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De onde vem o carbono da sua fazenda?

Quando o comprador, a cooperativa ou o banco pedir o número de carbono da fazenda, faça a conta atividade por atividade. Rebanho, lavoura e floresta têm cada um as suas emissões, e a floresta em crescimento desconta carbono do total.

Publicado em Atualizado em 16 min
Neste artigo

Um rebanho de 400 cabeças de gado de corte a pasto emite cerca de 736 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) por ano, e todo o diesel queimado na mesma fazenda soma 38. CO₂e é a quantidade de dióxido de carbono que reteria o mesmo calor que os gases que a fazenda solta. Quando um comprador, uma cooperativa ou um banco pedir o número de carbono da sua fazenda, faça a conta uma atividade de cada vez: rebanho, lavoura e floresta plantada. A conta mostra por onde começar. Cortar um décimo do diesel poupa 3,8 toneladas de CO₂e por ano, enquanto cortar um décimo do metano da digestão do rebanho poupa 56. Lance na calculadora de pegada de carbono as cabeças, os quilos de nitrogênio, os litros de diesel e os hectares, e leia primeiro a maior fonte.

Os números vêm de uma fazenda de exemplo construída para este artigo e colocada em Dourados (MS). Nada ali é dado de Dourados: o rebanho, a lavoura e as áreas são inventados, e os fatores são os do IPCC. A fazenda tem 400 cabeças de gado de corte em 600 hectares de pasto e produz 120 toneladas de peso vivo por ano. Planta grão em 400 hectares, aplica 5.000 quilos de nitrogênio e colhe 1.200 toneladas. Tem 5 hectares de eucalipto. O gado gasta 6.000 litros de diesel por ano, a lavoura 8.000 e a floresta 300.

A estimativa usa o método Tier 1 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), o mais simples dos três níveis dele. O Tier 1 multiplica o que a fazenda já conta (cabeças de gado, quilos de nitrogênio, litros de diesel, hectares de floresta) por fatores padrão publicados, e por isso nada é medido no campo. Uma floresta em crescimento retira carbono do ar, e por isso é descontada do total.

A pecuária emite cerca de 736 toneladas de CO₂e por ano, a lavoura cerca de 45 e o combustível da floresta menos de uma. Os 5 hectares de eucalipto retiram cerca de 214. No saldo, a fazenda emite por volta de 568 toneladas, e a floresta compensa 27 por cento do que o resto emite.

Como separar a fazenda por atividade?

Lance cada fonte de emissão na atividade que a causou. O metano da digestão e do esterco do rebanho vai para a pecuária. O óxido nitroso do adubo de uma lavoura vai para essa lavoura, e o dióxido de carbono do combustível vai para a atividade que o queimou. Dois insumos são divididos, e quem divide é você. Um é o diesel, porque o mesmo combustível move o trator da lavoura e o caminhão do gado. O outro é o nitrogênio, se você aduba o pasto e a lavoura.

A divisão importa para a intensidade de cada produto, isto é, a emissão por quilo de carne ou por tonelada de grão. Esse número deve carregar só o que a própria atividade causou, e dividir o total da fazenda inteira por um só produto o deixaria maior do que é. No exemplo, a pecuária chega a 1,23 tonelada de CO₂e por hectare de pasto e a 6,14 quilos por quilo de peso vivo. A lavoura chega a 0,11 tonelada por hectare e a 37,4 quilos por tonelada de grão.

a fazenda do exemplo, emissões e remoções de cada atividade em toneladas de CO₂e por ano
Atividade O que entra CO₂e
Pecuária 400 cabeças de corte, 6.000 L de diesel, 600 ha emite 736 t
Lavoura 5.000 kg de N, 8.000 L de diesel, 400 ha emite 45 t
Floresta 5 ha de eucalipto, 300 L de diesel retira 214 t, emite menos de 1 t
Fazenda emissões 781,9 t, remoções 213,7 t saldo de 568,2 t emitidas
Figura: Emissões e remoções da fazenda do exemplo por atividade, em toneladas de CO₂e por ano. Os mesmos números da tabela acima
A pecuária emite a maior parte do carbono da fazenda do exemplo, e a floresta devolve um quartoToneladas de CO₂e por ano na fazenda do exemplo. A pecuária emite 736, a lavoura 45 e o combustível da floresta 0,8. Os 5 hectares de eucalipto retiram 214. O saldo da fazenda é de 568,2 toneladas emitidas.Toneladas de CO₂e por anoPecuária emite736 tLavoura emite45 tCombustível da floresta emite0,8 tEucalipto retira214 tSaldo: 568,2 t emitidas

Separe o diesel e o nitrogênio de cada atividade antes de abrir a calculadora.

