O produtor rural decide todo ano qual risco ganha plano primeiro, e a ordem errada custa dinheiro. Em Balsas (MA), a soja rendeu 46,0 sacas por hectare em 2015 e 21,7 em 2016, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. O preço implícito por saca, o valor da produção dividido pela quantidade, foi de R$ 56,76 e de R$ 60,32. A receita por hectare caiu de R$ 2.611 para R$ 1.309, e em 1.000 hectares isso são R$ 1,3 milhão a menos. Tire o impacto de cada risco de uma perda em reais, dê uma linha só à queda de preço com quebra de safra e escreva ação, nome e data para o topo da lista.
Uma matriz de risco é uma tabela que ordena o que pode dar errado na fazenda pela chance vezes o impacto. O jeito comum de preenchê-la, multiplicando duas pontuações de 1 a 5 dadas no palpite, erra a ordem. O método vem de um curso escrito para a Plataforma de Gestão de Risco Agrícola (PARM), ligada ao Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), uma agência das Nações Unidas. Os autores escrevem que usa-se um múltiplo simples para calcular os valores. O mesmo curso traz os dois ajustes deste artigo: o impacto em dinheiro e uma linha própria para os riscos que chegam juntos.
Por que a matriz comum coloca os riscos fora de ordem?
Multiplicar duas pontuações de 1 a 5 achata as diferenças, e dois riscos diferentes podem cair na mesma pontuação. O curso do PARM mostra isso com sete riscos. Uma praga (pontuação de chance 3, de impacto 4) e a falta de mão de obra (pontuação de chance 4, de impacto 3) somam doze cada uma. A praga tem chance média e perda pesada, e a falta de mão de obra tem chance alta e perda média. Ninguém separa as duas pela pontuação final, mas as duas pontuações por trás dela separam.
Um segundo defeito está nas faixas, os níveis em que a matriz separa os riscos. Vatanpour e colegas testaram esse tipo de matriz num estudo de saúde pública de acesso aberto. A ordem pode sair pior que o acaso quando os riscos mais frequentes são os menos graves. Nos dados deles, o problema foi pequeno. Mesmo assim, a faixa baixa reunia riscos cujo dano medido, frequência vezes gravidade, ia de 0,003 a 3, uma diferença de mil vezes.
Os riscos também se somam. O guia do NIST, o instituto federal de padrões dos Estados Unidos, foi escrito para sistemas de computador e não para fazendas, mas trabalha com a mesma chance e o mesmo impacto. Ele avisa que vários riscos moderados que acontecem juntos podem somar um risco maior.
Nada disso torna a matriz inútil. Os autores de Vatanpour dizem que o método não deve ser abandonado, só usado para informar as decisões e não para guiá-las. Ela serve como triagem e como jeito de fazer as pessoas conversarem.
Liste os riscos primeiro, um por linha, antes de pontuar qualquer um.
De onde deve sair o impacto?
De uma perda em dinheiro: quanto você perde se o evento acontecer, e não uma pontuação de 1 a 5 dada no palpite. O curso do PARM pondera essa perda pela chance e chama o resultado de valor monetário esperado, a chance vezes o valor do impacto. O exemplo de quatro riscos, em dólares, muda a ordem da lista.
| Risco | Perda se acontecer | Chance | Valor esperado |
|---|---|---|---|
| Trabalhador doente | 1.500 | 60% | 900 |
| Granizo | 2.000 | 25% | 500 |
| Oscilação de preço | 4.000 | 10% | 400 |
| Pouca chuva | 1.000 | 30% | 300 |
Pela perda sozinha, a oscilação de preço (US$ 4.000) fica no topo. Ponderada pela chance, o primeiro lugar é do trabalhador doente (US$ 900), e a oscilação de preço cai para o terceiro. O curso acrescenta que os níveis de impacto precisam caber na fazenda: onde a margem é fina, uma perda de 15% já pode ser catastrófica, o bastante para encerrar o negócio. Onde uma perda não cabe em dinheiro, mantenha a pontuação de 1 a 5 numa lista separada, porque valores e pontuações não se ordenam juntos.
Escreva ao lado de cada risco a perda em dinheiro e de onde veio o valor.
Quanto custa uma queda de preço quando a safra também quebra?
Mais que a queda de preço sozinha, e mais que uma lista de riscos soltos mostra. Em Balsas (MA), a soja de 2024 rendeu 50,0 sacas por hectare a um preço implícito de R$ 126,00 por saca. A receita foi de R$ 6.303 por hectare, o valor da produção dividido pela área plantada. Um preço 28% menor tira R$ 1.765 por hectare. Um rendimento 53% menor, somado ao preço menor, tira R$ 4.170. O degrau entre os dois casos é de R$ 2.405 por hectare, ou R$ 2,4 milhões em 1.000 hectares, e ele nunca aparece quando preço e safra ficam em linhas separadas.
