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Quanto custa mais um mês de produto guardado, linha a linha?

O retorno que citam para quem espera é medido antes do custo de esperar. Cada linha desse custo já tem preço publicado em algum lugar, e mais um mês só usa metade delas.

Conferida em 15 min
Neste artigo

Por unidade e por mês, e quase toda a conta já está dentro de papel que a fazenda paga. O custo de guardar não é um número. É uma pilha de linhas, umas faturadas por um armazém e outras pagas sem que fatura nenhuma seja emitida, e a única versão dele que resolve uma decisão é a apurada para um lote nomeado ao longo de um número nomeado de meses.

O lote fica parado porque o preço não agradou, e a decisão de esperar é tomada como se esperar fosse de graça. O dinheiro que não entrou está pagando juro em algum lugar. Peso sai. A classificação na saída não é a mesma da entrada.

Energia e mão de obra entram para manter aquilo onde está. Nenhuma dessas linhas está somada em lugar nenhum, então a comparação que decidiria a coisa, quanto o mercado paga a mais para receber depois contra quanto custa chegar lá, nunca é feita. Quando o lote finalmente sai, ninguém consegue dizer se a espera se pagou, porque o custo dela nunca foi apurado e o registro do que entrou e do que saiu não existe ou está pela metade.

Mais um mês é a pergunta do título, e ela não é o período inteiro dividido pelo número de meses. Umas linhas são cobradas uma vez quando o lote entra e uma vez quando ele sai. Outras correm com o calendário, e o custo de armazenagem aumenta quanto mais tempo o grão fica guardado. Divida tudo pelos meses e o resultado cai à medida que a espera se estica, que é a aritmética avisando a fazenda de que a paciência fica mais barata quanto mais dela a fazenda compra.

Por que o retorno de guardar que citam por aí é medido antes do custo de guardar

Bruto, e o autor que publicou o número diz isso no mesmo texto. Janzen, trabalhando com cerca de 16.000 observações de fazenda-ano de propriedades de grão de Illinois entre 2003 e 2020, mede o retorno bruto da comercialização pós-colheita como a diferença percentual entre a venda adiada e a venda próxima da colheita, e relata que as fazendas obtêm, em média, retorno bruto mais ou menos igual à alta sazonal de preço depois da colheita, enquanto a faixa de ganhos possíveis na comercialização é larga, e as fazendas com frequência realizam retornos brutos negativos.

Em seguida ele tira o chão do próprio achado: esta análise ignora os custos de armazenagem inerentes à comercialização pós-colheita, que são expressivos diante dos retornos observados, de modo que o retorno líquido da comercialização pós-colheita tem de ser menor que o retorno bruto.

Aquelas fazendas escrituram com uma associação estadual de gestão rural por escolha própria, o que descreve quem escritura e não toda fazenda do estado, e a dispersão não é a mesma todo ano: em outros anos a amplitude da distribuição é bem larga. O que sobrevive a tudo isso é o formato da coisa. A média que qualquer um cita para quem segura produto é o número antes da subtração, a subtração é o assunto desta página, e o mesmo registro mostra muita fazenda terminando do lado errado dela.

A linha que dá para apurar hoje, com um preço e uma taxa

O juro do dinheiro que não entrou, e ele sai de uma multiplicação. Gardner, escrevendo para o Departamento de Economia Agrícola da University of Kentucky em 2023, dá a conta sem rodeio: o custo de juro do capital de giro por unidade se obtém multiplicando o preço de colheita pela taxa de juro e dividindo por 12 o número de meses em que o produto fica armazenado. O exemplo dele segura milho por cinco meses a um preço de colheita de US$ 5,00 por bushel, que é a unidade americana de 56 libras, cerca de 25,4 quilos. A 4% ao ano a linha dá US$ 0,08 por bushel. A 10% ela dá US$ 0,21.

Leia esses dois valores como fração do que está parado ali e eles atravessam qualquer moeda: cerca de 1,6% e cerca de 4,2% do valor de colheita, pelos mesmos cinco meses, divisão nossa sobre os números publicados por ele. Duas coisas mexem nessa linha e nenhuma delas é o armazém. Ela cresce a cada mês em que o lote continua onde está, e os custos aumentam à medida que o preço da mercadoria aumenta.

Quem paga à vista em vez de tomar capital de giro não escapa da linha, muda o que ela vale, e Gardner nomeia isso quando registra que o efeito da taxa alta poderia ser atenuado ou interrompido quitando o financiamento antes ou usando reserva de caixa em vez de empréstimo.

