Essas horas já estão sendo pagas. A decisão foi tomada na primeira vez que alguém saiu no meio da tarde e ninguém anotou, e vai ser tomada de novo na semana que vem, pela boca de quem estiver por perto quando o pedido chegar. O que a saída custa à fazenda não é o valor da hora. É que ninguém consegue dizer de antemão quais pessoas da equipe podem ser chamadas sem aviso, e que duas pessoas pedindo a mesma coisa recebem duas respostas diferentes de duas bocas diferentes.
O rádio chama e o tratorista deixa o talhão, porque queimou pasto do outro lado da estrada. Ninguém pergunta se aquilo é hora de trabalho, porque não se pergunta isso na hora do incêndio, e depois também ninguém pergunta, porque já passou. Na semana seguinte outro empregado pede uma manhã por causa do mutirão da escola, recebe outra resposta de outra pessoa, e o primeiro descobre pelo segundo. Nenhuma das duas conversas deixou marca em lugar nenhum, então o terceiro pedido também vai ser improvisado, e no dia em que ele cair na manhã que a fazenda não pode perder, quem decide vai estar descobrindo o problema e resolvendo ao mesmo tempo.
Hora liberada é custo da fazenda ou favor que ela faz?
Custo, e a FAO já conta a hora liberada entre os recursos que a propriedade gasta. Nas SAFA Guidelines, o referencial que a FAO publicou para avaliar sustentabilidade em sistemas agroalimentares, investir numa comunidade é definido como a alocação e o uso de múltiplos recursos para atender a uma necessidade dessa comunidade, e os três recursos que o documento nomeia dentro dessa cláusula são tempo, recursos humanos e dinheiro. As horas do empregado estão na mesma lista que o dinheiro, sob o mesmo título.
A fazenda que solta quatro horas de um tratorista gastou coisa dela, do mesmo jeito que gasta quando empresta uma carreta. A carreta entra no registro do apoio à comunidade, que conta o bem e a máquina que saem pela porteira. Hora de gente ganha folha própria, de propósito, porque carreta precisa de data de volta e pessoa precisa de regra dizendo quem pode autorizar. A diferença na prática é que a carreta faz falta às quatro da tarde e as horas não são contadas nunca.
Quem sai para atender a emergência do outro lado da porteira?
Alguém que não está recebendo por aquilo, e quanto mais longe da cidade, mais certo isso fica. No Brasil, o artigo 1 da Lei 9.608 define serviço voluntário como atividade não remunerada prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada de fins não lucrativos com objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa.
Não remunerada é a palavra que pesa aqui: quem atende a ocorrência não ganha por ela, e portanto ganha a vida em outro lugar. Do outro lado do continente, Zhang, Murray, Funk e Marter montaram um retrato estadual da capacidade de resposta rural na Califórnia e abrem com a razão de a pergunta importar: a resposta a incêndio nas áreas rurais dos Estados Unidos segue dependendo fortemente de pessoal voluntário, cujo número vem caindo há décadas.
Naquele estado inteiro, cerca de 54,6% dos corpos de bombeiros aparecem como voluntários ou majoritariamente voluntários. Nos vinte e um condados que os autores classificam como rurais o número sobe: os voluntários são em média 67,5% do efetivo de resposta a incêndio, contra 18,8% nos condados urbanos. São números da Califórnia sob o registro americano, e não são os do município de ninguém aqui. A versão barata da mesma conta está ao alcance de qualquer um: perguntar ao quartel, à brigada ou ao grupo de resgate mais próximo quantos dos que saem não recebem por isso, e quantos desses têm emprego durante o dia.
A resposta define quem está na frente do leitor quando o pedido chega. Com dois empregados, um deles numa escala de plantão é metade da mão de obra que pode sumir sem aviso, e isso é mais difícil de prever do que a mesma situação num lugar com vinte. Margem estreita torna a regra escrita mais necessária, não menos.
O compromisso de fora continua do tamanho que tinha?
