Por unidade e por mês, e quase toda a conta já está dentro de papel que a fazenda paga. O custo de guardar não é um número. É uma pilha de linhas, umas faturadas por um armazém e outras pagas sem que fatura nenhuma seja emitida, e a única versão dele que resolve uma decisão é a apurada para um lote nomeado ao longo de um número nomeado de meses.
O lote fica parado porque o preço não agradou, e a decisão de esperar é tomada como se esperar fosse de graça. O dinheiro que não entrou está pagando juro em algum lugar. Peso sai. A classificação na saída não é a mesma da entrada.
Energia e mão de obra entram para manter aquilo onde está. Nenhuma dessas linhas está somada em lugar nenhum, então a comparação que decidiria a coisa, quanto o mercado paga a mais para receber depois contra quanto custa chegar lá, nunca é feita. Quando o lote finalmente sai, ninguém consegue dizer se a espera se pagou, porque o custo dela nunca foi apurado e o registro do que entrou e do que saiu não existe ou está pela metade.
Mais um mês é a pergunta do título, e ela não é o período inteiro dividido pelo número de meses. Umas linhas são cobradas uma vez quando o lote entra e uma vez quando ele sai. Outras correm com o calendário, e o custo de armazenagem aumenta quanto mais tempo o grão fica guardado. Divida tudo pelos meses e o resultado cai à medida que a espera se estica, que é a aritmética avisando a fazenda de que a paciência fica mais barata quanto mais dela a fazenda compra.
Por que o retorno de guardar que citam por aí é medido antes do custo de guardar
Bruto, e o autor que publicou o número diz isso no mesmo texto. Janzen, trabalhando com cerca de 16.000 observações de fazenda-ano de propriedades de grão de Illinois entre 2003 e 2020, mede o retorno bruto da comercialização pós-colheita como a diferença percentual entre a venda adiada e a venda próxima da colheita, e relata que as fazendas obtêm, em média, retorno bruto mais ou menos igual à alta sazonal de preço depois da colheita, enquanto a faixa de ganhos possíveis na comercialização é larga, e as fazendas com frequência realizam retornos brutos negativos.
Em seguida ele tira o chão do próprio achado: esta análise ignora os custos de armazenagem inerentes à comercialização pós-colheita, que são expressivos diante dos retornos observados, de modo que o retorno líquido da comercialização pós-colheita tem de ser menor que o retorno bruto.
Aquelas fazendas escrituram com uma associação estadual de gestão rural por escolha própria, o que descreve quem escritura e não toda fazenda do estado, e a dispersão não é a mesma todo ano: em outros anos a amplitude da distribuição é bem larga. O que sobrevive a tudo isso é o formato da coisa. A média que qualquer um cita para quem segura produto é o número antes da subtração, a subtração é o assunto desta página, e o mesmo registro mostra muita fazenda terminando do lado errado dela.
A linha que dá para apurar hoje, com um preço e uma taxa
O juro do dinheiro que não entrou, e ele sai de uma multiplicação. Gardner, escrevendo para o Departamento de Economia Agrícola da University of Kentucky em 2023, dá a conta sem rodeio: o custo de juro do capital de giro por unidade se obtém multiplicando o preço de colheita pela taxa de juro e dividindo por 12 o número de meses em que o produto fica armazenado. O exemplo dele segura milho por cinco meses a um preço de colheita de US$ 5,00 por bushel, que é a unidade americana de 56 libras, cerca de 25,4 quilos. A 4% ao ano a linha dá US$ 0,08 por bushel. A 10% ela dá US$ 0,21.
Leia esses dois valores como fração do que está parado ali e eles atravessam qualquer moeda: cerca de 1,6% e cerca de 4,2% do valor de colheita, pelos mesmos cinco meses, divisão nossa sobre os números publicados por ele. Duas coisas mexem nessa linha e nenhuma delas é o armazém. Ela cresce a cada mês em que o lote continua onde está, e os custos aumentam à medida que o preço da mercadoria aumenta.
Quem paga à vista em vez de tomar capital de giro não escapa da linha, muda o que ela vale, e Gardner nomeia isso quando registra que o efeito da taxa alta poderia ser atenuado ou interrompido quitando o financiamento antes ou usando reserva de caixa em vez de empréstimo.
Cada uma dessas linhas já tem preço em tabela publicada
Publicada, item a item, e cobrada em separado, que é a prova de que são linhas de verdade e não exercício de contabilidade. A tabela de tarifas da rede armazenadora da Conab, aprovada na Resolução nº 1.609 de 11/04/2023 e em vigor desde 15/06/2023, cobra cada uma por conta própria, e o primeiro item dela já nomeia a unidade da cobrança, armazenamento e/ou reserva de espaço, medido por quinzena civil infracionada. Não é jeito brasileiro de cobrar.
Nos Estados Unidos o Departamento de Agricultura aponta para o mesmo documento pelo nome quando diz que a Commodity Credit Corporation vai aceitar as tarifas de armazenagem e de movimentação constantes da tarifa pública ou do demonstrativo de encargos do operador do armazém, as mesmas cobradas dos clientes comerciais dele, e fixa um teto para quando não houver tarifa publicada, limitando a movimentação ao máximo de 12 centavos de dólar por bushel, tanto na recepção quanto na expedição.
