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Como ouvir a queixa da equipe antes de o bom empregado sair?

Pergunte à equipe como vão as coisas e você ouve que está tudo bem. O problema com o encarregado, ou com você, aparece no dia em que o bom empregado pede a conta.

Publicado em Atualizado em 16 min
Neste artigo

Canal de queixa é o caminho que a equipe usa para levar um problema no dia em que ele surge, com uma pessoa nomeada para receber e uma data para a resposta. A pesquisa sem nome é uma folha de perguntas curtas que cada pessoa responde sozinha, sem assinar. Para saber do problema da equipe antes de o bom empregado sair, dê à equipe um caminho que não passa por quem a queixa envolve e faça a pesquisa duas vezes por ano. Especialistas em trabalho costumam estimar que uma saída custa cerca de 150% do salário anual do empregado. Para um empregado que ganha R$ 48.000 por ano, são R$ 72.000, um exemplo construído sobre uma regra prática de fora da fazenda. Sem o caminho, a queixa contra o encarregado chega a você no dia em que o empregado pede a conta.

A equipe sai por causa da chefia ou do salário?

O salário vem antes nos estudos de fazenda e na sondagem do Brasil. Um estudo de 2026 na revista One Health perguntou a trabalhadores com visto TN, em granjas de suínos dos Estados Unidos, por que trocariam de empregador. 36,7% citaram remuneração e benefícios ruins e 30,0% citaram má gestão. O visto TN é uma autorização de trabalho dos Estados Unidos para canadenses e mexicanos com diploma, e esses trabalhadores vinham sobretudo do México.

Numa pesquisa de 2009 sobre os empregos anteriores de trabalhadores de fazendas de leite de três condados da Califórnia, 29% das saídas foram por remuneração e benefícios e 8% por relação com a chefia. A chefia fica mais abaixo na contagem da Califórnia do que no estudo das granjas, e os dois medem coisas diferentes: saídas que aconteceram, e a ideia de sair.

No Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego ouviu 53.692 trabalhadores que pediram o desligamento entre novembro de 2023 e abril de 2024, de todos os setores. Para 32,5% a motivação era o baixo salário, e para 16,2% eram problemas com a chefia imediata.

Figura: Motivos de saída, ou de pensar em sair, em dois estudos de fazenda e numa sondagem nacional. Fontes: Campler e outros, 2026; Billikopf e González, 2012; Ministério do Trabalho e Emprego, 2024
O salário vem antes nas três contagens, e a chefia fica abaixoEntre trabalhadores com visto TN em granjas de suínos dos EUA, 36,7% citaram remuneração e benefícios e 30,0% citaram má gestão como motivo para pensar em trocar de empregador. Nos empregos anteriores de trabalhadores de fazendas de leite da Califórnia em 2009, 29% das saídas foram por remuneração e benefícios e 8% por relação com a chefia. Entre trabalhadores brasileiros que pediram o desligamento, 32,5% tinham como motivação o baixo salário e 16,2% os problemas com a chefia imediata.Pensando em sairVisto TN, granjas de suínos dos EUA, 2026Remuneração e benefícios36,7%Má gestão30,0%Saídas que aconteceramFazendas de leite, Califórnia, 2009Remuneração e benefícios29%Relação com a chefia8%Quem pediu para sairTodos os setores, Brasil, 2023 a 2024Baixo salário32,5%Problemas com a chefia imediata16,2%

Os trabalhadores da Califórnia relataram não se dar bem com o supervisor direto ou o dono da fazenda de leite, às vezes a mesma pessoa. O salário é outra pergunta. A queixa contra a chefia precisa de outra saída, porque a queixa contra o encarregado tem de passar pelo encarregado, e a queixa contra o dono não tem ninguém acima. Dizer à equipe que a porta está aberta deixa o empregado falar na cara de quem chefia.

Sem um caminho, a chefia só aparece na sua contagem de rotatividade depois que o empregado saiu.

Quem pode receber uma queixa contra a chefia?

