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Duas operações, uma turma: qual fica com o dia?

Cada dia de atraso custa em todo hectare que a máquina ainda não alcançou, e esse custo muda de uma operação para outra. Dá para deixar escrito, antes da correria, qual operação espera.

Publicado em Atualizado em 14 min
Neste artigo

Numa fazenda de exemplo em Campo Mourão (PR), em 25 de janeiro faltam semear 800 hectares de milho 2ª safra e colher 300 hectares de soja, e a mesma turma atende as duas operações. Dar o dia à soja e deixar o milho esperando custa ao produtor rural cerca de R$ 23.600 a mais por dia de espera. Dê o dia à operação que perde mais por dia naquela semana. Antes da safra, escreva a janela, a data-limite e a perda por dia de cada operação numa tabela, no papel ou na planilha, com uma linha por operação.

A janela é o período em que a operação dá o melhor resultado. A data-limite é o último dia que ainda cabe no plano original. Se a operação for passar dela, você muda o plano: faz essa operação primeiro, contrata serviço ou troca de cultura.

Em muitas fazendas a escolha sai na manhã do próprio dia, por hábito ou pela máquina que está mais perto. A produtividade se perde então em cada hectare que espera, e no fim da safra ninguém sabe dizer quanto a espera custou.

Qual operação fica com o dia?

A que perde mais reais naquele dia. Multiplique a perda por dia de cada operação, em reais por hectare, pelos hectares que ainda esperam por ela. O produto maior fica com o dia.

Figura: Quanto custa mais um dia de espera em 25 de janeiro, em reais, para o milho 2ª safra e para a soja da fazenda de exemplo. Fonte: conta a partir de Embrapa Soja (Documentos 459) e Tsukahara et al. (2016); hectares e preços são valores de exemplo
Mais um dia de espera custa mais no milho do que na sojaNa fazenda de exemplo, 800 hectares de milho por semear perdem R$ 41.600 por dia e 300 hectares de soja por colher perdem R$ 18.000 por dia.Custo de mais um dia de espera, 25 de janeiroR$ 41.600Milho 2ª safra800 haR$ 18.000Soja300 ha

As duas perdas por dia vêm de fontes de lugares diferentes: a simulação para Campo Mourão relatada pela Embrapa Soja e o ensaio de Castro e Itaberá. Por isso servem só de ponto de partida. Troque cada uma por um número de ensaio da sua região assim que achar.

Por que um dia de atraso custa mais numa área maior?

Porque a perda cai sobre todos os hectares que ainda esperam. Gary Schnitkey, economista agrícola da Universidade de Illinois, calculou o custo de atraso de uma plantadeira de 12 linhas, o valor da produtividade perdida porque ela termina tarde. Ele achou US$ 0,86 por acre em 400 acres e US$ 32,81 por acre em 3.600 acres, a preços de 2004.

Em hectares, 400 e 3.600 acres são 162 e 1.457 ha, e US$ 0,86 e US$ 32,81 por acre são US$ 2,13 e US$ 81,07 por hectare. A área cresceu 9 vezes e o custo por hectare cerca de 38 vezes. Com mais hectares, a mesma plantadeira precisa de mais dias para terminar, e cada dia a mais cai sobre mais hectares ainda por semear. Conte os hectares que esperam por cada operação antes de comparar as operações.

Figura: Custo de atraso de uma plantadeira de 12 linhas, em dólares por hectare, numa área de 162 ha (400 acres) e numa de 1.457 ha (3.600 acres). Fonte: Schnitkey, farmdoc FEFO 04-05, preços de 2004
O custo por hectare subiu cerca de 38 vezes quando a área cresceu 9 vezesSchnitkey achou US$ 2,13 por hectare em 162 hectares e US$ 81,07 por hectare em 1.457 hectares para a mesma plantadeira.Custo de atraso, US$ por hectare, uma plantadeiraUS$ 2,13162 ha400 acresUS$ 81,071.457 ha3.600 acres

Todas as operações perdem o mesmo por dia?

