um documento e nunca foi encerrado. A assembleia caiu numa terça de manhã, na semana mais cheia do ciclo, ninguém da fazenda foi, e as contas do ano anterior foram aprovadas por outras pessoas. Nada disso é dramático em nenhum dia específico. O que custa é uma despesa recorrente que ninguém defende, um saldo de capital que ninguém acompanha e um voto que a fazenda pagou e não usou.
No que a fazenda entrou quando assinou?
Num canal, numa conta de capital e num voto, e os três chegam juntos, sejam ou não abertos em separado. A International Co-operative Alliance, cujo texto de identidade cooperativa foi adotado em 1995, põe os dois últimos por escrito. No controle, a cooperativa é conduzida por sócios que participam ativamente da definição das políticas e da tomada de decisões, e nas cooperativas singulares os sócios têm direitos de voto iguais, um sócio, um voto. No dinheiro, os sócios contribuem de forma equitativa para o capital da cooperativa e o controlam democraticamente, e pelo menos parte desse capital costuma ser propriedade comum da cooperativa.
O canal é a metade que a fazenda já conhece, e é a metade que esta biblioteca já cobre. Volume entregue no pool da cooperativa entra na folha do volume travado em contrato ao lado de qualquer outro instrumento, e o aviso de fechamento que a cooperativa manda depois da entrega é um dos documentos que a série de preços anotada consegue nomear com hora. O que nenhum outro papel da fazenda guarda são as outras duas metades: o que ela tem dentro da entidade e o que ela decidiu lá.
Por que o extrato vai parar na gaveta?
Porque ler custa a manhã de quem lê, e a manhã tem outro lugar para estar. Bialoskorski Neto, estudando cooperativas agropecuárias do Paraná, trata o assunto como proposição econômica e não como queixa: “a intensidade da participação pode ocorrer em proporção inversa aos custos de oportunidade do trabalho e aos custos de oportunidade do tempo do membro associado”. “Quanto maiores estes custos, menor será a participação”, e o sócio aparece quando a decisão da pauta vale mais para ele do que o dia perdido na propriedade.
O achado do mesmo ensaio que custa mais a engolir é o seguinte. Em dezesseis cooperativas do Paraná, medidas no ano de 1999 com dados do sistema de autogestão e monitoramento da organização das cooperativas daquele estado, as que estavam em melhor situação financeira tiveram menor presença na assembleia geral ordinária, e não maior. O autor lê a direção como consequência e não como acaso: “quanto melhor é o desempenho econômico das cooperativas, também é menor a participação”, porque cooperativa que vai bem oferece mais serviço e mais benefício, o que aumenta o que o sócio abre mão ao gastar uma manhã em reunião.
São dezesseis cooperativas, um estado, um ano, e duas coisas andando juntas sem que uma tenha sido provada causa da outra. A leitura prática sobrevive a esse limite. A ausência é o comportamento padrão que uma cooperativa saudável produz, então a fazenda que quer estar na sala precisa decidir estar, com antecedência, e escrever a data.
O mesmo ensaio nomeia o hábito sem enfeitar. O sócio prefere a dimensão de usuário, que só tem benefício, à de compromisso relacional, que tem custo, e assim “o cooperado prefere a dimensão de usuário e não participa das atividades obrigatórias da cooperativa”. O desconto no balcão é a dimensão de usuário. As cinco colunas abaixo são a outra.
Quem já está anotando esses dados sobre você?
Outra pessoa está, por lei, em mais de um país, e é por isso que nenhuma das cinco colunas precisa ser inventada. No Brasil, a Lei nº 5.764 de 1971 manda que “os associados serão inscritos por ordem cronológica de admissão” no Livro de Matrícula, com o nome, a data de admissão e “a conta corrente das respectivas quotas-partes do capital social”. A mesma lei fixa a força do voto sem depender de quanto cada um pôs lá dentro: nas cooperativas singulares, “cada associado presente não terá direito a mais de 1 (um) voto, qualquer que seja o número de suas quotas-partes”.
Na Argentina, a lei de cooperativas de 1973 lista o registro de sócios entre os livros obrigatórios e entrega ao sócio um direito que não custa nada exercer: os associados têm livre acesso às informações do registro de associados.