Cada uma dessas linhas já tem preço em tabela publicada

Publicada, item a item, e cobrada em separado, que é a prova de que são linhas de verdade e não exercício de contabilidade. A tabela de tarifas da rede armazenadora da Conab, aprovada na Resolução nº 1.609 de 11/04/2023 e em vigor desde 15/06/2023, cobra cada uma por conta própria, e o primeiro item dela já nomeia a unidade da cobrança, armazenamento e/ou reserva de espaço, medido por quinzena civil infracionada. Não é jeito brasileiro de cobrar.

Nos Estados Unidos o Departamento de Agricultura aponta para o mesmo documento pelo nome quando diz que a Commodity Credit Corporation vai aceitar as tarifas de armazenagem e de movimentação constantes da tarifa pública ou do demonstrativo de encargos do operador do armazém, as mesmas cobradas dos clientes comerciais dele, e fixa um teto para quando não houver tarifa publicada, limitando a movimentação ao máximo de 12 centavos de dólar por bushel, tanto na recepção quanto na expedição.

A tabela da Conab, lida como lista de linhas e não como lista de preços, é o modelo da folha. Os valores abaixo são os daquela tabela e daquela data.

As linhas de uma tarifa de armazenagem publicada, e como cada uma é cobrada
Linha da tabela publicada Como é cobrada
Armazenamento ou reserva de espaço, granel, demais produtos agrícolas R$ 3,31 por tonelada, a cada quinzena
Armazenamento ou reserva de espaço, granel, arroz, cevada e malte R$ 4,30 por tonelada, a cada quinzena
Seguro, sobre todo produto que não paga sobretaxa 0,02432%, a cada quinzena
Sobretaxa, sobre arroz, milho, feijão, sorgo, soja, trigo, cevada, centeio e triticale 0,15%, a cada quinzena
Recepção, granel R$ 2,69 por tonelada, na operação
Expedição, granel R$ 3,36 por tonelada, na operação
Secagem, até 16% de umidade R$ 11,76 por tonelada a gás natural, R$ 16,45 com outros
Limpeza ou pré-limpeza, até 5,00% de impureza R$ 3,59 por tonelada, na operação
Taxa mínima de armazenagem R$ 10,00 por quinzena, qualquer que seja a tonelagem

Quais linhas correm com o calendário e quais param na porteira

Cinco dessas nove linhas têm quinzena dentro e quatro não têm, e essa divisão é a resposta inteira da pergunta do título. Recepção, expedição, secagem e limpeza são cobradas uma vez, na operação. Armazenamento, seguro, sobretaxa e taxa mínima voltam a ser cobrados a cada quinzena em que o lote continua ali. Mais um mês de espera compra duas quinzenas a mais do segundo grupo e nada do primeiro, então o custo de mais um mês é montado só com as linhas que continuam correndo.

Na tabela da Conab isso é R$ 3,31 por tonelada por quinzena para o granel de demais produtos agrícolas, que na unidade da própria tabela dá R$ 6,62 por tonelada por mês, mais 0,15% por quinzena de sobretaxa nos grãos listados, que dá 0,30% por mês. As duas duplicações são nossas, e dobrar a quinzena é a única coisa feita sobre a tabela publicada.

A taxa mínima é a linha que se recusa a obedecer. A observação da própria tabela manda para cobrança de armazenagem considerar o valor de R$ 10,00 (dez reais)/quinzena, e mínimo é mínimo qualquer que seja a tonelagem, então ela pousa num lote pequeno a um valor por tonelada que tabela nenhuma mostra. É por isso que o número se apura para o lote que está parado de fato, e não se lê de uma média. Onde não há folga para errar em algumas unidades, a aritmética precisa ficar mais apertada, e não mais frouxa.

A perda que é fácil de precificar e a que não é

Duas perdas, e elas se comportam de jeito diferente na conta. Kumar e Kalita, revisando armazenagem pós-colheita para o periódico Foods em 2017, separam as duas: as perdas de armazenagem podem ser classificadas em duas categorias, as diretas, pela perda física da mercadoria, e as indiretas, pela perda de qualidade e de valor nutricional, e a segunda também termina em dinheiro, já que a perda de qualidade resulta em perda de valor do produto e às vezes leva à rejeição total. A primeira é um peso, e um ticket de balança em cada ponta resolve. A segunda é uma classificação, e nada resolve a não ser o que o comprador pagou.