Não, e essa diferença é o que você usa para escolher quem fica com o dia. Schuler e Frank, num guia de custos de máquinas da Universidade de Wisconsin-Extension, reproduzem uma tabela da Sociedade Americana de Engenheiros Agrícolas. Nela, a fração da produção perdida por dia de atraso é de 0,005 para a plantadeira, 0,003 para a colhedora, 0,011 para o pulverizador de barra e 0,028 para a enfardadora. São números gerais dos Estados Unidos, não da sua fazenda.

Na fazenda de exemplo, a soja perde mais por hectare do que o milho, mas o milho fica com o dia porque tem mais hectares esperando. A soja perde R$ 60 por hectare por dia (30 kg/ha × R$ 2,00 por kg), e o milho R$ 52 (52 kg/ha × R$ 1,00 por kg). Multiplique pelos hectares antes de decidir.

Figura: Perda por hectare por dia de espera, em reais, do milho 2ª safra e da soja da fazenda de exemplo. Fonte: conta a partir de Embrapa Soja (Documentos 459) e Tsukahara et al. (2016); preços são valores de exemplo
A soja perde mais por hectare, mas o milho perde mais no totalO milho perde R$ 52 por hectare por dia e a soja R$ 60 por hectare por dia. Com 800 hectares de milho e 300 de soja esperando, o milho perde mais reais por dia.Perda por hectare por dia de esperaR$ 52Milho 2ª safra800 ha esperandoR$ 60Soja300 ha esperando

A perda por dia é a mesma durante toda a janela?

Não, e o rumo muda de operação para operação. Nos ensaios de Castro e Itaberá, a curva ajustada estima que a soja de 4.000 kg/ha perde 4,9%, 7,5%, 10,1% e 12,8% da produtividade com a colheita atrasada em 5, 10, 15 e 20 dias. Os dias contam a partir do estádio R8.2, o de maior produtividade, e a perda em quilos é de 196, 300, 404 e 512 kg/ha. Em cada trecho de 5 dias, isso dá cerca de 39, 21, 21 e 22 kg/ha por dia: os primeiros dias custam quase o dobro dos seguintes. A curva explica cerca de um terço da variação (R² ajustado de 0,32), e as maiores perdas vieram de ambientes com muita chuva.

Na semeadura, a penalidade cresce mais depressa com o passar das datas. Scott Irwin resumiu ensaios de plantio da Universidade de Illinois. Semear até 10 de maio custou só 4% da produtividade no milho e 6% na soja, e em 30 de maio a penalidade era duas a três vezes maior. Esses ensaios são do hemisfério norte e servem aqui só para mostrar o formato da curva.

Na tabela, escreva por isso uma perda por trecho da janela, não um número único por operação.

Figura: Perda de produtividade da soja por dia, em quilos por hectare, em cada trecho de 5 dias de colheita atrasada depois do estádio R8.2, em Castro (PR) e Itaberá (SP). Fonte: conta a partir de Tsukahara et al. (2016), soja de 4.000 kg/ha
Os primeiros dias de colheita atrasada custam quase o dobro dos seguintesA curva estima perda de cerca de 39 kg/ha por dia nos primeiros 5 dias de atraso e cerca de 21, 21 e 22 kg/ha por dia nos três trechos seguintes de 5 dias.Perda por dia, soja de 4.000 kg/ha (kg/ha)39Dias1 a 521Dias6 a 1021Dias11 a 1522Dias16 a 20

Qual é a primeira coisa a registrar, e em quanto tempo?

Comece com uma linha por operação: a janela, a data-limite, uma perda por dia tirada de um ensaio publicado para a sua região, com a fonte ao lado, e o nome de quem decide. A extensão rural ou o seu agrônomo podem indicar um ensaio. Depois, para cada par de operações que precisam da mesma máquina ou da mesma turma nas mesmas semanas, escreva qual fica com o dia em cada semana em que as janelas se sobrepõem.

