Uma fazenda do oeste da Bahia com R$ 5.000.000 de receita por ano, vinda de cinco linhas, precisa decidir quanto dinheiro guardar para um ano ruim. Dimensionada pela maior linha, uma quebra de 25% sobre os R$ 2.250.000 da soja pede R$ 562.500. Dimensionada pelas linhas que falham no mesmo ano, soja, algodão e milho safrinha somam R$ 4.350.000, e a mesma quebra pede R$ 1.087.500; a primeira conta deixa a reserva R$ 525.000 abaixo do necessário. Dimensione a reserva pelo número efetivo de fontes: a quantas fontes de tamanho igual a divisão da sua receita equivale, depois de juntar num grupo as fontes que têm a mesma causa. Para achá-lo, separe a receita do último ano por fonte.
Como cinco linhas de receita viram um número só?
Calcule a participação de cada linha, que é a receita dela dividida pelo total do ano. Eleve cada participação ao quadrado, some os quadrados e divida um pela soma. O resultado é o número efetivo de fontes.
A fazenda do exemplo fica no oeste da Bahia, e os valores são inventados para esta página. Soja, algodão e milho safrinha (o milho plantado depois da soja) dependem da chuva do mesmo verão. O feijão é irrigado, e a fazenda arrenda uma área a um vizinho.
| Fonte | Receita | Participação | Participação ao quadrado |
|---|---|---|---|
| Soja | R$ 2.250.000 | 0,45 | 0,2025 |
| Algodão | R$ 1.350.000 | 0,27 | 0,0729 |
| Milho safrinha | R$ 750.000 | 0,15 | 0,0225 |
| Feijão irrigado | R$ 400.000 | 0,08 | 0,0064 |
| Arrendamento | R$ 250.000 | 0,05 | 0,0025 |
| Total | R$ 5.000.000 | 1,00 | 0,3068 |
Cinco fontes de R$ 1.000.000 cada dariam 5, e uma fonte só daria 1, então 3,26 quer dizer que a fazenda se apoia como em pouco mais de três fontes de tamanho igual. A soma dos quadrados também se chama índice de Herfindahl-Hirschman. Um menos essa soma, 0,69 aqui, é o índice de diversificação, também chamado de índice de Simpson. Ele vai de 0, para uma fonte só, até perto de 1, para muitas fontes iguais.
O quadrado dá peso às linhas grandes. A soja, com 0,45, soma 0,2025, e o arrendamento, com 0,05, soma 0,0025: a soja rende 9 vezes mais e pesa 81 vezes mais. Uma linha pequena quase não mexe no resultado, como deve ser numa medida de dependência.
Leia primeiro a contagem, porque passos iguais no índice não são passos iguais em fontes. Um índice de 0,90 quer dizer 10 fontes iguais e 0,95 quer dizer 20, então uma diferença que parece arredondamento na escala de 0 a 1 dobra a contagem.
Separe a receita do último ano por fonte e escreva a participação de cada uma ao lado.
O número é bom ou ruim?
Use faixas publicadas como orientação aproximada. O Ipea, instituto de pesquisa econômica do governo federal, publicou um capítulo que classifica áreas pelo índice de diversificação, com a divisão adotada por Sambuichi e colegas. Exatamente 0 é produto único. Até 0,35 é especializado, até 0,65 é diversificado, e acima de 0,65 é muito diversificado.
O capítulo aplicou as classes aos municípios paulistas e observa que é mais provável identificar um estabelecimento monocultor do que um município monocultor. Uma fazenda sozinha tende, portanto, a parecer mais concentrada nessas faixas do que um município inteiro. Leia a classe como indício, e não como veredito sobre a sua fazenda.
Cada corte tem um motivo escrito ao lado. A classe dos especializados reúne os municípios que, mesmo com mais de um produto, tiram 80% ou mais do valor bruto da produção de um só deles. Para ser muito diversificado, o município precisou ter pelo menos três produtos de peso parecido nesse valor.
A conta confirma. Uma fonte com 80% da receita soma 0,64 sozinha, o que leva o índice a ficar entre 0,32 e 0,36, conforme o resto se divide; o corte de 0,35 cai dentro dessa faixa. Três fontes iguais dão soma de um terço e índice de 0,667, logo acima do corte de 0,65.
A fazenda do exemplo, com 0,69, cai na classe mais alta. Uma fazenda pode estar ali e depender de cerca de uma fonte e meia, como mostra a próxima seção.
Ache o seu índice nas faixas e escreva a classe ao lado.
E se duas fontes têm ano ruim juntas?
A contagem acima usa só as participações, e elas não guardam sinal de quais fontes falham no mesmo ano. A OCDE, comparando contabilidades de fazendas de vários países, encontrou que combinar culturas cujos retornos não andam perfeitamente juntos reduz a oscilação da receita total. Duas fontes que sobem e descem juntas são uma fonte só com dois nomes.
Onde uma seca atinge todas as culturas, essa proteção encolhe. No mesmo relatório, a correlação das produtividades entre culturas era maior na Austrália, e por isso a quebra de uma cultura vinha mais vezes com a quebra de outra. O preço se comporta pior que a produtividade: a OCDE achou que os preços andam mais juntos do que as produtividades. Uma segunda cultura protege melhor de uma colheita ruim do que de um mercado ruim.
