Em 4 de março, R$ 720.000 de boi gordo entregue a um frigorífico em Goiás venceram, e em 30 de abril o frigorífico ainda não tinha pago. Os valores deste artigo são um exemplo, não preços de mercado. Se o frigorífico quebrar, quem vendeu sem garantia recebe depois dos créditos trabalhistas, dos que têm garantia e dos impostos, e os R$ 720.000 podem voltar só em parte. A decisão é saber quanto do que você vendeu ainda não foi pago, e por quem. Liste cada venda a prazo ainda não paga, o que se chama conta a receber, com o comprador, o valor, o vencimento e os dias em atraso, e some o total no pé. Faça isso antes de a próxima carga sair nas mesmas condições.
Por que uma venda que você anotou ainda te deixa sem dinheiro?
Porque anotar a venda registra que o boi saiu, não que o dinheiro entrou. A fazenda do exemplo entregou os bois em 28 de janeiro e combinou o pagamento para 4 de março. Em 30 de abril, a venda estava com 57 dias de atraso, e nem o registro de vendas nem a declaração do imposto trazem essa espera.
Para a pessoa física, o resultado da atividade rural é apurado pelo que foi recebido e pago no ano, o regime de caixa, que conta a receita só quando o dinheiro entra. A venda entregue e não paga fica fora desse registro.
Essa venda tem nome: conta a receber, dinheiro que existe na nota fiscal e ainda não na conta do banco. Até ele cair, a venda é real e o dinheiro não é.
A espera costuma ser combinada de antemão. Ao calcular o preço do boi gordo, o Cepea desconta o prazo de pagamento pelo CDI, a taxa de juros de referência dos bancos, para chegar ao preço à vista. Cada mês de prazo é um mês em que a fazenda financia o comprador.
O que acontece com esse dinheiro se o frigorífico quebra?
Você entra na fila de quem o frigorífico deve, e entra atrás. Quem vendeu a prazo emprestou sem garantia, e na falência a lei chama esse crédito de quirografário: ele recebe depois dos créditos trabalhistas, dos que têm garantia e dos impostos.
Não é risco de manual. Em Goiás, em 2009, com quinze frigoríficos parados, a federação da agricultura do estado estimava em cerca de R$ 200 milhões a dívida da indústria com os pecuaristas.
A lei diz a ordem de quem recebe, não quanto sobra no fim, e isso muda de uma falência para outra. O que não muda é que quem vendeu sem garantia fica atrás. Com uma lista de contas a receber datada, você sabe, antes de a próxima carga sair, quanto depende de aquele comprador continuar de pé.
Conferir o saldo com o banco não basta?
É necessário e não basta, porque o extrato traz o que passou pela conta e nada da venda que nunca passou. Um guia de extensão rural da Universidade de Nebraska descreve o confronto do mês. Você compara cada lançamento do extrato com o seu próprio registro, e aí aparecem a tarifa, o juro e o débito automático que a fazenda não anotou, além de um depósito lançado errado. Cada uma dessas coisas é dinheiro que já se moveu.
No exemplo, a fazenda emitiu notas fiscais de cinco vendas de janeiro a abril, R$ 1.200.000 no total. No extrato aparecem dois depósitos, R$ 264.000, as duas vendas à vista. As três vendas a prazo não deixam lançamento nenhum, porque nada foi pago, e por isso a comparação que parte do banco não as encontra. A lista parte das notas fiscais e pergunta quais vendas não chegaram ao banco. A resposta é R$ 936.000, ou 78% do que a fazenda faturou.
O que a lista do mês tem de mostrar?
Uma linha por venda a prazo não paga, com cinco coisas: o comprador, o valor, a data da nota fiscal, o vencimento e os dias em atraso. A data da nota e o vencimento fixam quando o relógio começou e quando o pagamento foi prometido. Os dias em atraso são a contagem do vencimento até hoje, e ficam em zero até o vencimento passar. No pé fica um total, o valor do que você vendeu e ainda não recebeu.
Em 30 de abril, a fazenda do exemplo tem três vendas a prazo. Vendeu 2.400 arrobas de boi gordo a R$ 300 a arroba para um frigorífico, 2.000 sacas de milho a R$ 60 para um comprador de grãos e 320 arrobas a R$ 300 para outro frigorífico.
| Comprador | Valor | Data da nota | Vencimento | Dias em atraso em 30 de abril |
|---|---|---|---|---|
| Frigorífico A | R$ 720.000 | 28 de janeiro | 4 de março | 57 |
| Comprador de grãos | R$ 120.000 | 20 de março | 20 de abril | 10 |
| Frigorífico B | R$ 96.000 | 15 de abril | 15 de maio | 0 |
| Total | R$ 936.000 |
Você escreve o total e as datas, não uma opinião sobre o comprador: o que fazer com cada um você decide depois, olhando os dias em atraso. No exemplo, a linha do Frigorífico A tem 57 dias de atraso e mais de três quartos do total, então é a ligação desta semana. Conferir que uma conta foi paga é mais fácil quando a fazenda tem a conta própria, separada da família, e assim o pagamento de um comprador não se perde entre as transferências da casa. Ler o que você vendeu contra o que entrou, e agir na diferença, é trabalho de todo dia em administrar a fazenda como um negócio. Tem mais sobre o dinheiro da fazenda na seção de finanças da biblioteca.
Por onde começar
Leva uma tarde com as notas fiscais que você emitiu neste ciclo e os extratos do banco dos mesmos meses. Nada aqui precisa de sistema nem de contador, só as vendas que você já fez e o extrato que você já recebe.
O total no pé é o dinheiro que a fazenda ganhou e ainda não tem. No exemplo, são R$ 936.000. Um total pequeno, de linhas recentes, indica venda e dinheiro quase iguais. Um total grande, cheio de linhas velhas, indica uma fazenda que financia os compradores, e na lista você descobre de quem, e por quanto tempo, antes de a próxima carga sair com as mesmas condições.