A tabela da Conab, lida como lista de linhas e não como lista de preços, é o modelo da folha. Os valores abaixo são os daquela tabela e daquela data.
| Linha da tabela publicada | Como é cobrada |
|---|---|
| Armazenamento ou reserva de espaço, granel, demais produtos agrícolas | R$ 3,31 por tonelada, a cada quinzena |
| Armazenamento ou reserva de espaço, granel, arroz, cevada e malte | R$ 4,30 por tonelada, a cada quinzena |
| Seguro, sobre todo produto que não paga sobretaxa | 0,02432%, a cada quinzena |
| Sobretaxa, sobre arroz, milho, feijão, sorgo, soja, trigo, cevada, centeio e triticale | 0,15%, a cada quinzena |
| Recepção, granel | R$ 2,69 por tonelada, na operação |
| Expedição, granel | R$ 3,36 por tonelada, na operação |
| Secagem, até 16% de umidade | R$ 11,76 por tonelada a gás natural, R$ 16,45 com outros |
| Limpeza ou pré-limpeza, até 5,00% de impureza | R$ 3,59 por tonelada, na operação |
| Taxa mínima de armazenagem | R$ 10,00 por quinzena, qualquer que seja a tonelagem |
Quais linhas correm com o calendário e quais param na porteira
Cinco dessas nove linhas têm quinzena dentro e quatro não têm, e essa divisão é a resposta inteira da pergunta do título. Recepção, expedição, secagem e limpeza são cobradas uma vez, na operação. Armazenamento, seguro, sobretaxa e taxa mínima voltam a ser cobrados a cada quinzena em que o lote continua ali. Mais um mês de espera compra duas quinzenas a mais do segundo grupo e nada do primeiro, então o custo de mais um mês é montado só com as linhas que continuam correndo.
Na tabela da Conab isso é R$ 3,31 por tonelada por quinzena para o granel de demais produtos agrícolas, que na unidade da própria tabela dá R$ 6,62 por tonelada por mês, mais 0,15% por quinzena de sobretaxa nos grãos listados, que dá 0,30% por mês. As duas duplicações são nossas, e dobrar a quinzena é a única coisa feita sobre a tabela publicada.
A taxa mínima é a linha que se recusa a obedecer. A observação da própria tabela manda para cobrança de armazenagem considerar o valor de R$ 10,00 (dez reais)/quinzena, e mínimo é mínimo qualquer que seja a tonelagem, então ela pousa num lote pequeno a um valor por tonelada que tabela nenhuma mostra. É por isso que o número se apura para o lote que está parado de fato, e não se lê de uma média. Onde não há folga para errar em algumas unidades, a aritmética precisa ficar mais apertada, e não mais frouxa.
A perda que é fácil de precificar e a que não é
Duas perdas, e elas se comportam de jeito diferente na conta. Kumar e Kalita, revisando armazenagem pós-colheita para o periódico Foods em 2017, separam as duas: as perdas de armazenagem podem ser classificadas em duas categorias, as diretas, pela perda física da mercadoria, e as indiretas, pela perda de qualidade e de valor nutricional, e a segunda também termina em dinheiro, já que a perda de qualidade resulta em perda de valor do produto e às vezes leva à rejeição total. A primeira é um peso, e um ticket de balança em cada ponta resolve. A segunda é uma classificação, e nada resolve a não ser o que o comprador pagou.
A distância entre as duas está medida, e é a razão de o registro ter coluna de classificação e não só coluna de quantidade. Santos e colegas, calculando um nível de dano econômico para trigo armazenado na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental em 2002, põem o custo de controle e o valor comercial do produto dos dois lados da mesma equação, e tiveram de fixar esse valor comercial duas vezes, uma para o trigo importado e outra para o nacional, porque dano físico idêntico em dois trigos que valem dinheiro diferente não é a mesma perda.
A ressalva dos próprios autores é a parte que atravessa: a quantificação da perda de qualidade e sua associação a um valor monetário, é mais difícil que os cálculos para a perda de peso. Conservar produto guardado não é assunto desta página e nunca vai ser, e é competência de quem lê e do agrônomo dele.
Por que 10% é número de país e nunca do seu lote
Estimativa nacional descreve um país, e comprador nenhum já pagou ninguém contra uma. Lorini, escrevendo para a ESALQ da Universidade de São Paulo em 2015, relata que as perdas médias de grãos, no país, estimadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e pela Food and Agriculture Organization (FAO/ONU), chegam a, aproximadamente, 10% do total produzido anualmente, e na mesma passagem nomeia a perda que não é peso nenhum: as perdas qualitativas, que comprometem o uso de todos os grãos produzidos ou os classificam para outro uso de menor valor agregado.