Nos Estados Unidos, o serviço de desenvolvimento rural do Departamento de Agricultura trata o mesmo material como obrigação que corre no sentido contrário, da cooperativa para o sócio: ela deve entregar ao sócio os documentos importantes da cooperativa para que ele entenda como o negócio funciona, e a lista inclui o estatuto, a estrutura organizacional e o quadro de pessoal, o escopo de produtos e serviços e as políticas operacionais. Duas leis nacionais e um manual de agência, partindo de premissas diferentes, terminam na mesma página. A fazenda que pede o próprio número e o próprio saldo está pedindo cópia de algo que já existe.
| Coluna | O que ela precisa responder | Onde o dado já está escrito |
|---|---|---|
| Entidade | O nome como está no estatuto, não o nome da placa | Estatuto e ata de constituição, na lista de documentos do manual da agência americana |
| Número de matrícula | O número que identifica esta fazenda dentro daquela entidade | Livro de Matrícula, exigido pela lei brasileira; registro de associados, exigido pela lei argentina |
| Contribuição do ano | O que sai da conta da fazenda em doze meses por causa deste vínculo | O extrato bancário e o razão da própria fazenda |
| Capital integralizado | O que a fazenda tem dentro da entidade segundo o último extrato | A conta corrente das quotas-partes no Livro de Matrícula brasileiro |
| Última assembleia, e quem votou | A data da última assembleia geral e se alguém da fazenda estava na sala | O livro de atas, entre os livros obrigatórios da lei argentina |
Por que a coluna do capital surpreende?
Porque duas das três formas de aumentá-lo nunca passam por assinar um cheque. O manual americano lista as três juntas: o sócio entrega capital de giro por investimento direto, sobras retidas e retenções por unidade entregue. O investimento direto é o que todo mundo lembra, a compra à vista da quota ao entrar.
As sobras retidas chegam no encerramento do exercício, quando a devolução calculada sobre o uso que a própria fazenda fez da cooperativa é parcialmente reinvestida por decisão da diretoria em vez de ser paga. As retenções por unidade chegam em cada entrega, porque a cooperativa segura um valor definido por unidade física que passa, e essas retenções se acumulam e voltam ao sócio ao longo de alguns anos. A fazenda nunca tomou uma decisão que fosse lembrar, e o saldo cresceu do mesmo jeito.
Três palavras daquele manual explicam por que o saldo vale uma hora de alguém: o controle segue o dinheiro. O argumento que vem colado é que o capital dos sócios deveria chegar a pelo menos a maioria do capital total de que a cooperativa precisa, porque um nível alto de capital próprio dos sócios sustenta mais controle e mais compromisso deles. Preencher esta coluna não é contabilidade por esporte. É onde o controle deixa de ser palavra em gestão de fazendas e vira número com data.
O que a data da última assembleia prova?
Que alguém decidiu, e se foi você. O manual americano põe a consequência numa linha: o sócio participa da governança da cooperativa ou aceita as decisões tomadas por outros. O que se resolve naquela sala não é cerimônia. No Brasil, a Lei nº 5.764 fixa a pauta no próprio texto: a assembleia geral ordinária, “que se realizará anualmente nos 3 (três) primeiros meses após o término do exercício social”, delibera sobre a prestação de contas da administração com parecer do Conselho Fiscal, sobre a destinação das sobras ou o rateio das perdas e sobre a “eleição dos componentes dos órgãos de administração, do Conselho Fiscal e de outros”.
A data também é previsível, e é isso que transforma esta coluna de registro de arrependimento em padrão que a fazenda consegue cobrar de si mesma. A lei argentina exige a assembleia ordinária dentro dos quatro meses seguintes ao encerramento do exercício, com o balanço, a demonstração de resultado e os pareceres postos à disposição dos sócios com não menos de quinze dias de antecedência da assembleia que vai considerá-los. São três meses no Brasil e quatro na Argentina, e nenhum dos dois prazos se move. A fazenda que perde a assembleia todo ano está perdendo um compromisso que poderia ter entrado na agenda com um ano de aviso.
Ser sócio é a mesma coisa que usar o vínculo?