Depende de quem chefia a equipe. Em fazenda pequena essa pessoa muitas vezes é o dono, e então o dono não pode ser o caminho que contorna a chefia. O Censo Agropecuário 2017 registrou em Uberaba (MG) 2.018 estabelecimentos. Em 1.534 (76,0%) a direção dos trabalhos era do titular diretamente, em 244 (12,1%) do casal, e em 220 (10,9%) do titular por meio de encarregado ou parente. No Brasil todo, as parcelas são 73,4%, 20,4% e 5,6%.

Se um encarregado chefia a equipe entre você e os empregados, você pode ser o caminho que contorna o encarregado. Se você contratou um gerente, registre o que ele pode decidir sem consultar você, como no artigo sobre o que o gerente decide sozinho. A queixa sobre uma dessas decisões chega a você sem passar pelo gerente. Se você mesmo chefia a equipe, o caminho precisa ficar fora da gestão da fazenda. Pode ser um parente que não chefia ninguém ou o telefone de uma autoridade de fora, como a fiscalização do Ministério do Trabalho.

Figura: O caminho que contorna a chefia, conforme quem chefia a equipe. Fonte dos números de Uberaba: IBGE, Censo Agropecuário 2017
O caminho que contorna a chefia muda conforme quem chefia a equipeUberaba (MG), 2017: de 2.018 estabelecimentos, em 1.534 o titular dirigia diretamente, em 244 o casal e em 220 o titular por meio de encarregado ou parente. Se um encarregado chefia a equipe, o caminho que contorna o encarregado é o dono. Se um gerente chefia a fazenda, o caminho é o dono, nas decisões registradas como do gerente. Se o dono chefia a equipe, o caminho é um parente que não chefia ninguém ou o telefone de uma autoridade de fora.Uberaba (MG), direção dos trabalhos, 20171.534 titular, 244 casal, 220 encarregadoUm encarregado chefia a equipeCaminho de fora: o donoUm gerente chefia a fazendaCaminho de fora: o dono, nasdecisões registradas como do gerenteVocê mesmo chefia a equipeCaminho de fora: um parente quenão chefia ninguém, ou o telefonede uma autoridade de fora, como afiscalização do Ministério do Trabalho

O GLOBALG.A.P. é uma certificação de fazenda que muitos compradores pedem aos fornecedores, e o módulo de condições de trabalho dele, a GRASP, só obriga as fazendas que a buscam. Suas regras servem bem de roteiro. A GRASP exige um ou mais lugares bem divulgados para registrar queixa, e pelo menos um deles deve ser independente da supervisão. Ela conta como supervisão o encarregado, o gerente e o chefe de turma.

Todo meio precisa oferecer a opção de registrar a queixa sem se identificar. Quando a turma trabalha longe da sede, um desses meios é uma pessoa designada da própria turma, que recebe a queixa no campo. Para essa pessoa a queixa não é anônima, e por isso a pesquisa sem nome existe ao lado do canal.

Os caminhos e o prazo ficam afixados na língua da equipe, ou em desenho para quem não lê, como a GRASP pede. Entram na lista do que o empregado novo recebe no primeiro dia, para a equipe conhecer o canal antes de precisar dele.

Queixa de assédio, ou de alguém que quebrou uma regra de conduta, precisa de uma consequência decidida antes, e é para isso que serve um código de conduta assinado por cada pessoa. Este canal recebe o problema do dia a dia, como o pagamento que veio faltando, a escala ou o jeito como o encarregado fala.

Em quanto tempo você deve responder a uma queixa?

Em data marcada, porque a equipe julga o canal pelo que aconteceu com a última queixa, não pela caixa na parede. Segundo a GRASP, a resposta a tempo é, em geral, no máximo 30 dias depois da queixa ou antes do último dia de trabalho de quem reclamou, o que vier primeiro. A queixa conta como resolvida com resposta positiva ou negativa, ou com a explicação de por que não houve solução, então um não honesto a fecha. A resposta à queixa anônima vai num aviso geral afixado onde a equipe lê. Os 30 dias são um padrão escrito, não um efeito medido.

