Um rebanho de 400 cabeças de gado de corte a pasto emite cerca de 736 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) por ano, e todo o diesel queimado na mesma fazenda soma 38. CO₂e é a quantidade de dióxido de carbono que reteria o mesmo calor que os gases que a fazenda solta. Quando um comprador, uma cooperativa ou um banco pedir o número de carbono da sua fazenda, faça a conta uma atividade de cada vez: rebanho, lavoura e floresta plantada. A conta mostra por onde começar. Cortar um décimo do diesel poupa 3,8 toneladas de CO₂e por ano, enquanto cortar um décimo do metano da digestão do rebanho poupa 56. Lance na calculadora de pegada de carbono as cabeças, os quilos de nitrogênio, os litros de diesel e os hectares, e leia primeiro a maior fonte.
Os números vêm de uma fazenda de exemplo construída para este artigo e colocada em Dourados (MS). Nada ali é dado de Dourados: o rebanho, a lavoura e as áreas são inventados, e os fatores são os do IPCC. A fazenda tem 400 cabeças de gado de corte em 600 hectares de pasto e produz 120 toneladas de peso vivo por ano. Planta grão em 400 hectares, aplica 5.000 quilos de nitrogênio e colhe 1.200 toneladas. Tem 5 hectares de eucalipto. O gado gasta 6.000 litros de diesel por ano, a lavoura 8.000 e a floresta 300.
A estimativa usa o método Tier 1 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), o mais simples dos três níveis dele. O Tier 1 multiplica o que a fazenda já conta (cabeças de gado, quilos de nitrogênio, litros de diesel, hectares de floresta) por fatores padrão publicados, e por isso nada é medido no campo. Uma floresta em crescimento retira carbono do ar, e por isso é descontada do total.
A pecuária emite cerca de 736 toneladas de CO₂e por ano, a lavoura cerca de 45 e o combustível da floresta menos de uma. Os 5 hectares de eucalipto retiram cerca de 214. No saldo, a fazenda emite por volta de 568 toneladas, e a floresta compensa 27 por cento do que o resto emite.
Como separar a fazenda por atividade?
Lance cada fonte de emissão na atividade que a causou. O metano da digestão e do esterco do rebanho vai para a pecuária. O óxido nitroso do adubo de uma lavoura vai para essa lavoura, e o dióxido de carbono do combustível vai para a atividade que o queimou. Dois insumos são divididos, e quem divide é você. Um é o diesel, porque o mesmo combustível move o trator da lavoura e o caminhão do gado. O outro é o nitrogênio, se você aduba o pasto e a lavoura.
A divisão importa para a intensidade de cada produto, isto é, a emissão por quilo de carne ou por tonelada de grão. Esse número deve carregar só o que a própria atividade causou, e dividir o total da fazenda inteira por um só produto o deixaria maior do que é. No exemplo, a pecuária chega a 1,23 tonelada de CO₂e por hectare de pasto e a 6,14 quilos por quilo de peso vivo. A lavoura chega a 0,11 tonelada por hectare e a 37,4 quilos por tonelada de grão.
| Atividade | O que entra | CO₂e |
|---|---|---|
| Pecuária | 400 cabeças de corte, 6.000 L de diesel, 600 ha | emite 736 t |
| Lavoura | 5.000 kg de N, 8.000 L de diesel, 400 ha | emite 45 t |
| Floresta | 5 ha de eucalipto, 300 L de diesel | retira 214 t, emite menos de 1 t |
| Fazenda | emissões 781,9 t, remoções 213,7 t | saldo de 568,2 t emitidas |
Separe o diesel e o nitrogênio de cada atividade antes de abrir a calculadora.
Por que a digestão do rebanho pesa mais que o trator?
Porque um animal a pasto libera dezenas de quilos de metano por ano ao digerir o capim. O metano retém vinte e cinco vezes mais calor que o dióxido de carbono ao longo de um século, o fator de conversão do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC. O IPCC chama esse metano da digestão de fermentação entérica. A tabela dele traz um valor padrão para cada região do mundo. O da América Latina, onde fica o Brasil, é de 56 quilos de metano por ano para um bovino de corte, o que a calculadora usa. Isso dá 1,4 tonelada de CO₂e por cabeça antes de contar qualquer outra coisa.
O nitrogênio da urina e do esterco do animal soma mais uns 375 quilos de CO₂e (a conta está na seção seguinte). Com o metano do esterco e o diesel, cada cabeça fica com 1,84 tonelada. O exemplo também conta o rebanho no pasto os doze meses. Se o rebanho passa meses em confinamento, a conta muda, e por isso o roteiro do fim pede esses meses.
O 25 do metano, e o 298 do óxido nitroso do nitrogênio do adubo, são os fatores do Quarto Relatório de Avaliação usados aqui e na calculadora. O padrão corporativo do GHG Protocol diz que as empresas deveriam usar os valores do Relatório de Avaliação mais recente, podem escolher outro relatório e devem informar qual usaram. O mais recente é o sexto. A Tabela 7.15 dele traz 27,0 para o metano de fonte não fóssil e 273 para o óxido nitroso. Com esses fatores, a fazenda do exemplo emite 812,9 toneladas e fica com saldo de 599,2, cerca de 5,5 por cento acima das 568,2 do Quarto Relatório. Escreva ao lado do número qual relatório você usou.
Os estudos publicados apontam para o mesmo lado. A equipe da Unesp, em pesquisa no Brasil, encontrou o metano da digestão em 87 por cento das emissões totais do gado de corte em pasto degradado. Ele ainda era 61 por cento no pasto manejado e 51 por cento na integração lavoura-pecuária-floresta. Modernel e colegas compararam sistemas de terminação no Uruguai e encontraram a digestão acima de 46 por cento das emissões em todos os casos, e em 68 por cento no campo nativo. No exemplo, o diesel é 5 por cento das emissões da fazenda.