As duas quedas têm base na própria série do IBGE: o preço implícito caiu 28% de 2022 para 2023, e o rendimento caiu 53% de 2015 para 2016. Elas vieram em anos diferentes, e o cenário as junta numa safra só. O preço é nominal e implícito, não uma cotação de praça, e a conta não tem custo, pois não há fonte aberta de custo para Balsas. O resultado é perda de receita, não prejuízo.
| Safra | Rendimento (sacas por hectare) | Preço implícito (reais por saca) | Receita (reais por hectare) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 46,0 | 56,76 | 2.611 |
| 2016 | 21,7 | 60,32 | 1.309 |
| 2022 | 49,8 | 184,98 | 9.206 |
| 2023 | 50,0 | 133,53 | 6.680 |
| 2024 | 50,0 | 126,00 | 6.303 |
| Caso | Receita (reais por hectare) | Perda de receita (reais por hectare) |
|---|---|---|
| Base de 2024 | 6.303 | sem perda |
| Preço 28% menor | 4.538 | 1.765 |
| Rendimento 53% menor | 2.962 | 3.341 |
| Preço 28% menor e rendimento 53% menor | 2.133 | 4.170 |
Dê uma linha só à queda de preço e à quebra de safra na mesma safra, e meça o impacto pela perda combinada.
Preço e rendimento sempre caem juntos?
Nem sempre. Para um país inteiro, uma safra curta costuma trazer preço maior, e o curso do PARM dá essa ligação como exemplo de riscos correlacionados negativamente. Numa fazenda só, a ligação é mais fraca. O Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (ERS) explica o motivo. Preço e rendimento numa fazenda podem não ter relação, porque a produção de uma fazenda não move o preço de mercado de forma perceptível.
Nas grandes regiões produtoras dos Estados Unidos, o rendimento de cada fazenda anda com o rendimento nacional, e por isso uma safra curta ali tende a vir com preço maior. O ERS chama essa compensação de proteção natural (natural hedge). Fora dessas regiões ela é bem mais fraca, e rendimento baixo e preço baixo têm mais chance de ocorrer ao mesmo tempo.
O seu próprio histórico diz em qual caso você está. Pegue os anos de colheita ruim que você tem anotados e escreva ao lado de cada um se o preço de venda ficou acima ou abaixo do seu habitual. Se as colheitas ruins também foram anos de preço ruim, a linha combinada vai para o topo da lista. Se não foram, preço e safra ficam em linhas separadas. O curso do PARM chama de correlacionados, ou sistêmicos os riscos que andam juntos quando atingem a mesma região ou a mesma cadeia de valor.
No registro de Balsas, as duas quedas grandes vieram em safras diferentes. A de 2016 foi de rendimento, com o preço implícito 6% maior, que não bastou: a receita por hectare caiu pela metade. A de 2023 foi de preço, com o rendimento estável em 50,0 sacas. Dez safras são um registro curto e o preço é nominal, de modo que isso não prova que os dois riscos andam separados.
Separe os seus anos de colheita ruim e escreva ao lado de cada um o preço a que você vendeu.
Qual risco recebe ação, nome e data primeiro?
Os riscos do topo, cada um com uma ação, o nome de quem age e uma data. Escreva tudo numa ficha de riscos: os riscos, os valores, as ações e os nomes.
Mantenha duas listas. A primeira reúne os riscos com valor em dinheiro, ordenados pela perda vezes a chance do evento no período em que você planeja. A segunda reúne os riscos só com pontuação, ordenados pelas duas pontuações multiplicadas, e essa ordem é menos confiável. Depois suba à mão qualquer risco raro e pesado que a conta rebaixou. Um desastre com chance 2 e impacto 5 e um incômodo com chance 5 e impacto 2 somam 10 cada um, e o desastre pode ser o que acaba com o negócio. Escreva por que ele subiu.
Na lista de pontuações, a calculadora de matriz de risco deste site usa quatro faixas: 1 a 4 baixo, 5 a 9 médio, 10 a 15 alto e 16 a 25 crítico. Esses cortes são uma escolha sua e podem mudar, e na lista em dinheiro você define os cortes em reais. Um risco crítico recebe ação agora. Um risco alto recebe uma ação planejada dentro do ano. Um risco médio fica sob observação e volta na próxima revisão. Um risco baixo é aceito e anotado, o que também é uma decisão.
Reserve uma tarde com as pessoas que conhecem a fazenda, diga em voz alta as preocupações do ano e peça a alguém que as anote. Procure riscos de fora da fazenda, como preço, clima, regras e compradores, e de dentro, como pessoas, máquinas e caixa.
Os valores envelhecem bem antes da ficha. Uma seca que você calculou de um jeito no ano passado pode custar mais depois de duas safras secas. O artigo Quanto de ano ruim a sua fazenda aguenta sem prejuízo? calcula até onde preço e rendimento podem cair antes de o ciclo deixar de cobrir os custos. A calculadora de resiliência a choque faz essa conta como quedas percentuais. Na calculadora de matriz de risco, a multiplicação e a ordenação das pontuações saem prontas, e as pontuações continuam sendo suas. Ordenar riscos é uma parte da gestão de fazendas, e outros artigos sobre atravessar anos ruins estão na seção de sustentabilidade da biblioteca.