Não continua, e ele cresce do lado do voluntário antes de crescer do lado da fazenda. Kirstie McAllum acompanhou equipes de ambulância em nove bases da Aotearoa Nova Zelândia, entrevistando voluntários e pessoal contratado, e encontrou voluntários atrás de qualificação e de ocorrência até aumentarem seu tempo na rua bem além do mínimo obrigatório de um turno por quinzena. O mesmo trabalho registra a outra metade do arranjo, que é o voluntário se inscrever por aquele mínimo e poder reduzir o ritmo ou sair a qualquer momento. São conversas em nove bases de uma única organização de um único país, então o que atravessa a fronteira é a direção da deriva, e não um número para encaixar em outro lugar.
A pressão vem do outro lado também. O National Volunteer Fire Council, a associação que representa os serviços voluntários de bombeiros e resgate nos Estados Unidos, lista entre as razões de os quartéis terem dificuldade de recrutar uma exigência maior de tempo, requisitos de treinamento mais rigorosos e o aumento das famílias de dupla renda, cujos membros não têm tempo para ser voluntários. É uma associação setorial descrevendo o próprio terreno, e vale ler como isso.
Vale reler o terceiro item, que é o que está no seu terreiro: o relato da própria associação sobre quem está faltando é um relato de gente que tem emprego. As duas leituras apontam para o mesmo lado para quem monta a escala: a resposta que aquela pessoa deu há dois anos sobre de quanto em quanto tempo ela é chamada está vencida, e perguntar de novo custa dez minutos. Essas respostas vão para uma lista só, guardada onde a escala de trabalho fica guardada, porque compromisso que ninguém anotou não dá para prever.
O que as regras que já existem põem no papel?
Três jurisdições escreveram alguma parte disso, e nenhuma escreveu a mesma parte. Os instrumentos são de espécies diferentes, uma lei dirigida à organização que recebe, outra lei dirigida ao empregador e um programa de reconhecimento, e embaixo dos três há a mesma forma: alguém nomeia o que está sendo liberado, sob quais condições, e como a saída fica provada.
| Onde | O instrumento | A quem obriga | O que põe no papel |
|---|---|---|---|
| Brasil | Lei 9.608, artigo 2 | À organização que recebe e ao voluntário | Que o arranjo corre sob termo assinado, no qual constam o objeto e as condições do exercício |
| Argentina | Ley 25.054, artigo 17, na redação de 2014 | Ao empregador, público ou privado | Que a atividade é carga pública e que o voluntário não perde nada por falta ou atraso causados pelo cumprimento do serviço; e que a falta para capacitação tem teto de dez dias por ano civil e precisa de justificativa formal |
| Nova Gales do Sul, Austrália | Programa Supportive Employers do NSW Rural Fire Service | Ao empregador, de forma voluntária | Que se concede licença para atender emergência em horário de trabalho e que o voluntário não fica pior financeiramente |
A lei brasileira, no artigo 2, determina que o serviço voluntário “será exercido mediante a celebração de termo de adesão” entre a entidade e o prestador, “dele devendo constar o objeto e as condições de seu exercício”. A lei argentina, no artigo 17 na redação que ele ganhou em 2014, obriga o empregador público e privado a considerar a atividade do bombeiro voluntário como carga pública, isentando a pessoa de todo prejuízo econômico, trabalhista ou de conceito decorrente de faltas ou atrasos causados pelo cumprimento do serviço.
E faz a única coisa que as outras duas não fazem, que é escrever um número: a falta para atender convocação de capacitação não pode passar de dez dias por ano civil e precisa ser formalmente justificada. O programa australiano, tocado pelo serviço de bombeiros do estado, reconhece as empresas que concedem aos voluntários licença para atender ocorrências de emergência em horário de trabalho sem desvantagem financeira, e 248 empresas tinham recebido certificado e 72 tinham recebido prêmio nos cinco anos seguintes ao lançamento, em março de 2013.
O que nenhum dos três resolve é o seu número, e nenhum deles resolve o seu calendário. O teto argentino conta dias de capacitação na Argentina e mais nada. Quantas horas de trabalho por ano esta fazenda vai liberar antes de as horas virarem desconto não aparece em lei nenhuma nem em programa nenhum. Também não aparece a lista de dias em que esta fazenda vai pedir a uma pessoa que fique, que é a quarta decisão e a que precisa existir antes da manhã a que ela se aplica.
