Canal de queixa é o caminho que a equipe usa para levar um problema no dia em que ele surge, com uma pessoa nomeada para receber e uma data para a resposta. A pesquisa sem nome é uma folha de perguntas curtas que cada pessoa responde sozinha, sem assinar. Para saber do problema da equipe antes de o bom empregado sair, dê à equipe um caminho que não passa por quem a queixa envolve e faça a pesquisa duas vezes por ano. Especialistas em trabalho costumam estimar que uma saída custa cerca de 150% do salário anual do empregado. Para um empregado que ganha R$ 48.000 por ano, são R$ 72.000, um exemplo construído sobre uma regra prática de fora da fazenda. Sem o caminho, a queixa contra o encarregado chega a você no dia em que o empregado pede a conta.
A equipe sai por causa da chefia ou do salário?
O salário vem antes nos estudos de fazenda e na sondagem do Brasil. Um estudo de 2026 na revista One Health perguntou a trabalhadores com visto TN, em granjas de suínos dos Estados Unidos, por que trocariam de empregador. 36,7% citaram remuneração e benefícios ruins e 30,0% citaram má gestão. O visto TN é uma autorização de trabalho dos Estados Unidos para canadenses e mexicanos com diploma, e esses trabalhadores vinham sobretudo do México.
Numa pesquisa de 2009 sobre os empregos anteriores de trabalhadores de fazendas de leite de três condados da Califórnia, 29% das saídas foram por remuneração e benefícios e 8% por relação com a chefia. A chefia fica mais abaixo na contagem da Califórnia do que no estudo das granjas, e os dois medem coisas diferentes: saídas que aconteceram, e a ideia de sair.
No Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego ouviu 53.692 trabalhadores que pediram o desligamento entre novembro de 2023 e abril de 2024, de todos os setores. Para 32,5% a motivação era o baixo salário, e para 16,2% eram problemas com a chefia imediata.
Os trabalhadores da Califórnia relataram não se dar bem com o supervisor direto ou o dono da fazenda de leite, às vezes a mesma pessoa. O salário é outra pergunta. A queixa contra a chefia precisa de outra saída, porque a queixa contra o encarregado tem de passar pelo encarregado, e a queixa contra o dono não tem ninguém acima. Dizer à equipe que a porta está aberta deixa o empregado falar na cara de quem chefia.
Sem um caminho, a chefia só aparece na sua contagem de rotatividade depois que o empregado saiu.
Quem pode receber uma queixa contra a chefia?
Depende de quem chefia a equipe. Em fazenda pequena essa pessoa muitas vezes é o dono, e então o dono não pode ser o caminho que contorna a chefia. O Censo Agropecuário 2017 registrou em Uberaba (MG) 2.018 estabelecimentos. Em 1.534 (76,0%) a direção dos trabalhos era do titular diretamente, em 244 (12,1%) do casal, e em 220 (10,9%) do titular por meio de encarregado ou parente. No Brasil todo, as parcelas são 73,4%, 20,4% e 5,6%.
Se um encarregado chefia a equipe entre você e os empregados, você pode ser o caminho que contorna o encarregado. Se você contratou um gerente, registre o que ele pode decidir sem consultar você, como no artigo sobre o que o gerente decide sozinho. A queixa sobre uma dessas decisões chega a você sem passar pelo gerente. Se você mesmo chefia a equipe, o caminho precisa ficar fora da gestão da fazenda. Pode ser um parente que não chefia ninguém ou o telefone de uma autoridade de fora, como a fiscalização do Ministério do Trabalho.
O GLOBALG.A.P. é uma certificação de fazenda que muitos compradores pedem aos fornecedores, e o módulo de condições de trabalho dele, a GRASP, só obriga as fazendas que a buscam. Suas regras servem bem de roteiro. A GRASP exige um ou mais lugares bem divulgados para registrar queixa, e pelo menos um deles deve ser independente da supervisão. Ela conta como supervisão o encarregado, o gerente e o chefe de turma.
Todo meio precisa oferecer a opção de registrar a queixa sem se identificar. Quando a turma trabalha longe da sede, um desses meios é uma pessoa designada da própria turma, que recebe a queixa no campo. Para essa pessoa a queixa não é anônima, e por isso a pesquisa sem nome existe ao lado do canal.
Os caminhos e o prazo ficam afixados na língua da equipe, ou em desenho para quem não lê, como a GRASP pede. Entram na lista do que o empregado novo recebe no primeiro dia, para a equipe conhecer o canal antes de precisar dele.
Queixa de assédio, ou de alguém que quebrou uma regra de conduta, precisa de uma consequência decidida antes, e é para isso que serve um código de conduta assinado por cada pessoa. Este canal recebe o problema do dia a dia, como o pagamento que veio faltando, a escala ou o jeito como o encarregado fala.
