Em Pedro Afonso, no Tocantins, o banco, a cooperativa ou a revenda de insumos pergunta, antes de liberar o custeio da próxima soja, se você paga o empréstimo com o que a fazenda rende. O saldo devedor não responde isso. Calcule três índices com o balanço do último ano, anote-os numa ficha datada e aja sobre o mais fraco. A fórmula pesa: num guia da Mississippi State de 2024, uma fórmula mais curta conta US$ 24.181 (dólares) a mais de caixa para as parcelas do que a completa. Isso leva a fazenda de exemplo do guia de 1,063 na cobertura da dívida (caixa disponível para as parcelas dividido pelas parcelas do ano), fraca, a 1,22, estável.
O que você responde quando o credor pergunta se a fazenda paga?
Responda com três índices numa ficha datada e assinada, cada um comparando a dívida com outra coisa. A dívida sobre o ativo é o que você deve dividido pelo que você tem, e mostra quanto da fazenda já está devido. A cobertura da dívida é o caixa disponível para as parcelas dividido pelas parcelas que vencem neste ano. A liquidez corrente é o que vira dinheiro em até doze meses dividido pelo que vence em até doze meses.
O exemplo abaixo é inventado para a conta: uma fazenda de soja em Pedro Afonso, em reais. As faixas vêm do guia da Mississippi State University Extension, o serviço de assistência rural dessa universidade americana, que classifica cada índice como forte, estável ou fraco.
Pela tabela do guia, a dívida sobre o ativo de 0,50 é estável, a cobertura de 1,05 é fraca e a liquidez corrente de 1,20 é estável. A pressão está na cobertura: as parcelas são pagas com quase nada de folga.
A linha de 60% da dívida sobre o ativo é contestada: o próprio guia diz que os especialistas discordam dela. Ele diz também que o que conta como fraco depende em parte de quanto da terra é sua. Uma fazenda em terra arrendada não tem a terra entre os bens e tende a mostrar um índice mais alto. Anote contra qual linha você está lendo o seu.
A fórmula que você escolhe muda a resposta?
Muda, e por uma faixa inteira. A fórmula completa de cobertura do guia tem sete termos. Parte da renda da atividade, soma ou subtrai itens diversos e soma a renda de fora e a depreciação. Tira o imposto de renda, as retiradas do proprietário e os juros do crédito corrente. O total é dividido pelo principal e pelos juros dos financiamentos de prazo mais longo, pagos em mais de um ano.
Passe a fazenda de exemplo do próprio guia pelos sete termos e o resultado é 1,063, fraco. Passe-a pelos três termos que a maioria das fazendas consegue preencher com seus registros, lucro mais depreciação menos retiradas, e dá 1,22, estável. Nenhum valor da fazenda mudou.
Nessa fazenda, a renda de fora soma 0,18 ao índice, o imposto de renda tira 0,32 e os juros do crédito corrente tiram 0,02. É conta nossa com os valores do guia: cada valor dividido por 153.741. A fórmula curta deixa os três de fora.
Use a versão curta se a completa pedir demonstrativos que a sua fazenda não mantém, mas anote qual usou ao lado do resultado. O guia avisa que a referência e a sua fazenda precisam ser calculadas do mesmo jeito, ou você pode concluir errado que a fazenda vai mal ou vai bem. Nunca coloque um resultado ao lado da linha de 1,10 sem essa anotação.
Por que uma fazenda com muito patrimônio fica sem caixa?
Solvência é ter bens suficientes para cobrir o que se deve, mesmo que esses bens não sejam dinheiro. Liquidez é ter o dinheiro no dia em que a parcela vence. Uma revisão sobre análise financeira na Revista Venezolana de Gerencia resume numa linha: considera-se solvente a empresa com liquidez, mas a empresa solvente nem sempre tem liquidez. A revisão trata de empresas em geral, não de fazendas.
Numa fazenda, o que garante a dívida é sobretudo terra e máquina. O guia da Mississippi define liquidez como pagar as contas de curto prazo sem mudanças de longo prazo, como vender terra ou equipamento de repente ou tomar um novo empréstimo. O dono com pouco caixa e muito patrimônio paga vendendo o que a fazenda precisa para produzir. O trator vendido em março quita este ano e custa o próximo, e os índices só mostram esse custo quando os números do próximo ano chegam.
A liquidez corrente também esconde de que é feito o dinheiro. Na fazenda de exemplo, R$ 1.000.000 dos R$ 1.800.000 são soja no armazém. Tire-a e a liquidez corrente é R$ 800.000 sobre R$ 1.500.000, ou 0,53. Você cobre cerca de metade do que vence neste ano, a menos que a safra venda pelo preço com que você a avaliou.
Um índice também não carrega tamanho. Duas fazendas com 1,20, uma com R$ 1.800.000 contra R$ 1.500.000 e outra com R$ 180.000 contra R$ 150.000, leem igual, mas a segunda tem R$ 30.000 de folga e um pagamento atrasado a consome. Escreva o capital de giro ao lado do índice: ativo circulante menos passivo circulante, que na fazenda de exemplo é R$ 300.000.
O que fazer com o mais fraco dos três?
O índice mais fraco, o que está na faixa fraca ou mais perto dela, é onde está a pressão. Na fazenda de exemplo é a cobertura. Cada índice pede uma resposta diferente, e estas respostas são uma recomendação, não do guia.
Se o mais fraco é a dívida sobre o ativo, a dívida é grande demais para o que a fazenda tem. As respostas são lentas: vender o que não produz, parar de somar dívida e esperar anos.
Se o mais fraco é a cobertura, a dívida pode ter um bom tamanho e o ano não rende o bastante para pagá-la. O guia lista as alavancas: reduzir as retiradas do proprietário, aumentar a renda de fora ou vender mais e a melhor preço. Nenhuma delas mexe na dívida. O artigo sobre quanto cada atividade precisa vender para não ter prejuízo ajuda a achar que parte da fazenda fica devendo.
Se o mais fraco é a liquidez corrente, vence coisa demais de uma vez. Pergunte ao credor se parte das parcelas deste ano pode passar para anos seguintes a um custo que valha a pena. Depois ordene seus credores.
Num estudo com fruticultores do Polo Petrolina-Juazeiro, no Nordeste, as chances de o produtor rural médio ficar inadimplente com o setor público eram 8,03 vezes maiores que com o setor privado. Os autores dão duas razões. Uma é o histórico cultural de que as dívidas públicas serão perdoadas. A outra é que as dívidas privadas costumam ser de curto prazo, o que leva o produtor a pagar sob o risco de parar a produção. O crédito funciona de um jeito em cada país, mas em muita fazenda alguns credores esperam e outros podem travar a safra seguinte.
O erro a evitar é tratar todo ano apertado como problema de dívida e quitar financiamento de prazo longo com o caixa de que a safra precisa. Isso melhora um índice que não era o problema e piora o que era.
Qual anotação vem primeiro, e quanto tempo leva?
Reserve uma hora com o último balanço, os extratos dos financiamentos e o valor que a família retirou, antes que chegue a próxima pergunta do credor. Comece pela linha que diz qual fórmula você usou, porque sem ela o resultado não se compara com nada. O guia pede que você acompanhe a tendência, e a ficha do ano passado ao lado desta mostra isso.
A calculadora de endividamento e cobertura deste site faz as três divisões com os seus números. Ler a dívida é uma parte da gestão da fazenda como negócio, e o guia de gestão de fazendas trata do resto.