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Esse investimento se paga? Payback, VPL e a sua taxa

Duas ordenhadeiras podem devolver o preço em 2,25 anos e ainda terminar R$ 167.650 distantes em valor. Julgue a compra pelo que sobra depois da sua taxa e confira o caixa contra o financiamento.

Publicado em Atualizado em 16 min
Neste artigo

Em 5 de março de 2026, um revendedor de Chapecó, em Santa Catarina, mostra a um produtor rural de leite duas ordenhadeiras (exemplo, com números inventados). A usada custa R$ 90.000, a nova R$ 180.000, e o revendedor diz que cada uma devolve o preço em 2,25 anos. Medida pelo que sobra depois de o dinheiro render a taxa do próprio produtor rural, 16% ao ano, a usada dá prejuízo de R$ 164 e a nova acrescenta R$ 167.487. Escolher só pela data do revendedor esconde uma diferença de cerca de R$ 167.650. Compare as compras por essa sobra, o valor presente líquido (VPL), e confira se o caixa cobre o financiamento. Na ficha de uma página no fim do texto, você faz as duas coisas.

A data do revendedor é o payback: o tempo até o dinheiro que a compra traz somar o seu preço. O revendedor calcula no verso de um papel, preço dividido pela economia de um ano. Ninguém mente, e a data vale saber. O que acontece depois dela não entra na conta, e toda a diferença entre estas duas ordenhadeiras vem daí.

Se as duas se pagam em 2,25 anos, por que terminam tão distantes?

O payback para de contar no dia em que o caixa acumulado volta a zero, e esse dia raramente é o fim da vida da máquina. A usada economiza R$ 40.000 por ano durante 3 anos, R$ 120.000 contra um preço de R$ 90.000. A nova economiza R$ 80.000 por ano durante 8 anos, R$ 640.000 contra R$ 180.000. As duas chegam ao preço em 2,25 anos. Depois dessa data, à usada restam nove meses e à nova cinco anos e nove meses.

Dinheiro que chega mais tarde vale menos que dinheiro na mão, porque o produtor rural poderia usá-lo antes. Aswath Damodaran, professor de finanças da Universidade de Nova York, publica o material do seu curso em acesso aberto. Ele escreve que fluxos de caixa de datas diferentes não podem ser somados: precisam ser levados ao mesmo ponto no tempo antes. O payback simples soma assim mesmo, e por isso é fácil de fazer de cabeça.

Para levar o caixa de cada ano ao dinheiro de hoje, reduza-o pela taxa do produtor rural, aqui 16% ao ano: os R$ 40.000 economizados no ano 2 valem R$ 29.727 hoje. Some os valores reduzidos, tire o preço, e o que sobra é o valor presente líquido (VPL).

Mesmo payback, valor diferente (exemplo inventado)
Duas ordenhadeiras, mesmo payback, valor diferenteDuas barras do mesmo tamanho mostram a usada e a nova devolvendo o preço em 2,25 anos. Abaixo, a usada quase não tem barra, prejuízo de R$ 164, e a nova tem barra longa, acrescenta R$ 167.487.As duas ordenhadeiras a 16% ao anoPayback, em anosOrdenhadeira usada2,25 anosOrdenhadeira nova2,25 anosValor presente líquido a 16% ao anoOrdenhadeira usadaprejuízo de R$ 164Ordenhadeira novaacrescenta R$ 167.487
as duas ordenhadeiras do exemplo, a 16% ao ano
Usada Nova
Preço R$ 90.000 R$ 180.000
Economia por ano R$ 40.000 R$ 80.000
Anos de uso 3 8
Payback 2,25 anos 2,25 anos
Valor presente líquido a 16% ao ano prejuízo de R$ 164 R$ 167.487

Graham e Harvey perguntaram a 392 diretores financeiros de empresas dos Estados Unidos e do Canadá. Eles resumem a crítica ao payback numa linha: ele ignora o valor do dinheiro no tempo e o caixa depois da data de corte, e a data de corte costuma ser arbitrária. A data de corte é o payback mais longo que o comprador aceita. São empresas, não fazendas, então a pesquisa mostra o que profissionais de finanças pensam do método, não o que uma fazenda deve fazer. Você refaz as duas ordenhadeiras na calculadora de payback, valor presente líquido (VPL) e taxa interna de retorno (TIR).

