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O critério de rateio foi escrito antes de você ver a conta?

Três instituições públicas dividem o mesmo tipo de custo de três jeitos diferentes, e as três publicam qual jeito escolheram. Essa é a parte que uma fazenda copia.

Conferida em 13 min
Neste artigo

Não existe jeito correto de dividir um custo que serve a duas atividades, e as instituições que publicam metodologia de custo admitem isso nos próprios manuais. O que cada uma faz é escolher um critério, deixar escrito qual escolheu, e imprimir isso ao lado dos números. Uma fazenda copia a segunda metade mesmo sem resolver a primeira: escolher por que cada linha comum vai ser dividida, escrever numa folha com a data, e só então fazer a conta.

O galpão, o trator e o contador servem ao gado e à lavoura ao mesmo tempo, e uma hora alguém precisa dizer qual das duas está se pagando. O galpão é dividido pela área, e o gado sai barato. No ciclo seguinte outra pessoa divide pela receita, e o gado sai caro.

As duas contas estão certas, respondem perguntas diferentes, e nenhum dos dois critérios foi escrito antes de o resultado aparecer. A fazenda passa a ter número para as duas atividades, acredita neles, e não consegue pôr um ciclo contra o outro, porque a régua mudou no meio e ninguém anotou a mudança. Quando chega a decisão de encolher uma atividade, ela é tomada com o que o critério mais recente produziu.

O manual que as agências de estatística de vários países usam para isso não esconde a dificuldade. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, no manual de estatísticas de custo de produção, chama esse rateio de passo necessário e logo em seguida registra que existem muitos caminhos para fazê-lo, que nenhum deles é perfeito e que todos podem produzir estimativas enviesadas ou erradas. É essa frase que faz esta peça existir. Um problema sem resposta certa continua tendo de ser respondido todo ano, e a única coisa que dá para acertar nele é o registro do que foi respondido.

As instituições que publicam metodologia de custo concordam num critério?

Não, e a divergência está escrita em três continentes. Para a despesa geral que não se atribui a produto nenhum, o manual da FAO aceita que ela seja rateada pela contribuição relativa de cada atividade à margem líquida da fazenda inteira. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos usou dois critérios diferentes na mesma série de contas: no método antigo distribuía a despesa geral na proporção do valor da produção, e depois de 1995 passou a distribuir os mesmos custos na proporção das margens brutas.

A Conab divide benfeitorias e instalações por uma proporção física, a taxa de ocupação do bem, “definida como sendo o percentual de utilização deste bem em uma determinada lavoura”, obtida a partir da média de utilização dos tratores naquela lavoura. Três órgãos públicos, três critérios. O que os três fazem igual é declarar qual usaram.

O que muda quando o critério muda?

O número, e às vezes qual é a atividade que parece a boa. O manual da FAO traz um caso das Filipinas que cabe numa linha: um produtor de arroz com três parcelas, dois hectares de arroz, um hectare de arroz e meio hectare de manga, e um microtrator só para as três. Dividindo o microtrator pela área total, a parcela em estudo fica com 57 por cento.

Perguntando antes se o microtrator alguma vez foi para a manga, descobrindo que não, e dividindo só pela área de arroz, a mesma parcela fica com 67 por cento. A mesma máquina, o mesmo ano, o mesmo produtor, duas regras defensáveis, e os dez pontos que separam as duas cifras são dez pontos de um trator mudando de atividade. Não foram os fatos que decidiram isso. Foi uma pergunta, e quem a fez foi quem estava com a caneta.

O mesmo rebanho, dois critérios, dois resultados

A pecuária tem a própria versão do problema, e ela está desenvolvida na literatura contábil. Aranha, Dias e Ítavo, na Revista de Economia e Sociologia Rural de 2016, pegaram um exemplo resolvido de ciclo completo e passaram os custos indiretos por dois critérios. No tradicional, a pilha é dividida por cabeça, de modo que o bezerro carrega o mesmo custo da vaca adulta.

No critério montado sobre unidade animal, que põe animais de idade e sexo diferentes numa mesma escala de peso vivo, o custo acompanha o peso. O que os autores relatam é a parte que serve a uma fazenda: pelo custo médio por cabeça, “os animais mais jovens, que apresentam menor peso corporal, foram superavaliados, e os animais com maior idade e maior peso corporal ficaram subavaliados”, o valor do estoque mudou entre os dois critérios e o resultado bruto da venda também. É um exemplo resolvido de contabilidade e não um ensaio a campo, então o que atravessa é a direção do erro e nenhuma cifra dele.

O critério que se mexe quando o preço se mexe

Tudo que é dividido pela receita se mexe com o mercado, que é justamente a propriedade que mata a comparação entre dois ciclos. Gazzarin e Lips, do instituto federal suíço de pesquisa Agroscope, revisando em 2018 os métodos da contabilidade por atividade, separam os critérios disponíveis em duas famílias. Os físicos são horas de trabalho, horas de trator, área e unidades de gado.