Dez por cento é estimativa de duas instituições sobre um país inteiro num ano inteiro, e é exatamente por isso que ela não pode ser a linha de perda de folha nenhuma. Kumar e Kalita esbarram no mesmo muro pelo lado da pesquisa, ao relatar que a disponibilidade de dados consistentes e confiáveis de perda pós-colheita ainda é um desafio. O número que vai na linha é o peso que entrou menos o peso que saiu, no romaneio da própria fazenda, para o lote em questão. Todo o resto é média de outra pessoa sendo chamada para um serviço que ela não faz.
O registro que torna o número conferível nas duas pontas
Data, quantidade, umidade e classificação, duas vezes, e a segunda vez é a que some. A razão da segunda leitura é que o estado comercial de um lote se mexe enquanto ele fica parado. Lorini traz a versão mais dura disso, no trigo, em que o produto é desclassificado para comercialização se for encontrado um inseto vivo no lote. Lote que entrou vendável e saiu desclassificado mudou enquanto ninguém escrevia nada.
A classificação não é opinião em mercado nenhum destes, e é isso que a torna registrável. Na Argentina, a Resolución 1075/1994 aprovou as normas de qualidade dos grãos e declarou que as normas aprovadas são de caráter obrigatório, salvo se as partes acordarem expressamente especificações diferentes, e põe preço na classificação sem intermediário: na cevada cervejeira, a entrega de Grau 1 recebe bonificação de 1% sobre a cotação oficial, com rebaixa de 1,50% se for entregue Grau 3.
A umidade acima da base de umidade que a norma fixa é precificada do mesmo jeito, por merma percentual de peso conforme a tabela vigente, com a tarifa de secagem acordada ou fixada a ser paga. Duas jurisdições, dois documentos, as mesmas três colunas. Escrevê-las nas duas pontas é o passo de verificação da gestão de fazendas, e a única razão de ele parecer opcional é que ninguém é cobrado por pulá-lo.
A lista do que ficou de fora vai na mesma folha
Embaixo do número, nomeada uma a uma, porque folha de custo sem limite declarado é lida como se fosse completa. Gardner faz isso na própria publicação, com a mesma nota debaixo de cada gráfico: os custos não consideram custos físicos de armazenagem, como depreciação do silo, transporte, secagem etc. O número dele é uma linha da pilha, e ele diz qual, que é o que permite a qualquer um usar aquilo sem ser enganado por aquilo.
O silo próprio é onde a lista do que falta fica mais comprida, porque ele não fatura nada e custa igual. A estrutura foi paga uma vez, ela se desgasta, ela consome energia e horas, e nada disso chega sozinho a um lançamento como chega a nota do armazém.
Decidir se aquela estrutura deve existir é outra página, e é um plano de investimentos escrito que transforma a condição de construí-la em número que alguém consegue conferir. O que cabe aqui é mais estreito e mais seco: se depreciação, energia, mão de obra ou frete não entraram no seu número, escreva o nome de cada um embaixo dele, para que a próxima pessoa a ler a folha saiba o que falta em vez de adivinhar.
O que o número muda, depois que ele existe
Três coisas, e nenhuma delas é a decisão de guardar ou de vender. As três vivem no eixo Comercialização, e as três erram do mesmo jeito quando o custo de guardar não está nelas. O valor por unidade e por mês sobe o preço que a fazenda pode aceitar, porque cada mês guardado acrescenta linhas ao piso, e o preço de equilíbrio de um lote segurado por seis meses não é o de um lote vendido na colheita. Ele dá à comparação alguma coisa contra o que comparar.
Quanto o mercado paga para receber depois é a distância entre duas cotações lidas do mesmo jeito no mesmo dia, que é a disciplina imposta por uma série de preços anotada, com cabeçalho que nomeia uma fonte, um dia da semana e uma hora. Essa distância cobre as linhas que continuam correndo ou não cobre. E ele entra na conciliação do ciclo como linha própria, porque a venda executada contra o plano com o custo de guardar de fora produz um preço médio ponderado que favorece todo lote que esperou.
Segurar produto é uma posição, e é a posição que mais fazenda toma sem escrever nada. O canal e o gatilho de cada parcela ficam em um plano de comercialização escrito antes da primeira venda, e segurar um lote além da data que o plano nomeou é decisão que merece o mesmo tratamento: uma data, um valor e o nome de quem pode reabrir aquilo.
Janzen registra por que o número tem de sair do registro da fazenda e não da tela, já que as fazendas conseguem vender a termo para entrega em quase qualquer data futura, e o preço recebido não é necessariamente a cotação à vista do dia em que a entrega acontece. A cotação da tela não é o que alguém recebeu.
Por onde começar
Duas a três horas na primeira vez, com a conta de energia, o extrato do financiamento e o romaneio na mesa. Nada aqui precisa de armazém, de corretora nem de projeção de preço.
O número muda o assunto da conversa no telefone. A fazenda que sabe que mais um mês custa tantos reais por tonelada para de perguntar se o preço está bom e passa a perguntar se a proposta de entrega futura cobre aquele valor, que é pergunta com resposta. A outra nunca teve, e é por isso que a mesma conversa se repete todo ciclo, com o mesmo lote e um preço diferente.