Qual taxa você usa, e ela pode mudar a resposta?

A taxa é o menor retorno anual que você aceita deste dinheiro, e ela pode virar um sim em não sem mexer na máquina. A 13% ao ano a usada acrescenta R$ 4.446. A 16% ela dá prejuízo de R$ 164, e a 18% dá prejuízo de R$ 3.029. A economia é a mesma em todas as linhas; só a taxa mudou.

o valor presente líquido da ordenhadeira usada em cinco taxas
Taxa por ano Valor presente líquido
12% acrescenta R$ 6.073
14% acrescenta R$ 2.865
16% prejuízo de R$ 164
18% prejuízo de R$ 3.029
20% prejuízo de R$ 5.741

A taxa em que a resposta vira é 15,9% ao ano. Ela tem nome, taxa interna de retorno (TIR), que Damodaran define como a taxa de desconto que zera o valor presente líquido. É esta tabela lida de trás para a frente.

A usada em cinco taxas (exemplo inventado)
Ordenhadeira usada: valor presente líquido em cinco taxasBarras à direita mostram ganho a 12% e 14% ao ano; barras à esquerda mostram prejuízo a 16%, 18% e 20% ao ano. A resposta vira perto de 15,9% ao ano.Valor presente líquido por taxa anual12% ao anoacrescenta R$ 6.07314% ao anoacrescenta R$ 2.86516% ao anoprejuízo de R$ 16418% ao anoprejuízo de R$ 3.02920% ao anoprejuízo de R$ 5.741

Nenhuma tabela dá a taxa, então escreva-a com a origem. Use a maior de duas cifras. Uma é o custo total anual do financiamento que pagaria a compra, tarifas incluídas. A outra é o que o dinheiro rende onde está hoje. No exemplo, o financiamento do revendedor custa 13% ao ano e a aplicação rende 11%, então a base é 13%.

Some um adicional se o projeto tem mais risco que o trabalho de sempre da fazenda. Damodaran enuncia o princípio: a taxa mínima deve ser mais alta para projetos mais arriscados. A economia da ordenhadeira depende do preço do litro de leite que o laticínio paga, então o produtor rural soma 3 pontos, escreve 16% e data.

Uma taxa escrita pode ficar acima do mínimo. Bravo Motiño, numa tese sobre uma fazenda de cacau orgânico em Honduras, calculou o custo de oportunidade em 12,57% e descontou a 15% mesmo assim, para ser mais severo e conservador.

Uma verificação pega um erro comum. Damodaran escreve que se os fluxos de caixa são nominais (reais), a taxa de desconto tem de ser nominal (real). Nominal quer dizer com o aumento de preços incluído, e real quer dizer em dinheiro de hoje. Uma taxa de banco que já leva a inflação, aplicada a uma economia escrita sem ela, faz você reprovar compras boas enquanto cada passo parece certo.

Que caixa você conta, e o que guarda da alternativa que descartou?

Se o produtor rural escolhe a ordenhadeira nova, a cotação lista R$ 180.000. Ela deixa de fora a sala de ordenha, a rede elétrica e o tanque de resfriamento adaptado, que o instalador orça em R$ 27.000 neste exemplo. Com eles, o dinheiro que sai no primeiro dia é R$ 207.000, o payback passa de 2,25 para 2,6 anos, e o valor presente líquido cai de R$ 167.487 para R$ 140.487.

O que a cotação deixa de fora (exemplo inventado)
Dinheiro que sai no primeiro dia, com e sem instalaçãoA cotação é R$ 180.000. Com R$ 27.000 de instalação, o dinheiro que sai no primeiro dia é R$ 207.000, e o payback passa de 2,25 para 2,6 anos.Dinheiro que sai no primeiro diaR$ 180.000R$ 207.000A cotaçãopayback 2,25 anosCom instalaçãopayback 2,6 anosInstalação R$ 27.000

Conte o caixa que muda por causa da decisão, e todo ele. Damodaran: use fluxos de caixa, não lucro contábil; você não pode gastar lucro contábil. Depreciação não é dinheiro que sai, e o resultado inteiro da fazenda também não é o fluxo, porque parte dele aconteceria sem a máquina.