Os monetários são valores contábeis e receita por atividade. Sobre a família monetária o veredito deles é seco. Carregar cada atividade com a parte do custo que ela tem como suportar serve de pouco para analisar, porque os números que saem dali não mostram com limpeza o que aconteceu dentro da fazenda, já que o nível do custo acaba sendo fixado pelo preço de venda.

A família física também não recebe deles uma liberação geral, e o motivo é outro: o que eles pedem de um critério físico é que ele seja o que está mais perto do que de fato causa o custo, com a unidade animal e o hectare como exemplos deles mesmos, e a dificuldade que eles nomeiam é achar um que esteja perto do custo e ao mesmo tempo seja barato de medir. Essa diferença é a que serve a uma fazenda. Um critério físico mal escolhido está errado e continua errado, e isso a fazenda tem como achar e consertar. Um critério monetário se mexe sozinho de um ciclo para o outro.

Leia isso contra uma fazenda com um galpão servindo às duas atividades. Se o galpão for dividido pela receita, um ano de preço bom joga mais galpão na atividade que vendeu bem, e o custo por unidade dela sobe exatamente no ano em que ela mais ganhou, sem nada ter mudado no galpão, nas horas ou no rebanho. Dois ciclos com preços diferentes deixam de ser comparáveis, e a comparação ainda assim devolve um vencedor. É por isso também que critério por receita se dá mal com o preço de equilíbrio: aquele piso existe para ser a coisa fixa contra a qual o preço é testado, e um rateio por receita deixa o preço mexer no piso.

A única regra que é mesmo uma regra

Que o critério tenha a ver com a natureza da despesa que ele reparte. É a única instrução que o manual da FAO enuncia como exigência e não como opção, o distribuidor precisa estar relacionado à natureza da despesa que vai ser rateada, e vem com uma forma negativa que qualquer produtor confere sem planilha. O manual adverte que não se deve usar área de terra para ratear despesa de pecuária que não é específica, nem contagem de animais para ratear despesa de lavoura que não é específica.

Passe isso pela sua folha antes de qualquer outra coisa. Energia da geladeira de vacina dividida por hectare é esse erro. Conserto de cerca do talhão de lavoura dividido por cabeça é esse erro. Um galpão usado quatro meses por uma atividade e onze pela outra, partido ao meio porque são duas, é uma terceira versão do mesmo erro, e o que conserta não é uma fórmula melhor: é escolher um critério que tenha alguma relação com o que o galpão está fazendo.

Sobre o que um critério de rateio pode ser montado

Sobre o que a fazenda já conta, que é a razão de manter a tabela de métodos de rateio do manual da FAO na mesa enquanto a folha é escrita. Cada linha dela nomeia o pressuposto que você leva junto ao escolher aquele critério, e o pressuposto é a parte que depois some.

Cinco linhas a ratear, as bases possíveis para cada uma, e o que escolher cada base assume
Linha a repartir Por que ela pode ser dividida O que escolher isso pressupõe
Fertilizante e defensivo Dose específica por cultura, área plantada, quantidade produzida Usar área pressupõe a mesma dose em todas as culturas
Máquina, combustível e lubrificante, energia Horas ou dias de uso com dado técnico, área plantada Usar área pressupõe a mesma intensidade de uso entre produtos
Benfeitoria e instalação Área colhida, cabeças, quantidade produzida, valor da produção Mesma frequência de uso, e área colhida e não plantada quando se trata de colhedora
Mão de obra e alimentação Cabeças, intensidade de trabalho por tarefa, consumo por categoria Mesma intensidade de uso entre categorias de animal
Administração, imposto, seguro, licença e alvará Área plantada ou colhida, cabeças, valor do rebanho Espaço ocupado ou valor agregado, e comparável só entre produtos do mesmo tipo

Duas dessas linhas dependem de números que este grupo de peças apura em outro lugar. As horas de uso saem do gasto de manutenção por máquina, que é onde a leitura do horímetro vira custo por hora. A parcela anual de uma máquina é custo fixo por definição e o tamanho dela sai da vida útil declarada, que é o outro padrão declarado em que esta folha se apoia.

A atividade que parece se pagar sozinha

Um orçamento de atividade sem nada da pilha comum dentro. O serviço de extensão cooperativa de Oklahoma nomeia a pilha e depois nomeia o costume: os custos difíceis de alocar a uma atividade isolada, como telefone, imposto, contabilidade e energia, são chamados de despesa geral e podem ser fixos ou variáveis, e essa despesa geral entra no orçamento da fazenda inteira, mas às vezes fica de fora dos orçamentos por atividade.

A consequência aparece na linha com que a mesma ficha ensina a ler um orçamento: quando o retorno sobre despesa geral, risco e administração é positivo, a atividade é lucrativa e se sustenta sozinha. Deixe a pilha de fora de todas as atividades e todas passam a se ler como se se sustentassem sozinhas enquanto a fazenda inteira não se sustenta, e nenhuma linha de nenhum orçamento mostra para onde foi a diferença. O tamanho do que precisa ser repartido também não se estima no olho: ele é somado na despesa de escritório apurada, e esta folha é onde aquele total deixa de ser um número e vira uma coluna.