As duas linhas quem traça é o empregador, as duas estão em branco em quase toda propriedade, e é por isso que o mesmo pedido recebe uma resposta nova cada vez que é feito.
Quem assina a liberação, e quem assina quando essa pessoa não está?
Alguém nomeado no desenho, e um substituto com nome, porque a falta não está sendo resolvida do outro lado. O mesmo estudo da Califórnia reuniu as respostas que aparecem no registro público, e no nível da agência elas são mais divulgação pública e visibilidade do recrutamento, parcerias com instituições de ensino, mais apoio para os custos de treinamento e práticas de liderança ou de gestão voltadas a segurar quem já está, enquanto em escalas mais amplas elas são busca de recursos de edital, regionalização ou fusão, incentivos tributários e benefícios legislativos correlatos.
Os autores tomam cuidado com o que aquela lista é: estão sintetizadas como respostas de política e de gestão relatadas, e não como intervenções formalmente avaliadas. Vale ler a lista por quem está nela. Cada item pertence a um quartel, a uma escola ou a um legislativo. Nenhum pertence ao empregador, e o empregador é de onde a hora sai fisicamente.
Nomear quem assina é metade do trabalho e dar a mesma resposta duas vezes é a outra metade. A Cornell Agricultural Workforce Development põe a segunda metade sem rodeio, dizendo à propriedade que se compromete com um manual escrito que depois é preciso cumpri-lo e aplicar as políticas de forma consistente, e que é preciso planejar a atualização dessas políticas escritas de forma regular e ao menos uma vez por ano.
Uma regra que duas pessoas aplicam de jeito diferente são duas regras, e a equipe acha a emenda antes da administração. Escrever o cargo e não a pessoa, do jeito que o organograma da fazenda já mostra, e escrever em seguida o segundo cargo que responde quando o primeiro não está, porque o pedido que chega às duas da tarde não espera ninguém voltar da cidade.
O que a linha do caderno precisa carregar?
Quatro coisas, e cabem numa linha: nome, data, quantas horas e quem autorizou. O registro não é contabilidade por esporte. Na Argentina, a lei protege a falta por emergência sem condição nenhuma e prende papel na outra: a falta para capacitação precisa ser formalmente justificada e tem teto de dez dias por ano civil. Teto só existe onde alguém está contando, e justificação formal é papel que alguém tem de produzir, dos dois lados. A fazenda que nunca escreveu uma linha não tem o que entregar no dia em que pedirem, nem o que olhar quando quiser saber como o ano foi de verdade.
Depois que as linhas existem, elas respondem à pergunta com que tudo começou. Contar as horas já liberadas no ano diz se o número escrito na regra é generoso, mesquinho ou simplesmente inventado. Contar por pessoa diz a quem perguntar antes de montar a escala da semana em que nada pode escorregar.
A regra e a lista também entram no conjunto que quem chega recebe, ao lado da lista do primeiro dia, porque regra que mora na cabeça de uma pessoa só produz de novo a resposta improvisada na primeira vez que essa pessoa não está. O número fica escrito antes de o pedido chegar, a linha fica escrita depois de cada liberação, e no fim do ciclo os dois são lidos um contra o outro. Controle, no vocabulário das quatro funções da administração, é essa sequência e nada além dela. Rodá-la sobre o que a fazenda deve à gente de fora da porteira, em papel que alguém de fora consegue conferir, é para isso que serve o eixo de sustentabilidade.
Por onde começar
Meia hora para a regra, dez minutos por pessoa para a pergunta e mais cinco para ler a página com ela, um minuto por saída daí em diante. Papel basta. O último item da lista corre no relógio de outra pessoa, não no da fazenda.
Quatro decisões vão naquela página, e é na última que quase todo mundo trava. Escrever a lista de dias fechados significa dizer em voz alta que existem manhãs em que esta fazenda vai pedir a uma pessoa que fique, e quem lê essa lista é a mesma que vai ouvir o rádio chamar. Decidir de antemão é o que permite a resposta sair rápido e sair igual duas vezes. Decidir na porteira é como um acaba ouvindo que não na terça porque outro já tinha ouvido que sim na segunda.