Por que a digestão do rebanho pesa mais que o trator?

Porque um animal a pasto libera dezenas de quilos de metano por ano ao digerir o capim. O metano retém vinte e cinco vezes mais calor que o dióxido de carbono ao longo de um século, o fator de conversão do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC. O IPCC chama esse metano da digestão de fermentação entérica. A tabela dele traz um valor padrão para cada região do mundo. O da América Latina, onde fica o Brasil, é de 56 quilos de metano por ano para um bovino de corte, o que a calculadora usa. Isso dá 1,4 tonelada de CO₂e por cabeça antes de contar qualquer outra coisa.

O nitrogênio da urina e do esterco do animal soma mais uns 375 quilos de CO₂e (a conta está na seção seguinte). Com o metano do esterco e o diesel, cada cabeça fica com 1,84 tonelada. O exemplo também conta o rebanho no pasto os doze meses. Se o rebanho passa meses em confinamento, a conta muda, e por isso o roteiro do fim pede esses meses.

Figura: Emissões por cabeça de gado de corte no exemplo, em toneladas de CO₂e por ano, por fonte
O metano da digestão é quase tudo o que um animal emiteToneladas de CO₂e por cabeça por ano no exemplo. Metano da digestão 1,40, nitrogênio da urina e do esterco 0,375, diesel 0,040 e metano do esterco 0,025. O total é de 1,84 tonelada por cabeça.Toneladas de CO₂e por cabeça por anoMetano da digestão1,40 tNitrogênio da urina e do esterco0,375 tDiesel0,040 tMetano do esterco0,025 tTotal: 1,84 t por cabeça

O 25 do metano, e o 298 do óxido nitroso do nitrogênio do adubo, são os fatores do Quarto Relatório de Avaliação usados aqui e na calculadora. O padrão corporativo do GHG Protocol diz que as empresas deveriam usar os valores do Relatório de Avaliação mais recente, podem escolher outro relatório e devem informar qual usaram. O mais recente é o sexto. A Tabela 7.15 dele traz 27,0 para o metano de fonte não fóssil e 273 para o óxido nitroso. Com esses fatores, a fazenda do exemplo emite 812,9 toneladas e fica com saldo de 599,2, cerca de 5,5 por cento acima das 568,2 do Quarto Relatório. Escreva ao lado do número qual relatório você usou.

Os estudos publicados apontam para o mesmo lado. A equipe da Unesp, em pesquisa no Brasil, encontrou o metano da digestão em 87 por cento das emissões totais do gado de corte em pasto degradado. Ele ainda era 61 por cento no pasto manejado e 51 por cento na integração lavoura-pecuária-floresta. Modernel e colegas compararam sistemas de terminação no Uruguai e encontraram a digestão acima de 46 por cento das emissões em todos os casos, e em 68 por cento no campo nativo. No exemplo, o diesel é 5 por cento das emissões da fazenda.

Quanto somam o nitrogênio e o diesel?

Perto de 4,68 quilos de CO₂e por quilo de nitrogênio aplicado, lançados na atividade que o recebeu. O valor padrão do IPCC é que um por cento do nitrogênio aplicado sai como óxido nitroso. Convertido para o peso do gás e multiplicado por 298, isso dá os 4,68. Conte o nitrogênio, não o adubo: cem quilos de ureia com 46 por cento de nitrogênio são 46 quilos de nitrogênio. Os 5.000 quilos da lavoura do exemplo somam 23 toneladas.

Na fazenda de gado a pasto, o nitrogênio que mais pesa é o que ninguém aplica. É o que os animais deixam na urina e no esterco a cada dia no pasto. O IPCC o conta, no capítulo sobre solos manejados, como emissão do solo, com um fator de dois por cento do nitrogênio depositado, o dobro do fator do adubo. A taxa padrão de excreção do IPCC para um bovino de corte na América Latina é de 0,36 quilo de nitrogênio por 1.000 quilos de peso do animal por dia. Com o peso padrão de 305 quilos, isso dá cerca de 40 quilos por ano, e as 400 cabeças deixam 16 mil quilos no pasto. São 150 toneladas de CO₂e, 19 por cento das emissões da fazenda.