O dinheiro parado enquanto a máquina trabalha também entra na lista. Insumo comprado antes, animal em recria e grão esperando preço saem no começo e voltam no fim. Para a ordenhadeira, é a ração comprada antes para as vacas que passam a render mais leite. Damodaran avisa que esquecer o capital de giro num projeto superestima os fluxos de caixa e faz o projeto parecer mais atraente do que é.

Ao lado da economia de cada ano, escreva de quem ela depende. Aqui a economia é o leite que deixa de ser descartado, então depende do preço do litro que o laticínio paga. Uma economia 10% menor, por um preço do litro mais baixo ou menos leite salvo, leva o valor presente líquido de R$ 140.487 para R$ 105.739 e o payback para 2,9 anos. Um bom resultado que se apoia num único comprador vale o que vale esse comprador. Os autores de um estudo da Embrapa sobre leite de cabra no Nordeste chamam seus bons resultados de preocupantes. Eles dependem da garantia de compra e dos preços subsidiados de um programa federal do leite.

Dê uma linha à alternativa que você descartou. Ninguém recebe cobrança pelo que o produtor rural decidiu não fazer, então o número que a descartou se perde se ninguém o escreve no dia. Escreva três coisas.

  • O número que a descartou, com a unidade: aqui, os reais por litro que o laticínio paga contra o custo do leite descartado.
  • De onde o número veio: um contrato, uma cotação escrita ou o nome de quem o disse. Diga quando veio de quem vende a máquina.
  • A que distância estava de virar: quanto o preço ou o custo teria de mudar para a decisão se inverter.

Um plano de investimentos escrito guarda a condição de uma compra antes de o dinheiro sair. Esta linha guarda o que descartou uma alternativa.

O caixa cobre o financiamento e o limite de crédito?

Valor e caixa são duas perguntas separadas. A ordenhadeira nova passa em valor, com um valor presente líquido de R$ 140.487. No caixa, primeiro ache o ponto mais fundo do caixa acumulado, que é o primeiro dia, com R$ 207.000 para fora. O limite de crédito da fazenda é R$ 230.000, então o valor cabe.

Depois compare o tempo que o dinheiro leva para voltar com o prazo do financiamento. O payback descontado é o tempo até as economias, cada uma levada ao dinheiro de hoje pela sua taxa, somarem o preço. Para a nova, são 3,6 anos. O financiamento do revendedor, de R$ 207.000 em 3 anos a 13% ao ano, custa R$ 87.669 por ano contra R$ 80.000 economizados. A última parcela vence antes de o dinheiro voltar, e outra atividade a paga.

Duas conferências do caixa (exemplo inventado)
Caixa contra o limite de crédito e o prazo do financiamentoO ponto mais fundo do caixa, R$ 207.000 para fora no primeiro dia, fica abaixo do limite de crédito de R$ 230.000. O payback descontado de 3,6 anos é mais longo que o financiamento de 3 anos.A ordenhadeira novaCaixa contra o limite de créditoPonto mais fundo do caixaR$ 207.000 para fora no dia 1Limite de créditoR$ 230.000Dinheiro de volta contra o prazoPayback descontado3,6 anosPrazo do financiamento3 anos

O mesmo payback pode ser confortável ou perigoso, conforme o financiamento ao lado. No estudo da Embrapa sobre leite de cabra, recuperar o investimento adicional leva 7,3 anos. Os autores supõem um financiamento de dez anos sem encargos, cujo reembolso anual toma 51,8% da margem líquida, o que chamam de situação confortável para o produtor rural e aceita pelos bancos financiadores. Os mesmos 7,3 anos dentro de um financiamento de cinco anos são o mesmo investimento numa fazenda em aperto.

Ler valor e caixa juntos dá quatro respostas.

  • Valor sim, caixa sim: assine.
  • Valor sim, caixa não: a compra é boa e o financiamento está errado. Negocie prazo maior, não preço menor. No exemplo, um financiamento de 5 anos custa R$ 58.853 por ano, que a economia cobre.
  • Valor não, caixa sim: o dinheiro volta rápido só porque a máquina não dura. Assine apenas se o dinheiro compra algo que não é retorno, como uma exigência legal, e escreva esse motivo na ficha.
  • Valor não, caixa não: descarte.