As datas em si, e a escolha de cultura e cultivar, são decisão sua e do seu agrônomo. Na tabela, você as deixa escritas onde a turma enxerga. Comprar uma máquina maior é outra decisão, para um plano de investimentos escrito; qual operação fica com o dia você decide nesta safra, com as máquinas que já tem.

Depois da colheita, acrescente quatro colunas na mesma tabela: a data em que cada operação foi feita, se ficou dentro ou fora da janela, os dias de atraso e o motivo em poucas palavras. Copie as datas do caderno de campo, não da memória. O plano e o caderno costumam ser escritos em momentos diferentes, por pessoas diferentes, e uma operação feita com dez dias de atraso entra no caderno como feita, sem marca de que perdeu a janela.

Com essa estimativa você compara duas operações atrasadas numa só escala. A coluna do motivo é a que você relê ao planejar as janelas da safra seguinte. Um atraso que parecia azar pode ter uma causa que se repete, como uma plantadeira que quebrou na mesma semana, e dá para corrigi-la antes de a janela abrir. Decidir antes da correria e conferir depois faz parte da rotina de gestão de fazendas e do planejamento da safra.

Figura: Uma linha da tabela, antes da safra e depois da colheita, para a semeadura do milho 2ª safra da fazenda de exemplo. Fonte: valores de exemplo feitos a partir do artigo
Uma linha da tabela, antes e depois da safraAntes da safra: operação, data-limite, perda por dia e quem decide. Depois da colheita: data em que foi feita, se ficou dentro da janela, dias de atraso e motivo.Uma operação, uma linha (exemplo)Antes da safraOperaçãoSemeadura do milhoData-limite10 de fevereiroPerda por dia52 kg/haQuem decideum nome escrito aquiDepois da colheitaFeita em22 de fevereiroDentro da janela?nãoDias de atraso12Motivoplantadeira quebrada

Leva duas horas antes da safra e uma tarde depois da colheita, com as datas da safra passada, o caderno de campo e uma perda por dia publicada para as suas culturas principais à mão.

Na primeira safra, a coluna da perda por dia traz números emprestados de ensaios longe das suas lavouras. Depois de duas ou três safras, as suas próprias colunas de dias de atraso e de motivo ficam ao lado, e você vê qual operação passa sempre da data-limite, e por quê.

Procedência

Deriva de
  1. Debiasi, Balbinot Junior, Franchini, Tonini, Roy e Muhl, Modelos de produção intensificados para diversificação da matriz produtiva para além da sucessão milho 2ª safra/soja nas regiões centro-oeste e oeste do Paraná, Embrapa Soja, Documentos 459, 2023
  2. Tsukahara, Fonseca, Silva, Kochinski, Prestes Neto e Suyama, Produtividade de soja em consequência do atraso da colheita e de condições ambientais, Pesquisa Agropecuária Brasileira 51(8), 2016
  3. Schnitkey, Planter Costs for Alternative Farm Sizes, Farm Economics Facts & Opinions FEFO 04-05, University of Illinois, 2004
  4. Schuler e Frank, Estimating Agricultural Field Machinery Costs, A3510, University of Wisconsin-Extension, 1991
  5. Irwin, What Do We Know About Planting Dates and Corn and Soybean Yield from Agronomic Field Trials?, farmdoc daily (12):51, University of Illinois, 2022
O que este artigo cobre
Escrever antes da safra a janela, a data-limite, uma perda por dia de atraso publicada e quem decide cada operação de campo; a regra para cada par de operações que precisam da mesma máquina ou da mesma turma nas mesmas semanas; e, depois da colheita, a data real, os dias de atraso, o motivo e uma estimativa do que os atrasos custaram.
O que ele não cobre
Que data de semeadura ou de colheita, que cultura ou que cultivar escolher, que você decide com o seu agrônomo, nem como executar cada operação. Também ficam de fora o dimensionamento e a compra de máquinas, o plano plurianual de produção e o próprio caderno de campo.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Duas operações, uma turma: qual fica com o dia? [S. l.], 5 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/planejamento/uma-janela-para-cada-operacao/. Acesso em:


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