A distância entre as duas está medida, e é a razão de o registro ter coluna de classificação e não só coluna de quantidade. Santos e colegas, calculando um nível de dano econômico para trigo armazenado na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental em 2002, põem o custo de controle e o valor comercial do produto dos dois lados da mesma equação, e tiveram de fixar esse valor comercial duas vezes, uma para o trigo importado e outra para o nacional, porque dano físico idêntico em dois trigos que valem dinheiro diferente não é a mesma perda.

A ressalva dos próprios autores é a parte que atravessa: a quantificação da perda de qualidade e sua associação a um valor monetário, é mais difícil que os cálculos para a perda de peso. Conservar produto guardado não é assunto desta página e nunca vai ser, e é competência de quem lê e do agrônomo dele.

Por que 10% é número de país e nunca do seu lote

Estimativa nacional descreve um país, e comprador nenhum já pagou ninguém contra uma. Lorini, escrevendo para a ESALQ da Universidade de São Paulo em 2015, relata que as perdas médias de grãos, no país, estimadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e pela Food and Agriculture Organization (FAO/ONU), chegam a, aproximadamente, 10% do total produzido anualmente, e na mesma passagem nomeia a perda que não é peso nenhum: as perdas qualitativas, que comprometem o uso de todos os grãos produzidos ou os classificam para outro uso de menor valor agregado.

Dez por cento é estimativa de duas instituições sobre um país inteiro num ano inteiro, e é exatamente por isso que ela não pode ser a linha de perda de folha nenhuma. Kumar e Kalita esbarram no mesmo muro pelo lado da pesquisa, ao relatar que a disponibilidade de dados consistentes e confiáveis de perda pós-colheita ainda é um desafio. O número que vai na linha é o peso que entrou menos o peso que saiu, no romaneio da própria fazenda, para o lote em questão. Todo o resto é média de outra pessoa sendo chamada para um serviço que ela não faz.

O registro que torna o número conferível nas duas pontas

Data, quantidade, umidade e classificação, duas vezes, e a segunda vez é a que some. A razão da segunda leitura é que o estado comercial de um lote se mexe enquanto ele fica parado. Lorini traz a versão mais dura disso, no trigo, em que o produto é desclassificado para comercialização se for encontrado um inseto vivo no lote. Lote que entrou vendável e saiu desclassificado mudou enquanto ninguém escrevia nada.

A classificação não é opinião em mercado nenhum destes, e é isso que a torna registrável. Na Argentina, a Resolución 1075/1994 aprovou as normas de qualidade dos grãos e declarou que as normas aprovadas são de caráter obrigatório, salvo se as partes acordarem expressamente especificações diferentes, e põe preço na classificação sem intermediário: na cevada cervejeira, a entrega de Grau 1 recebe bonificação de 1% sobre a cotação oficial, com rebaixa de 1,50% se for entregue Grau 3.

A umidade acima da base de umidade que a norma fixa é precificada do mesmo jeito, por merma percentual de peso conforme a tabela vigente, com a tarifa de secagem acordada ou fixada a ser paga. Duas jurisdições, dois documentos, as mesmas três colunas. Escrevê-las nas duas pontas é o passo de verificação da gestão de fazendas, e a única razão de ele parecer opcional é que ninguém é cobrado por pulá-lo.

A lista do que ficou de fora vai na mesma folha

Embaixo do número, nomeada uma a uma, porque folha de custo sem limite declarado é lida como se fosse completa. Gardner faz isso na própria publicação, com a mesma nota debaixo de cada gráfico: os custos não consideram custos físicos de armazenagem, como depreciação do silo, transporte, secagem etc. O número dele é uma linha da pilha, e ele diz qual, que é o que permite a qualquer um usar aquilo sem ser enganado por aquilo.

O silo próprio é onde a lista do que falta fica mais comprida, porque ele não fatura nada e custa igual. A estrutura foi paga uma vez, ela se desgasta, ela consome energia e horas, e nada disso chega sozinho a um lançamento como chega a nota do armazém.

Decidir se aquela estrutura deve existir é outra página, e é um plano de investimentos escrito que transforma a condição de construí-la em número que alguém consegue conferir. O que cabe aqui é mais estreito e mais seco: se depreciação, energia, mão de obra ou frete não entraram no seu número, escreva o nome de cada um embaixo dele, para que a próxima pessoa a ler a folha saiba o que falta em vez de adivinhar.