Figura: Prazo de resposta de duas queixas do caderno de exemplo, e o padrão da GRASP. Fonte: GLOBALG.A.P., GRASP v2.0
O prazo de uma queixa acaba antes quando o último dia de trabalho chega antesNo caderno de exemplo, a queixa de 2/5 tem 30 dias para a resposta, até 1º/6. A queixa de 5/5, de um safrista com último dia em 20/5, tem 15 dias, porque o último dia vem antes dos 30. O padrão da GRASP é de no máximo 30 dias, ou antes do último dia de trabalho, o que vier primeiro.Dias para responder, a partir da entradaCaderno de exemplo, UberabaQueixa de 2/5, resposta até 1º/630 diasQueixa de 5/5 (último dia 20/5)15 diasPadrão da GRASP para a respostaNo máximo 30 dias, ou antes doúltimo dia de trabalho, o que vier primeiro

Cada queixa ganha uma linha no caderno: a data em que entrou, o assunto, quem cuida, a data em que a resposta vence e a resposta com a data em que foi dada. A data de vencimento é o dia da entrada mais 30 dias. Se o último dia de trabalho vier antes, a resposta vence antes dele, e assim o safrista da colheita recebe a resposta antes de ir embora. O caderno abaixo é de uma fazenda de grãos inventada, em Uberaba, com uma equipe de quatro pessoas.

quatro queixas de exemplo no caderno, com a data em que cada resposta vence
Entrou em Do que trata Quem cuida Responder até Resposta, e quando
2/5 O encarregado grita com os novatos (levada direto ao dono) Dono 1º/6 Conversa com o encarregado; empregado avisado em 9/5
5/5 Faltaram as horas extras de dois dias (safrista, último dia 20/5) Escritório Antes de 20/5 Pago na folha seguinte; empregado avisado em 7/5
6/5 Anônima, caixa: falta água de beber no talhão do fundo depois das 10h Dono 5/6 Caixa d’água levada para lá; aviso afixado em 8/5
12/5 Quer folga em todos os sábados Dono 11/6 Não, na colheita a escala do fim de semana precisa de dois operadores de colhedora; empregado avisado em 14/5

Quando a mesma queixa entra pela terceira vez, as duas primeiras respostas não resolveram, e o problema pode estar no jeito como o trabalho está organizado.

O que você descobre numa pesquisa sem nome que o canal não revela?

Você descobre o problema que muita gente tem e ninguém leva sozinho. Perguntadas cara a cara, as pessoas tendem a responder o que é seguro. No estudo das granjas de suínos, 211 trabalhadores responderam presencialmente e 50 pela internet. O grupo presencial teve mais chance de relatar satisfação maior no trabalho e menos chance de pensar em trocar de emprego. Os autores dão duas explicações possíveis: os presenciais podem ter temido represália e dado as respostas que ficam bem, ou os respondentes online podem vir de empresas com condições piores. O estudo não separa uma da outra.

Num estudo de 2013 com oito fazendas de leite de quatro estados americanos, cada empregado recebeu as perguntas no papel, na língua dele, e ligou para um entrevistador bilíngue para responder por telefone. Dos empregados elegíveis, 78% foram entrevistados. Entre os que responderam, 47% disseram que o treinamento nunca era oferecido ou só vinha na entrada. Os autores escrevem que os patrões subestimam o interesse dos empregados em aprender.

Figura: O que 120 empregados de oito fazendas de leite responderam quando a resposta não levava o nome. Fonte: Durst, Moore e Soriano, 2013
Os empregados deram nota maior ao supervisor que aos colegas e disseram que o treinamento é raroEmpregados de oito fazendas de leite de quatro estados americanos, 2013. Dos empregados elegíveis, 78% foram entrevistados. 47% disseram que o treinamento nunca era oferecido ou só vinha na entrada. Deram 4,43 de 5 à relação com o supervisor e 3,76 de 5 à relação com os colegas.Empregados, 8 fazendas, 4 estados dos EUADurst e outros, 2013Dos elegíveis, entrevistados78%Treinamento nunca, ou só na entrada47%Relação com o supervisor, de 1 a 54,43Relação com os colegas, de 1 a 53,76

Os mesmos empregados deram 4,43 de 5 à relação com o supervisor e 3,76 à relação com os colegas. A contagem mostra que assuntos pesam na equipe, e um resultado baixo nunca se lê como veredito sobre uma pessoa.