Não, e alguém já separou as duas coisas e mediu. Mina, Sakurai e Jimenez pontuaram cinco comportamentos separados entre 214 sócios de cooperativa sorteados nas Filipinas, entrevistados cara a cara em Nueva Ecija e Isabela entre fevereiro e março de 2024: usar os serviços da cooperativa, comparecer às reuniões, há quanto tempo cada um era sócio, pagar em dia o que a cooperativa cobra e ocupar um lugar onde as decisões são tomadas.
Os cinco não saíram no mesmo nível. Uso, presença e tempo de casa se sustentaram naquela amostra, e os mesmos sócios saíram com nível mais baixo de cumprimento financeiro e de participação nas decisões. As reuniões ali atraíram gente de um jeito que o ensaio do Paraná não faria ninguém esperar, e é essa a razão para ler a própria linha em vez de qualquer um dos dois resultados.
São produtores de arroz de duas províncias filipinas, e o que eles fizeram descreve aqueles sócios e não o leitor, e é por isso que nenhuma cifra deles está copiada aqui.
Os autores também dizem o que o método deles carrega e o que não carrega: o modelo limita os achados a associações e não a relações de causa, e como os dados foram coletados num único momento, não é possível examinar a mudança do comprometimento ao longo do tempo. O que atravessa a distância é o formato do achado: o mesmo sócio fica alto em alguns dos cinco e baixo em outros, e o que fica baixo mais em silêncio é estar em dia com o que a entidade cobra. A fazenda pode estar inadimplente com uma organização que ela considera dela e descobrir por carta.
Quais vínculos ganham linha?
Toda entidade que cobra contribuição ou dá voto, e essa lista é mais larga que a cooperativa. A definição que a International Co-operative Alliance dá cobre a família inteira: associação autônoma de pessoas unidas voluntariamente para atender necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de um empreendimento de propriedade coletiva e controle democrático. A lei argentina acrescenta o teste operacional que separa uma forma da outra, porque lá a cooperativa concede um só voto a cada associado, qualquer que seja o número de suas quotas sociais e precisa de no mínimo dez associados para existir.
A linha não liga para o timbre do papel. O sindicato rural que debita todo mês, a associação de produtores cuja anuidade aparece como uma conta no razão, o condomínio que tem uma colhedora com três vizinhos e a inscrição feita uma vez para conseguir um documento e nunca encerrada entram todos na página, porque cada uma é despesa, saldo possível ou voto.
Um vínculo ganha linha sem ser nenhum dos três. Onde uma universidade ou um instituto conduz um experimento num talhão seu, um termo de parceria assinado não cobra nada e não dá voto, e mesmo assim entra aqui, porque é a outra coisa que esta página acompanha: alguém de fora decidindo algo dentro da fazenda, por um prazo declarado.
A linha dele leva a data de início e a de fim do termo no lugar da contribuição do ano. O que não ganha linha aqui é o dinheiro que saiu da fazenda sem comprar vínculo nenhum, a doação e o patrocínio, que entram no registro do apoio à comunidade e saem da mesma conta respondendo à mesma pergunta sobre quem autorizou. A página fica junto com os demais registros do eixo Sustentabilidade, onde o que vale é o documento concreto e não a declaração: a licença dentro da validade, a origem rastreada até o polígono, o vínculo que a fazenda descreve em uma linha. E o vínculo que ninguém no escritório sabe nomear é a primeira linha a escrever.
Por onde começar
Duas horas com a pasta de extratos aberta e o aplicativo do banco na mesa, mais uma ligação por vínculo cujo extrato não apareceu. Nada aqui é decidido. Tudo já aconteceu, e nunca esteve numa página só.
O branco da coluna do capital não é do mesmo tipo que os outros. A contribuição sai do banco em dez minutos e as datas de assembleia são públicas. O saldo é o único campo que só a entidade tem como entregar, e pedir por ele provavelmente vai ser o primeiro contato que a fazenda faz em anos na condição de dona e não na de cliente.
A resposta àquela ligação é informação por si só, e vale ser anotada ao lado do número: entidade que não consegue dizer em uma semana quanto um sócio tem lá dentro contou alguma coisa sobre os registros que ela mantém. Quando o canal é a única coisa que a fazenda sabe descrever, a decisão de continuar entregando por ali está sendo tomada por quem liga primeiro, e é esse o argumento para tirar o canal do hábito e pôr o plano de comercialização escrito antes de o próximo ciclo começar.