O que esta folha reparte, e o que ela não reparte

Ela reparte dinheiro que a fazenda pagou de verdade. Ela não inventa dinheiro que a fazenda não pagou, e essa segunda operação é outra e tem outro nome. A série de custo de produção do USDA registra que os retornos dos recursos próprios não podem ser estabelecidos por transação de mercado durante o período de produção e por isso precisam ser imputados, e daí serem estimados por uma taxa de retorno em vez de divididos de um comprovante. A Conab traça a mesma linha ao classificar o custo de oportunidade como custo implícito, um daqueles para os quais “não ocorrem desembolsos efetivos”.

A leitura prática para a folha: o honorário do contador se reparte, o arrendamento que você não cobra de si mesmo pela própria terra não. Um é nota fiscal procurando dois destinos. O outro é uma cifra que alguém precisa arbitrar, com fundamento, e misturar as duas na mesma coluna é como uma folha deixa de ser conferível. Repartir o que foi pago é tarefa de controle, no sentido que as quatro funções da administração dão à palavra, e valorar o que não foi pago é tarefa de planejamento.

Quando o critério pode mudar

Quando a mudança fica escrita com data, e quando os ciclos de um lado e de outro não são comparados como se nada tivesse acontecido. O caso do USDA é o molde, porque aquele órgão mudou o próprio critério: depois da revisão de 1995 a despesa geral saiu do valor da produção e foi para as margens brutas, e a documentação imprime o método antigo e o novo em colunas vizinhas para qualquer um ver o que se mexeu. Essa comparação só é possível porque o critério anterior estava escrito enquanto valia.

A mesma disciplina é o que faz a folha valer a pena. O manual do USDA diz isso das próprias contas, falando da sobra que ele informa como retorno da administração e do risco: aqueles números são diretamente comparáveis apenas onde o mesmo procedimento foi aplicado aos dois produtos postos um contra o outro. Dois ciclos de uma mesma fazenda são esse mesmo caso, com o tempo no lugar dos produtos.

A comparação diz alguma coisa quando um critério só produziu os dois lados, e não diz nada quando não produziu. Arquive o critério junto com a tabela de custo que saiu dele, e não numa pasta separada, e quem abrir a tabela encontra a régua ao lado. É o mesmo hábito de escrever a premissa de preço declarada ao lado de cada linha do orçamento, aplicado a outro documento, e o eixo financeiro é onde os dois moram.

Por onde começar

Duas horas, com a lista de custos comuns na mesa, num dia em que ninguém está esperando resposta sobre atividade nenhuma. A regra do exercício cabe numa linha: quem escreve o critério não olha o resultado primeiro.

Um critério de rateio que se revelou errado, escrito e datado, vale mais que o certo que ninguém anotou, porque só com o primeiro dá para discutir. A folha também é mais barata de escrever num dia em que nada depende dela. Quando alguém precisa de resposta sobre encolher o gado ou largar a segunda cultura, todo critério da lista tem um lado, e quem escolhe sabe qual é. Os três órgãos públicos desta peça não escaparam disso encontrando o critério correto. Escaparam fixando o delas por escrito anos antes de um número em particular ficar incômodo, e publicando o dia em que o mudaram.

Procedência

Deriva de
  1. FAO, Handbook on Agricultural Cost of Production Statistics, Global Strategy to improve Agricultural and Rural Statistics, 2016, capítulo 5
  2. Aranha, Dias e Ítavo, Proposta de Critério de Alocação de Custos Indiretos na Pecuária Bovina de Ciclo Completo, Revista de Economia e Sociologia Rural 54(4), 2016, páginas 653 a 666
  3. Gazzarin e Lips, Gemeinkostenzuteilung in der landwirtschaftlichen Betriebszweigabrechnung, Austrian Journal of Agricultural Economics and Rural Studies 27.3, 2018
  4. USDA Economic Research Service, Commodity Costs and Returns, documentação dos métodos de estimativa
  5. McElroy, Major Statistical Series of the U.S. Department of Agriculture, Volume 12: Costs of Production, Agriculture Handbook No. 671, USDA Economic Research Service
  6. Conab, Norma Metodologia do Custo de Produção, Norma da Organização 30.302, Companhia Nacional de Abastecimento
  7. Sahs e Bir, Using Enterprise Budgets in Farm Financial Planning, Oklahoma Cooperative Extension Service, AGEC-243
O que este artigo cobre
Listar as linhas de custo que servem a mais de uma atividade, escolher e escrever por que cada uma vai ser dividida antes de a conta ser feita, datar e assinar essa folha, e manter o mesmo critério nos dois ciclos comparados.
O que ele não cobre
Qual critério usar. A Rurivia não publica critério de rateio recomendado, e a escolha é de quem administra a fazenda. Também não apura nenhuma linha de custo a partir da nota fiscal, que é tarefa das peças irmãs, nem compara a atividade da fazenda com a de outro produtor.
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Como citar este artigo

RURIVIA. O critério de rateio foi escrito antes de você ver a conta? [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/financeiro/criterio-de-rateio-declarado-antes/. Acesso em:


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