Pergunte sobre cinco ou seis coisas que pesam para alguém ficar, como salário, treinamento, chance de subir e o jeito como as pessoas são tratadas. Escreva cada uma como uma frase curta, como “Meu pagamento vem certo e no dia”. Dê as mesmas opções a todos (sim, não, não sei) e acrescente uma pergunta aberta: a coisa que a pessoa mudaria. Recolha as folhas por meio de alguém que não chefia ninguém, ou deixe cada um dobrar a folha e colocá-la numa caixa lacrada. Numa equipe de seis, até a contagem sem nome pode apontar quem respondeu, então não separe por idade, língua ou função.

Conte cada pergunta separada, porque um total único deixa o bom resultado no salário esconder o ruim no treinamento. Depois diga à equipe o que contou e o que vai fazer com as três queixas mais citadas, ou ela terá menos motivo para responder a próxima.

Quem você nomeia primeiro, e em quanto tempo?

Uma tarde para escrever os caminhos, o prazo e a folha da pesquisa, e uma conversa com a equipe.

Figura: Os seis passos, de nomear quem recebe as queixas até a próxima pesquisa
Os seis passos do canal de queixa e da pesquisaAntes da primeira queixa: definir quem recebe as queixas, fixar e afixar o prazo de resposta, abrir o caderno com cinco colunas. Quando uma queixa chega: responder a primeira até o prazo. Duas vezes por ano: entregar a pesquisa sem nome, contar e dizer o resultado à equipe, e marcar a próxima pesquisa para seis meses depois.Antes da primeira queixa1. Defina quem recebe as queixas2. Fixe e afixe o prazo de resposta3. Abra o caderno com cinco colunasQuando uma queixa chega4. Responda a primeira até o prazoDuas vezes por ano5. Entregue a pesquisa sem nome6. Conte e diga o resultado à equipe

Seis meses depois, coloque a contagem da pesquisa ao lado do caderno. Quando metade da equipe marca uma queixa na pesquisa e ninguém a leva ao canal, o caminho não está chegando a ela. O passo seguinte é um caminho com alguém de fora da chefia da equipe.

Há mais sobre contratar e acompanhar a equipe na seção de pessoas da biblioteca, e sobre o resto do trabalho de quem dirige a fazenda em gestão de fazendas.

Procedência

Deriva de
  1. Campler, M. R., Arruda, A. G., Flaherty, K., Resende, T., Franco, I., Jackson-Smith, D., Safranski, T. J. e Lopez-Soriano, M., Underlying factors influencing job satisfaction and stress among TN-visa workers in the U.S. swine industry, One Health 23, 2026
  2. Billikopf, G. e González, G., Turnover rates are decreasing in California dairies, California Agriculture 66(4), 2012
  3. GLOBALG.A.P. Risk Assessment on Social Practice (GRASP), Principles and Criteria, Module v2.0, September 2022, Section 3 Complaint Process
  4. Durst, P. T., Moore, S. J. e Soriano, F. D., Understanding dairy employee attitudes, concerns, and perspectives to improve employee management and overall herd health, AABP Proceedings 46, 2013
  5. Ministério do Trabalho e Emprego, Sondagem inédita feita pelo MTE aponta principais motivos para pedidos de demissão, 12 de agosto de 2024
  6. IBGE, Censo Agropecuário 2017, tabela 6756 do SIDRA, direção dos trabalhos do estabelecimento agropecuário
O que este artigo cobre
Como organizar um canal de queixa com pelo menos um caminho que não passa por quem chefia a equipe, um prazo de resposta de 30 dias ou antes do último dia de trabalho, um caderno de queixas com a coluna da data em que a resposta vence, e uma pesquisa sem nome, que cada pessoa responde sozinha, contada pergunta por pergunta, duas vezes por ano.
O que ele não cobre
Assédio e quebra de regra de conduta, que pedem uma consequência decidida antes e têm artigo próprio. Quanto pagar e quando dar aumento. O que a lei exige de um canal formal de denúncia, que é pergunta para um advogado trabalhista. Dar pontuação ou classificar um trabalhador a partir da pesquisa.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Como ouvir a queixa da equipe antes de o bom empregado sair? [S. l.], 21 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/pessoas/como-a-equipe-leva-um-problema/. Acesso em:


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