A estimativa deixa de fora o nitrogênio que escapa como gás amônia ou é levado pela água da chuva e vira óxido nitroso em outro lugar, porque essa parte é bem mais incerta. Deixa de fora também o dióxido de carbono que a ureia solta ao se decompor no solo. E não conta urina e esterco de porco. O IPCC fixa os mesmos dois por cento para o porco e para o gado, mas a estimativa não tem peso padrão de porco.

O diesel soma cerca de 2,68 quilos de CO₂e por litro e a gasolina 2,27, lançados na atividade que os queimou. Este gás é dióxido de carbono puro, então nenhum fator de aquecimento o multiplica. O IPCC publica os fatores padrão para a queima de diesel e gasolina por unidade de energia, e a calculadora os converte para litros. No exemplo, o diesel das três atividades soma 38 toneladas. Dividi-lo entre lavoura e pecuária deixa certo o número de cada atividade.

Figura: Emissões de urina e esterco, diesel e nitrogênio do adubo na fazenda do exemplo, em toneladas de CO₂e por ano
O nitrogênio que o gado deixa no pasto pesa mais que o adubo e o dieselToneladas de CO₂e por ano na fazenda do exemplo. Nitrogênio da urina e do esterco no pasto 150,1, diesel das três atividades 38,3, nitrogênio do adubo na lavoura 23,4. O nitrogênio do adubo soma 4,68 quilos de CO₂e por quilo, o diesel 2,68 por litro.Toneladas de CO₂e por anoUrina e esterco no pasto150 tDiesel, três atividades38 tNitrogênio do adubo, lavoura23 tAdubo: 4,68 kg por kg de nitrogênioDiesel: 2,68 kg por litro

Conte os quilos de nitrogênio de cada saco, não os quilos de adubo.

Quanto carbono uma floresta plantada retira do ar?

Cerca de 43 toneladas de CO₂e por hectare por ano no eucalipto, numa faixa larga de 13 a 85. No capítulo de florestas do IPCC, o crescimento padrão do eucalipto nas Américas é de cerca de 20 toneladas de matéria seca por hectare por ano, numa faixa de 6 a 40. A conversão multiplica as 20 por 1,24 para somar as raízes, por 0,47 para obter a parte de carbono da matéria seca e por 44/12 para transformar carbono em CO₂. Um hectare de pasto emite 1,23 tonelada no exemplo, então um hectare de eucalipto retira quase 35 vezes isso, e 5 hectares compensam 27 por cento da fazenda.

O eucalipto é o padrão da calculadora e a escolha do exemplo. Quem planta outra espécie precisa do fator do IPCC para a espécie e o clima dela, que a mesma tabela lista por tipo de floresta. A fazenda sem floresta plantada não tem remoção, e o saldo dela é igual às emissões: 781,9 toneladas no exemplo.

Figura: O que um hectare emite como pasto e o que um hectare retira como eucalipto no exemplo, em toneladas de CO₂e por ano
Um hectare de eucalipto retira quase 35 vezes o que um hectare de pasto emiteToneladas de CO₂e por hectare por ano no exemplo. O pasto emite 1,23. O eucalipto retira 42,7, numa faixa de 12,8 a 85,5.Toneladas de CO₂e por hectare por anoPasto emite1,23 tEucalipto retira42,7 tFaixa do eucalipto: 12,8 a 85,5 tQuase 35 vezes o pasto

O mesmo capítulo traz três ressalvas. O número conta só o crescimento, e a contabilidade do IPCC desconta a madeira colhida, então um talhão cortado deixa de retirar carbono e o devolve. No Tier 1 supõe-se que o carbono do solo da floresta não muda com o manejo, e por isso o solo não entra. E o valor padrão é uma média ampla, então o resultado dá a ordem de grandeza da floresta, não um número que alguém possa certificar.

Anote o mês em que cada talhão é cortado, porque a remoção dele acaba nesse dia.

O que anotar primeiro, e até onde vale o número?

Anote o combustível, os rótulos de adubo e os meses de pasto, porque só a fazenda sabe esses números. Na pecuária, o IPCC diz que os fatores estimados pelo Tier 1 dificilmente são conhecidos com precisão melhor que 30 por cento e podem ter incerteza de 50 por cento. A faixa da floresta é mais larga. O Tier 1 dá a ordem de grandeza e mostra quais fontes são maiores. Ele não substitui um inventário medido onde se exige certificado.