Em quanto tempo você deve responder a uma queixa?
Em data marcada, porque a equipe julga o canal pelo que aconteceu com a última queixa, não pela caixa na parede. Segundo a GRASP, a resposta a tempo é, em geral, no máximo 30 dias depois da queixa ou antes do último dia de trabalho de quem reclamou, o que vier primeiro. A queixa conta como resolvida com resposta positiva ou negativa, ou com a explicação de por que não houve solução, então um não honesto a fecha. A resposta à queixa anônima vai num aviso geral afixado onde a equipe lê. Os 30 dias são um padrão escrito, não um efeito medido.
Cada queixa ganha uma linha no caderno: a data em que entrou, o assunto, quem cuida, a data em que a resposta vence e a resposta com a data em que foi dada. A data de vencimento é o dia da entrada mais 30 dias. Se o último dia de trabalho vier antes, a resposta vence antes dele, e assim o safrista da colheita recebe a resposta antes de ir embora. O caderno abaixo é de uma fazenda de grãos inventada, em Uberaba, com uma equipe de quatro pessoas.
| Entrou em | Do que trata | Quem cuida | Responder até | Resposta, e quando |
|---|---|---|---|---|
| 2/5 | O encarregado grita com os novatos (levada direto ao dono) | Dono | 1º/6 | Conversa com o encarregado; empregado avisado em 9/5 |
| 5/5 | Faltaram as horas extras de dois dias (safrista, último dia 20/5) | Escritório | Antes de 20/5 | Pago na folha seguinte; empregado avisado em 7/5 |
| 6/5 | Anônima, caixa: falta água de beber no talhão do fundo depois das 10h | Dono | 5/6 | Caixa d’água levada para lá; aviso afixado em 8/5 |
| 12/5 | Quer folga em todos os sábados | Dono | 11/6 | Não, na colheita a escala do fim de semana precisa de dois operadores de colhedora; empregado avisado em 14/5 |
Quando a mesma queixa entra pela terceira vez, as duas primeiras respostas não resolveram, e o problema pode estar no jeito como o trabalho está organizado.
O que você descobre numa pesquisa sem nome que o canal não revela?
Você descobre o problema que muita gente tem e ninguém leva sozinho. Perguntadas cara a cara, as pessoas tendem a responder o que é seguro. No estudo das granjas de suínos, 211 trabalhadores responderam presencialmente e 50 pela internet. O grupo presencial teve mais chance de relatar satisfação maior no trabalho e menos chance de pensar em trocar de emprego. Os autores dão duas explicações possíveis: os presenciais podem ter temido represália e dado as respostas que ficam bem, ou os respondentes online podem vir de empresas com condições piores. O estudo não separa uma da outra.
Num estudo de 2013 com oito fazendas de leite de quatro estados americanos, cada empregado recebeu as perguntas no papel, na língua dele, e ligou para um entrevistador bilíngue para responder por telefone. Dos empregados elegíveis, 78% foram entrevistados. Entre os que responderam, 47% disseram que o treinamento nunca era oferecido ou só vinha na entrada. Os autores escrevem que os patrões subestimam o interesse dos empregados em aprender.
Os mesmos empregados deram 4,43 de 5 à relação com o supervisor e 3,76 à relação com os colegas. A contagem mostra que assuntos pesam na equipe, e um resultado baixo nunca se lê como veredito sobre uma pessoa.
Pergunte sobre cinco ou seis coisas que pesam para alguém ficar, como salário, treinamento, chance de subir e o jeito como as pessoas são tratadas. Escreva cada uma como uma frase curta, como “Meu pagamento vem certo e no dia”. Dê as mesmas opções a todos (sim, não, não sei) e acrescente uma pergunta aberta: a coisa que a pessoa mudaria. Recolha as folhas por meio de alguém que não chefia ninguém, ou deixe cada um dobrar a folha e colocá-la numa caixa lacrada. Numa equipe de seis, até a contagem sem nome pode apontar quem respondeu, então não separe por idade, língua ou função.
Conte cada pergunta separada, porque um total único deixa o bom resultado no salário esconder o ruim no treinamento. Depois diga à equipe o que contou e o que vai fazer com as três queixas mais citadas, ou ela terá menos motivo para responder a próxima.
Quem você nomeia primeiro, e em quanto tempo?
Uma tarde para escrever os caminhos, o prazo e a folha da pesquisa, e uma conversa com a equipe.
Seis meses depois, coloque a contagem da pesquisa ao lado do caderno. Quando metade da equipe marca uma queixa na pesquisa e ninguém a leva ao canal, o caminho não está chegando a ela. O passo seguinte é um caminho com alguém de fora da chefia da equipe.
Há mais sobre contratar e acompanhar a equipe na seção de pessoas da biblioteca, e sobre o resto do trabalho de quem dirige a fazenda em gestão de fazendas.