O que o número muda, depois que ele existe

Três coisas, e nenhuma delas é a decisão de guardar ou de vender. As três vivem no eixo Comercialização, e as três erram do mesmo jeito quando o custo de guardar não está nelas. O valor por unidade e por mês sobe o preço que a fazenda pode aceitar, porque cada mês guardado acrescenta linhas ao piso, e o preço de equilíbrio de um lote segurado por seis meses não é o de um lote vendido na colheita. Ele dá à comparação alguma coisa contra o que comparar.

Quanto o mercado paga para receber depois é a distância entre duas cotações lidas do mesmo jeito no mesmo dia, que é a disciplina imposta por uma série de preços anotada, com cabeçalho que nomeia uma fonte, um dia da semana e uma hora. Essa distância cobre as linhas que continuam correndo ou não cobre. E ele entra na conciliação do ciclo como linha própria, porque a venda executada contra o plano com o custo de guardar de fora produz um preço médio ponderado que favorece todo lote que esperou.

Segurar produto é uma posição, e é a posição que mais fazenda toma sem escrever nada. O canal e o gatilho de cada parcela ficam em um plano de comercialização escrito antes da primeira venda, e segurar um lote além da data que o plano nomeou é decisão que merece o mesmo tratamento: uma data, um valor e o nome de quem pode reabrir aquilo.

Janzen registra por que o número tem de sair do registro da fazenda e não da tela, já que as fazendas conseguem vender a termo para entrega em quase qualquer data futura, e o preço recebido não é necessariamente a cotação à vista do dia em que a entrega acontece. A cotação da tela não é o que alguém recebeu.

Por onde começar

Duas a três horas na primeira vez, com a conta de energia, o extrato do financiamento e o romaneio na mesa. Nada aqui precisa de armazém, de corretora nem de projeção de preço.

O número muda o assunto da conversa no telefone. A fazenda que sabe que mais um mês custa tantos reais por tonelada para de perguntar se o preço está bom e passa a perguntar se a proposta de entrega futura cobre aquele valor, que é pergunta com resposta. A outra nunca teve, e é por isso que a mesma conversa se repete todo ciclo, com o mesmo lote e um preço diferente.

Procedência

Deriva de
  1. Janzen, J., Post-Harvest Grain Marketing: Comparing Observed Prices and Marketing Outcomes, farmdoc daily (14):9, Department of Agricultural and Consumer Economics, University of Illinois at Urbana-Champaign, 12 de janeiro de 2024
  2. Gardner, G., Interest Rates and Grain Storage, Economic and Policy Update (23):8, Department of Agricultural Economics, University of Kentucky, 29 de agosto de 2023
  3. Conab, Tabela de Tarifas para Unidades Armazenadoras de Ambiente Natural da Conab, aprovada na Resolução nº 1.609 da Diretoria Executiva em 11/04/2023, vigência a partir de 15/06/2023
  4. USDA Agricultural Marketing Service, USDA Announces Storage and Handling Rate Policy Changes under the Uniform Grain and Rice Storage Agreement, 3 de março de 2023 (Estados Unidos)
  5. Resolución 1075/1994, Secretaría de Agricultura, Ganadería y Pesca, Normas de Calidad, Muestreo y Metodología para los granos y subproductos, 12/12/1994 (Argentina)
  6. Kumar, D. e Kalita, P., Reducing Postharvest Losses during Storage of Grain Crops to Strengthen Food Security in Developing Countries, Foods 6(1):8, 2017
  7. Santos, A. K. et al., Nível de dano econômico de Sitophilus zeamais (M.) em trigo armazenado, Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental 6(2), 2002
  8. Lorini, I., Perdas anuais em grãos armazenados chegam a 10% da produção nacional, Visão Agrícola nº 13, ESALQ/USP, jul-dez 2015, p. 127
O que este artigo cobre
Apurar o custo de guardar um lote, por unidade e por mês, separando as linhas cobradas uma vez na entrada e na saída das linhas que correm com o calendário, escrever as linhas que ficaram de fora da conta, e manter o registro do lote com data, quantidade, umidade e classificação na entrada e na saída.
O que ele não cobre
Não ensina ninguém a conservar produto guardado. Aeração, secagem, controle de praga, umidade e escolha de estrutura são competência de quem lê e do agrônomo dele, e a Rurivia não entra ali. Não recomenda guardar nem vender, não diz por quanto tempo esperar e não avalia investimento em armazenagem.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Quanto custa mais um mês de produto guardado, linha a linha? [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/custo-de-guardar-a-producao/. Acesso em:


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