Agrupe as fontes que falham juntas. Na fazenda do exemplo, soja, algodão e milho safrinha dependem da mesma chuva de verão. O feijão irrigado não depende dela e fica sozinho, como o arrendamento. Contada assim, a fazenda tem três grupos, e o número efetivo cai de 3,26 para 1,31.
A calculadora de diversificação da receita tem uma coluna de grupo para isso. Digite a mesma palavra curta, escrita sempre do mesmo jeito, nas fontes que andam juntas, como “chuva” ou “irrigado”. “Chuva” e “chuvas” formam dois grupos.
Confira os grupos nos registros antes de confiar neles. Escreva a receita por fonte dos últimos cinco a oito anos, com as fontes nas linhas e os anos nas colunas, e marque cada ano em que uma fonte ficou abaixo da própria média. Duas fontes marcadas nos mesmos anos pertencem ao mesmo grupo, seja qual for o nome. Preencha o grupo de todas as fontes ou de nenhuma, porque uma fonte sem grupo conta como grupo próprio, e isso presume que ela seja independente de tudo.
Dê a mesma palavra às fontes que falharam nos mesmos anos, refaça a conta e dimensione a reserva pelo maior grupo.
Acrescentar outra atividade resolve?
Acrescentar uma atividade é a forma mais cara de reduzir a dependência, e nem sempre funciona. Um estudo da Zâmbia usou uma pesquisa nacional representativa de domicílios rurais. Achou que a diversificação de culturas melhora de forma significativa a estabilidade da renda e reduz de forma significativa a eficiência técnica. Isso quer dizer que rende menos produto pelos insumos usados. Eram domicílios rurais, não fazendas comerciais, então leia como uma direção e não como um tamanho.
O artigo do Incaper sobre o Espírito Santo cita a ideia de que a especialização em si não é algo negativo e pode estar relacionada a ganhos de produtividade advindos de vantagens comparativas. Uma fazenda concentrada não é um erro. É uma escolha cujo custo você deve saber escrever em reais.
Teste o passo mais barato que mexe no seu maior grupo, nesta ordem.
- Um segundo comprador para um produto que você já vende. Confira se o preço do novo comprador não segue o mesmo mercado.
- Um mês de pagamento diferente para um dinheiro que você já recebe.
- Uma atividade cujos anos ruins sejam diferentes dos do grupo.
- Proteção comprada no lugar de uma atividade. Numa simulação com fazendas do Reino Unido e da Austrália, a OCDE observa que um seguro de produtividade acessível pode substituir a diversificação de culturas, e menos onde o risco é sistêmico. O seguro de produtividade não cobre o preço; para o preço, veja o plano de comercialização escrito.
Uma atividade nova se paga em várias safras, então teste-a antes no papel, com o plano plurianual de produção.
Escreva, ao lado de cada candidata, o evento que a faria falhar.
O que anotar na ficha, e quando refazê-la?
Comece pelos extratos bancários do último ano e escreva, ao lado de cada depósito, de onde ele veio. Só esse passo já costuma revelar uma linha que ninguém contava como receita. Depois guarde uma página datada junto dos outros registros de planejamento da fazenda, listados nos artigos de planejamento. A calculadora recebe só o nome, o valor e o grupo de cada fonte, então a ficha guarda sete coisas que ela não calcula.
- Os doze meses medidos e o que não vai se repetir: uma máquina vendida, uma indenização de seguro, um pagamento atrasado do ano anterior. Cada um faz uma fonte parecer maior ou menor que o normal.
- Uma linha por fonte, com o comprador nomeado. Não “soja”, mas a empresa que pagou; é aí que aparecem duas fontes com um comprador só.
- O mês em que cada fonte de fato paga, pela data do pagamento e não pela do contrato.
- O último ano ruim de cada grupo, e se dois grupos o dividem. A causa que você escreveu é o que você acredita; o ano é o que aconteceu.
- O maior comprador, somado entre as fontes. Em fazendas que vendem vários produtos à mesma cooperativa, ele costuma ser maior que a maior fonte.
- O que as linhas dividem além de preço e clima: a mesma colhedora nas mesmas três semanas, a mesma equipe no pico, a mesma garantia no banco.
- Um limite para refazer a ficha, como qualquer grupo acima de 60% da receita, uma data no calendário para refazê-la de qualquer modo e o nome de quem a guarda.
A data importa porque as participações mudam sem que ninguém decida. No Espírito Santo, o índice de diversificação do artigo do Incaper, numa escala em que número maior é mais diversificado, caiu de 9,12 em 2013 para 6,21 em 2022. O café foi de 38,86% para 50,81% do valor da produção agropecuária do estado, e o artigo atribui a alta à produção maior e aos preços maiores. Um estado não é uma fazenda, mas a deriva é a mesma: um bom preço faz uma linha crescer até a ficha deixar de descrever a fazenda.
Escreva a causa de cada grupo também na lista de riscos da fazenda; como ordenar essa lista está no artigo sobre quais riscos merecem atenção primeiro. No exemplo, o grupo da chuva de verão é 87% da receita, e uma causa que pode atingir tanto em um só ano fica no topo.
Escreva a ficha neste mês, com a data para refazê-la na mesma página.
A mesma ficha, colocada ao lado do ano seguinte, serve para qualquer outra linha da gestão de fazendas.