Um ciclo aguenta um ano ruim quando a receita ainda paga o custo depois de preço e colheita caírem tanto quanto já caíram na sua fazenda. Antes de plantar, escreva três distâncias em porcentagem: quanto o preço pode cair, quanto a colheita (sacas por hectare) pode cair e quanto os dois podem cair no mesmo ano. Numa fazenda de soja de 1.500 hectares no oeste da Bahia (valores de exemplo, calculados abaixo), o preço pode cair 15%, a colheita 16,4% e os dois juntos só 8,2%. Um ano ruim comum ali, com o preço 12% e a produtividade 10% abaixo da média, deixa a fazenda R$ 536.400 abaixo do custo.
Escreva primeiro a distância dos dois juntos e, ao lado, o preço em que você age.
Quanto preço e colheita podem cair antes de a margem acabar?
A margem é a receita que você espera menos o custo do ciclo. Na fazenda da Bahia, R$ 10.800.000 menos R$ 9.180.000 deixam R$ 1.620.000, ou 15% da receita. Cada uma das três distâncias é uma folga: quanto algo pode cair até a receita apenas pagar o custo, o ponto chamado de equilíbrio.
A folga de preço é a margem dividida pela receita, 15%. Com o preço 15% menor, R$ 102 a saca em vez de R$ 120, a receita cai para R$ 9.180.000 e iguala o custo. Esse é o preço de equilíbrio.
A folga de colheita é maior, 16,4%, porque uma colheita menor também custa menos para ser levada até o comprador. Dos R$ 9.180.000 de custo, R$ 900.000 são pagos por saca, em frete, secagem e armazenagem (R$ 10 por saca). Essa parte encolhe com a colheita. Os outros R$ 8.280.000 já foram gastos, venha o que vier da lavoura.
A folga dos dois juntos é a menor, 8,2%. A receita é preço vezes colheita: quando os dois caem na mesma proporção, ela cai quase o dobro dessa proporção, enquanto os R$ 8.280.000 ficam inteiros. O ano ruim pode trazer os dois.
A calculadora de resiliência a choque acha as três folgas a partir da sua receita e do seu custo.
Quais custos encolhem com uma colheita menor?
Essa decisão é linha a linha, e a divisão de custo fixo e variável do contador não responde a ela. Semente, adubo e defensivos são variáveis em qualquer livro, mas são pagos antes de alguém saber que a safra falhou, e uma colheita curta não devolve nada deles. Nesta conta, ficam entre os custos que permanecem.
A pergunta de cada linha é se você a paga por unidade que sai da fazenda. Passe pelas contas pagas do ciclo passado e coloque cada linha de um lado.
- Encolhe com a colheita: frete até o armazém, secagem e limpeza cobradas por carga, armazenagem paga por saca guardada e colheita terceirizada paga por saca.
- Já gasto: semente, adubo, defensivos, diesel gasto antes da colheita, arrendamento, depreciação das máquinas, salários, seguro, juros do custeio e colheita terceirizada paga por hectare.
Duas linhas pedem uma decisão. A colheita terceirizada depende do contrato, não do serviço: paga por hectare, já foi gasta; paga por saca, encolhe. A colhedora própria é a segunda. Em lavoura rala ela gasta menos diesel, mas não proporcionalmente menos, porque passa pela lavoura inteira. Coloque no lado que encolhe a parte que acompanha a saca, deixe o resto e anote como decidiu.
Errar a divisão custa mais num sentido. Deixe em branco a linha ligada à colheita e a calculadora trata todo o custo como já gasto. A folga de colheita volta a 15%, igual à de preço, e a folga fica subestimada. Declare os R$ 9.180.000 inteiros como custo que encolhe e a calculadora diz que a colheita pode cair a zero e ainda empatar. Nessa conta, uma lavoura que não existe não custa nada para ser colhida. O resultado está certo dentro da fórmula e é absurdo na fazenda.
Um orçamento da lavoura feito com a produtividade esperada, como o de quanto esse ciclo deve deixar, trata o custo de colheita como fixo. Isso serve para a pergunta de quanto o ciclo deve render. Usado nesta pergunta, dá a mesma folga ao preço e à colheita, então mantenha as duas folgas separadas.
Essa folga cabe num ano ruim comum?
Uma folga diz pouco até ficar ao lado da variação típica da fazenda: o quanto o preço ou a produtividade (sacas por hectare) de um ano comum se afasta da média, em porcentagem. Ela sai dos números anuais da própria fazenda, como o desvio padrão dividido pela média, e a calculadora faz a divisão a partir de uma lista de anos. Os oito anos de registro da fazenda do exemplo dão 12% para o preço e 10% para a produtividade.
O índice de resiliência da calculadora pergunta quantas dessas variações cabem na folga dos dois juntos. Se preço e produtividade caem no mesmo ano, cada um na mesma fração da sua própria variação, qual o tamanho máximo dessa fração antes de a margem acabar? Aqui é 0,74. Um preço 8,9% menor e uma colheita 7,4% menor ao mesmo tempo consomem os R$ 1.620.000, e cada queda é menor que uma variação.