Um estudo de ciclo de vida completo traça uma fronteira mais larga. A equipe de Modernel contou herbicida, inseticida e fertilizante fabricados fora da fazenda, e o exemplo não conta nenhum deles. Os sistemas estudados foram de 16,7 quilos de CO₂e por quilo de peso vivo ganho no campo nativo a 6,9 na pastagem semeada com confinamento. A intensidade de uma atividade depende, portanto, tanto da produtividade quanto das emissões, e a comparação de um ano com o outro é a que vale.

Figura: Os seis passos da conta de carbono, dos primeiros registros ao relatório guardado
Os seis passos da conta de carbono da fazendaReúna os registros: anote o combustível de cada atividade, guarde um rótulo de cada adubo, anote os meses no pasto e o talhão a colher. Calcule: lance os números na calculadora. Entregue: escreva quem recebe o número e até quando, e depois date, assine e guarde o relatório.Reúna os registros1. Anote o combustível de cada atividade2. Guarde um rótulo de cada adubo3. Anote os meses no pasto e o corteCalcule4. Lance os números na calculadoraEntregue5. Escreva quem recebe e até quando6. Date, assine e guarde o relatório

Reserve uma hora com os comprovantes de combustível do ano, as faturas de adubo e os registros do rebanho. A calculadora aplica os mesmos fatores do IPCC atividade por atividade e gera um relatório para imprimir. Você informa o que só a fazenda sabe: o número de cabeças, a divisão do combustível e as áreas. Use a lista abaixo para o que a calculadora não pode saber e para o que você decide fazer com o número.

O número envelhece quando o rebanho, a lavoura ou a área plantada mudam, por isso deixe o ano ao lado dele. Comparar o número deste ano com o do ano passado é uma conferência de rotina da gestão de fazendas, e a seção de sustentabilidade da biblioteca trata dos outros registros ambientais da fazenda.

Ferramenta

A ferramenta faz a conta e deixa o juízo com você.

Você digita os seus números e o resultado atualiza sozinho. Nada do que você digita sai do seu aparelho.

Procedência

Deriva de
  1. Dong, Mangino, McAllister e outros, Emissions from Livestock and Manure Management, Capítulo 10, Diretrizes do IPCC de 2006 para inventários nacionais de gases de efeito estufa, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  2. De Klein, Novoa, Ogle e outros, N2O Emissions from Managed Soils, and CO2 Emissions from Lime and Urea Application, Capítulo 11, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  3. Aalde, Gonzalez, Gytarsky e outros, Forest Land, Capítulo 4, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  4. Garg, Kazunari e Pulles, Introduction, Capítulo 1, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 2 (Energia), Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  5. Forster, Ramaswamy, Artaxo e outros, Changes in Atmospheric Constituents and in Radiative Forcing, Capítulo 2, Mudança do Clima 2007: A Base Científica Física, Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, Grupo de Trabalho I, 2007
  6. GHG Protocol, Required Greenhouse Gases in Inventories, Accounting and Reporting Standard Amendment, World Resources Institute e World Business Council for Sustainable Development, fevereiro de 2013
  7. Forster, Storelvmo, Armour e outros, The Earth's Energy Budget, Climate Feedbacks, and Climate Sensitivity, Capítulo 7, Mudança do Clima 2021: A Base Científica Física, Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, Grupo de Trabalho I, 2021 (Tabela 7.15)
  8. de Figueiredo, Jayasundara, de Oliveira Bordonal e outros, Greenhouse gas balance and carbon footprint of beef cattle in three contrasting pasture-management systems in Brazil, Journal of Cleaner Production 142, 2017
  9. Modernel, Astigarraga e Picasso, Global versus local environmental impacts of grazing and confined beef production systems, Environmental Research Letters 8(3), 2013
O que este artigo cobre
Estimar as emissões anuais de gases de efeito estufa da fazenda em CO₂e com os fatores padrão do IPCC (o método Tier 1), atividade por atividade; calcular a emissão de cada atividade por hectare e por unidade de produto; descontar o carbono que uma floresta em crescimento retira para chegar ao total líquido; e anotar de qual relatório vêm os fatores de aquecimento do número.
O que ele não cobre
Medir as emissões no campo, fazer um estudo de ciclo de vida completo, certificar uma pegada ou um crédito de carbono, ou dizer como cortar uma fonte específica. Os fatores padrão dão uma ordem de grandeza, e reduzir emissões é assunto da agronomia da própria fazenda.
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Como citar este artigo

RURIVIA. De onde vem o carbono da sua fazenda? [S. l.], 31 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/sustentabilidade/de-onde-vem-o-carbono-da-fazenda/. Acesso em:


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