Quanto somam o nitrogênio e o diesel?
Perto de 4,68 quilos de CO₂e por quilo de nitrogênio aplicado, lançados na atividade que o recebeu. O valor padrão do IPCC é que um por cento do nitrogênio aplicado sai como óxido nitroso. Convertido para o peso do gás e multiplicado por 298, isso dá os 4,68. Conte o nitrogênio, não o adubo: cem quilos de ureia com 46 por cento de nitrogênio são 46 quilos de nitrogênio. Os 5.000 quilos da lavoura do exemplo somam 23 toneladas.
Na fazenda de gado a pasto, o nitrogênio que mais pesa é o que ninguém aplica. É o que os animais deixam na urina e no esterco a cada dia no pasto. O IPCC o conta, no capítulo sobre solos manejados, como emissão do solo, com um fator de dois por cento do nitrogênio depositado, o dobro do fator do adubo. A taxa padrão de excreção do IPCC para um bovino de corte na América Latina é de 0,36 quilo de nitrogênio por 1.000 quilos de peso do animal por dia. Com o peso padrão de 305 quilos, isso dá cerca de 40 quilos por ano, e as 400 cabeças deixam 16 mil quilos no pasto. São 150 toneladas de CO₂e, 19 por cento das emissões da fazenda.
A estimativa deixa de fora o nitrogênio que escapa como gás amônia ou é levado pela água da chuva e vira óxido nitroso em outro lugar, porque essa parte é bem mais incerta. Deixa de fora também o dióxido de carbono que a ureia solta ao se decompor no solo. E não conta urina e esterco de porco. O IPCC fixa os mesmos dois por cento para o porco e para o gado, mas a estimativa não tem peso padrão de porco.
O diesel soma cerca de 2,68 quilos de CO₂e por litro e a gasolina 2,27, lançados na atividade que os queimou. Este gás é dióxido de carbono puro, então nenhum fator de aquecimento o multiplica. O IPCC publica os fatores padrão para a queima de diesel e gasolina por unidade de energia, e a calculadora os converte para litros. No exemplo, o diesel das três atividades soma 38 toneladas. Dividi-lo entre lavoura e pecuária deixa certo o número de cada atividade.
Conte os quilos de nitrogênio de cada saco, não os quilos de adubo.
Quanto carbono uma floresta plantada retira do ar?
Cerca de 43 toneladas de CO₂e por hectare por ano no eucalipto, numa faixa larga de 13 a 85. No capítulo de florestas do IPCC, o crescimento padrão do eucalipto nas Américas é de cerca de 20 toneladas de matéria seca por hectare por ano, numa faixa de 6 a 40. A conversão multiplica as 20 por 1,24 para somar as raízes, por 0,47 para obter a parte de carbono da matéria seca e por 44/12 para transformar carbono em CO₂. Um hectare de pasto emite 1,23 tonelada no exemplo, então um hectare de eucalipto retira quase 35 vezes isso, e 5 hectares compensam 27 por cento da fazenda.
O eucalipto é o padrão da calculadora e a escolha do exemplo. Quem planta outra espécie precisa do fator do IPCC para a espécie e o clima dela, que a mesma tabela lista por tipo de floresta. A fazenda sem floresta plantada não tem remoção, e o saldo dela é igual às emissões: 781,9 toneladas no exemplo.
O mesmo capítulo traz três ressalvas. O número conta só o crescimento, e a contabilidade do IPCC desconta a madeira colhida, então um talhão cortado deixa de retirar carbono e o devolve. No Tier 1 supõe-se que o carbono do solo da floresta não muda com o manejo, e por isso o solo não entra. E o valor padrão é uma média ampla, então o resultado dá a ordem de grandeza da floresta, não um número que alguém possa certificar.
Anote o mês em que cada talhão é cortado, porque a remoção dele acaba nesse dia.
O que anotar primeiro, e até onde vale o número?
Anote o combustível, os rótulos de adubo e os meses de pasto, porque só a fazenda sabe esses números. Na pecuária, o IPCC diz que os fatores estimados pelo Tier 1 dificilmente são conhecidos com precisão melhor que 30 por cento e podem ter incerteza de 50 por cento. A faixa da floresta é mais larga. O Tier 1 dá a ordem de grandeza e mostra quais fontes são maiores. Ele não substitui um inventário medido onde se exige certificado.
Um estudo de ciclo de vida completo traça uma fronteira mais larga. A equipe de Modernel contou herbicida, inseticida e fertilizante fabricados fora da fazenda, e o exemplo não conta nenhum deles. Os sistemas estudados foram de 16,7 quilos de CO₂e por quilo de peso vivo ganho no campo nativo a 6,9 na pastagem semeada com confinamento. A intensidade de uma atividade depende, portanto, tanto da produtividade quanto das emissões, e a comparação de um ano com o outro é a que vale.
Reserve uma hora com os comprovantes de combustível do ano, as faturas de adubo e os registros do rebanho. A calculadora aplica os mesmos fatores do IPCC atividade por atividade e gera um relatório para imprimir. Você informa o que só a fazenda sabe: o número de cabeças, a divisão do combustível e as áreas. Use a lista abaixo para o que a calculadora não pode saber e para o que você decide fazer com o número.
O número envelhece quando o rebanho, a lavoura ou a área plantada mudam, por isso deixe o ano ao lado dele. Comparar o número deste ano com o do ano passado é uma conferência de rotina da gestão de fazendas, e a seção de sustentabilidade da biblioteca trata dos outros registros ambientais da fazenda.