Abaixo de um, um ano com uma variação comum em cada um leva a margem. De um a dois, leva mais de uma variação em cada, o que o seu registro talvez já mostre. Acima de dois, leva mais de duas variações em cada.
O índice mede distância, não chance. Transformar 0,74 de uma variação em chance de prejuízo exigiria uma suposição sobre como preços e produtividades se distribuem, e a calculadora não faz nenhuma. A FAO traça a mesma linha para projetos de investimento: duas dimensões devem ser consideradas, a sensibilidade e a probabilidade. O ponto em que o resultado chega a zero, que a FAO chama de switching value, responde só à primeira.
Ao lado do índice, conte. Passe pelos seus anos e marque aqueles em que preço e produtividade terminaram os dois abaixo da média em pelo menos a folga dos dois juntos, 8,2% na fazenda do exemplo. A contagem não supõe nada sobre chance, mas oito anos são uma lista curta, e um zero pode querer dizer só que a lista é curta.
Tire a variação do seu registro, não da memória. Um estudo brasileiro perguntou a 90 produtores rurais de milho sobre suas expectativas de preço, e em todos os casos, os desvios padrão obtidos a partir dos questionários foram inferiores aos históricos. Foi uma cultura num país, e o sentido é motivo para abrir o registro. Uma variação estreita muda a leitura. Digite 9% para o preço e 7% para a produtividade, em vez de 12% e 10%, e o índice sobe de 0,74 para 1,02, sem que nada tenha mudado na fazenda.
Oito anos também é um registro curto. Zampieri e colegas criaram um indicador publicado de quão estável é a produção agrícola. Eles relatam que a incerteza fica abaixo de 30% só com pelo menos 30 anos de dados. Séries mais curtas e oscilações anuais maiores dão erros maiores. Oito anos dão uma medida grosseira, bem melhor que nenhuma.
Uma quebra de safra na minha região sobe o preço que eu recebo?
A quebra só na sua lavoura, não. Um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos observa que preço e produtividade numa fazenda não precisam estar relacionados. A razão é que a produção de uma fazenda não afeta de forma notável os preços de mercado. O relatório chama de proteção natural a compensação em que uma produtividade baixa chega com um preço mais alto.
Para o milho, fora das grandes regiões produtoras, diz o relatório, a proteção natural é muito mais fraca, e produtividade baixa e preço baixo têm mais chance de chegar juntos. Ele mostra também que a variabilidade da produtividade é maior na fazenda do que no estado ou no país, então use a produtividade da sua fazenda, não a do município.
Você pode conferir qual é o seu caso. Alinhe seus anos e olhe as piores colheitas. Se o preço ficou acima da média nesses anos, a compensação funciona a seu favor; se o preço também ficou baixo, não funciona. Na fazenda do exemplo, as duas piores colheitas foram de 52 e 54 sacas por hectare, contra a média de 60. Os preços foram R$ 131 e R$ 126 a saca, contra a média de R$ 120. Nesses dois anos a compensação funcionou, e o índice real fica acima do calculado. Dois anos são pouco para contar com ela, então mantenha 0,74 como a leitura prudente.
Por qual conta começo, e o que ela decide?
As contas pagas do ciclo passado, o registro de preços e o registro de produtividade bastam para uma primeira página. A página termina numa decisão com duas alavancas. Você pode ampliar a folga, com uma margem maior vinda de custo menor, produtividade maior ou preço melhor. Ou pode estreitar a variação, com contrato a termo, seguro agrícola ou datas de plantio escalonadas. As alavancas puxam em sentidos contrários, porque toda proteção é paga com a margem, e a margem é a folga.
Abaixo de um, decida antes de plantar e dê um preço a cada alavanca. Na fazenda do exemplo, baixar o custo de R$ 9.180.000 para R$ 8.600.000 leva o índice a 1,02. Travar o preço de parte da safra também custa, e a calculadora de preço e hedge dá o número. Uma leitura frágil sem mudança em nenhuma alavanca significa que a fazenda carrega o risco; escreva isso como decisão, com um nome ao lado.
Escreva o gatilho a partir da folga dos dois juntos, não da folga de preço. Na fazenda do exemplo, isso quer dizer agir quando o preço cair 8,2% abaixo dos R$ 120 esperados, perto de R$ 110 a saca. Esperar pelos R$ 102 supõe que a colheita saia como planejada. Escreva o preço, a ação e o nome de quem age.
Confira também o preço por trás da receita. Um preço esperado 10% acima da sua média já gastou quase nove pontos da folga de 15% do preço, porque a média está 9,1% abaixo dele. A folga acompanha a margem, então um aumento de custo pode deixar apertado um ciclo folgado. Date a página e escreva o que faria você refazê-la.
Quais riscos merecem atenção primeiro ordena os riscos da fazenda; a folga dos dois juntos dá um número ao ano em que dois deles chegam juntos. Mais sobre medir a exposição da fazenda está em sustentabilidade e risco, e gestão de fazendas mostra onde uma leitura como esta se encaixa na gestão da fazenda inteira.