Quando duas compras disputam uma linha de crédito, o maior valor presente líquido pode enganar. Damodaran divide cada valor presente líquido pelo investimento inicial. Num exemplo dele, em dólares, um projeto de US$ 1.000.000 vale US$ 467.937 e marca 46,79%. Outro, de US$ 10.000.000, vale US$ 1.358.664 e marca 13,59%. O projeto menor vence. A taxa percentual de retorno também não os classifica, já que o valor presente líquido é um valor excedente em dólares, enquanto a TIR é uma medida percentual de retorno. Se você ainda não sabe quanta dívida a fazenda aguenta, comece por se a sua dívida cabe no que a fazenda gera.

Qual é a primeira linha da ficha, e quanto tempo ela leva?

Escreva a taxa primeiro, antes de ler qualquer cotação. O resto leva umas duas horas, com as cotações, as condições do financiamento e os números reais do ano passado à mão.

Ordem da ficha de uma página
A ficha de uma página em seis passosSeis passos em três grupos: a taxa e o caixa antes de qualquer cotação, a alternativa descartada com os resultados e o veredito, e a assinatura com uma linha em branco.Antes de ver qualquer cotação1. Taxa, com origem e data2. O caixa, e de quem dependeCom os números3. A alternativa descartada4. VPL, payback, ponto mais fundo5. Payback descontado e vereditoNo pé da ficha6. Assine, date, linha em branco

A linha em branco é a única parte da ficha que alguém consegue conferir depois. A taxa foi uma escolha e o horizonte foi um julgamento, e nenhum valor presente líquido vai aparecer num extrato do banco. O caixa realizado do primeiro ano contra a sua previsão vai.

Arrendar ou comprar a terra roda a mesma aritmética na maior compra que a maioria das fazendas faz, e tem artigo próprio: arrendar ou comprar a terra. A página de gestão de fazendas trata da gestão da fazenda inteira como negócio.

Ferramenta

A ferramenta faz a conta e deixa o juízo com você.

Você digita os seus números e o resultado atualiza sozinho. Nada do que você digita sai do seu aparelho.

Procedência

Deriva de
  1. Damodaran, Measuring Investment Returns, Stern School of Business, New York University (material de ensino aberto do próprio autor)
  2. Graham e Harvey, The theory and practice of corporate finance: evidence from the field, Journal of Financial Economics 60(2-3), 2001 (revisada por pares, cópia aberta no servidor universitário do autor)
  3. Bravo Motiño, Plan de inversión de una finca de cacao orgánico en la Aldea de Ticamaya, Honduras, Escuela Agrícola Panamericana Zamorano, 2018
  4. França, Martins, Holanda Junior e Sousa Neto, Indicadores de viabilidade financeira e econômica do sistema de produção familiar de leite de cabra no Rio Grande do Norte, Embrapa Caprinos, 2006
O que este artigo cobre
Escrever a taxa que você aceita com a origem e a data, listar só o dinheiro que muda por causa de uma decisão, inclusive o que a cotação do vendedor deixa de fora, fixar um horizonte que você consegue defender, ler juntos o valor presente líquido, a taxa interna de retorno e os dois paybacks, achar o ponto em que o caixa acumulado fica mais fundo no vermelho e comparar com o seu limite de crédito real, anotar o payback descontado ao lado do prazo do financiamento, e deixar uma linha datada para o caixa realizado do primeiro ano.
O que ele não cobre
Não dá preço de máquina, não projeta produtividade nem preço e não diz quanto qualquer investimento vai render. Não escolhe entre arrendar e comprar, que é decisão própria, e não classifica dois projetos além de dizer por qual número classificá-los. Tratamento tributário, tabela de depreciação e as condições que o banco de fato vai oferecer ficam com quem cuida da contabilidade e com o banco, e não entram aqui. Nada aqui diz que um investimento determinado deva ser feito.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Esse investimento se paga? Payback, VPL e a sua taxa. [S. l.], 1 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/financeiro/esse-investimento-se-paga/. Acesso em:


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