A ficha de semeadura do seu milho safrinha diz 66.000 sementes por hectare (3,3 sementes por metro de linha, em linhas a 50 cm). É o único número dessa lavoura que você já tem na mão. Escreva ao lado o estande, as plantas por hectare que nasceram, contado num dia, por um método e em um número de pontos que você fixou antes de a plantadeira andar. Em 300 hectares, o replantio custa cerca de R$ 105.000 no exemplo abaixo, e só vale decidir sobre uma contagem que você repetiria do mesmo jeito na safra seguinte. Feita sempre assim, a contagem também deixa comparar o estande desta safra com o da anterior.
O que escrevo ao lado das 66.000 sementes por hectare?
O estande e a parcela das sementes que ele representa, a emergência. Para contar, a Embrapa e a Aprosoja, no levantamento do milho safrinha de Mato Grosso, escolheram ao acaso 2 linhas de 5 metros em cada um de 289 talhões e contaram as plantas.
Em linhas a 50 cm, essas 2 linhas de 5 metros ocupam 5 m², que é 1/2.000 de hectare. Multiplique as plantas contadas por 2.000. No exemplo, 31 plantas deram 62.000 plantas por hectare, e 62.000 de 66.000 sementes são 94 de cada 100. Escreva os dois números, as sementes e as plantas, com a data.
Em que dia conto, e em quantos pontos?
Num dia contado desde a semeadura, o mesmo em todo talhão e em toda safra. O dia importa porque as plantas não nascem juntas. Em dez experimentos de milho em lavouras de produtores nos Estados Unidos e na Argentina, Albarenque e colegas registraram plantas nascendo de 3 a 31 dias após o plantio. Um talhão contado no oitavo dia e de novo no vigésimo pode mostrar dois estandes. Qual dia convém ao seu milho, você decide com o agrônomo; a ficha só o fixa.
Quanto aos pontos, use mais de um, sorteados. A Iowa State University Extension pede que a contagem se repita várias vezes no talhão e que os locais sejam sorteados, sem fugir das áreas com falhas. A falha é comum: no levantamento de Mato Grosso, “somente 20% das áreas encontraram-se com distribuição longitudinal de plantas com precisão de 100%”. Escreva o número de pontos uma vez, como o agrônomo orientar, para todo talhão ter o mesmo.
Se uma contagem não combina com as outras, a Iowa State manda guardá-la à parte e anotar onde fica a área no talhão. No exemplo, quatro pontos leram 62, 56, 66 e 60 mil plantas por hectare, e o quinto, numa baixada encharcada, leu 30 mil. Os quatro que combinam têm média de 61 mil. O de 30 mil vai na ficha à parte, com o lugar.
Quem conta, e o que vai em cada linha da ficha?
Uma pessoa com nome, com o mesmo método, em todo talhão. A FAO, num guia sobre dados de fazenda, diz que saber que o dado vem de fonte confiável e foi coletado por método confiável pode importar mais que a arrumação dos números. Quando muda quem conta e ninguém escreve, uma contagem diferente parece um talhão diferente.
Em cada linha, escreva o que a Iowa State manda olhar: a uniformidade da emergência (diferenças de estádio da lavoura), o espaçamento entre plantas e o vigor das plântulas, com suas palavras. Some as plantas por hectare, a porcentagem de emergência, a data, os dias desde a semeadura, quem contou e os pontos. Deixe uma coluna para a linha da safra anterior. Onde o talhão não foi contado, escreva “não contado”, para o vazio não ser lido depois como estande bom.
O agrônomo orienta sobre o estande e o replantio, e a contagem escrita fica com você. Há um artigo à parte sobre até onde vai a orientação do agrônomo e onde começa o registro da fazenda.
| Linha | O que fixa ou registra | O que acontece sem ela |
|---|---|---|
| Dia da contagem | Dias desde a semeadura, o mesmo em todo talhão | Uma safra contada cedo, outra tarde, e as duas não cabem na mesma linha |
| Pontos por talhão | O número, sorteados | Um canto bom representa um talhão cheio de falhas |
| Quem conta | Uma pessoa com nome e um método | Troca de pessoa parece troca de talhão |
| O que se escreve | Plantas por hectare, emergência, uniformidade, espaçamento e vigor | A palavra bom esconde o que deu errado |
| Linha da safra anterior | Ao lado da desta safra | Uma impressão que não se compara com outro ano |
| Não contado | As palavras não contado | O vazio lido depois como ano bom |
Quanto custa um estande ralo ou tardio, e o que a contagem decide?
A contagem serve para julgar se um talhão pede uma segunda olhada. Replantar é decisão sua com o agrônomo. No levantamento de Mato Grosso, as falhas sozinhas custaram em média 4.785 plantas por hectare. A Iowa State mostra a troca no milho: um estande de 24.000 plantas por acre (cerca de 59.000 por hectare), semeado em 15 de abril, ainda tem 94% do potencial máximo de produtividade. Replantar em 25 de maio, a 35.000 plantas por acre (cerca de 86.500 por hectare), deve chegar a 87%. Nesse exemplo, o estande que já está na terra vence.
O atraso também pesa. Nos experimentos de milho citados, a produtividade final caiu em média 8,5% por dia de atraso na emergência, e o efeito foi em geral maior nas áreas de baixa produtividade. Na soja, Pereyra e colegas viram que o espaçamento irregular custou produtividade em ambientes de produtividade baixa e média, e que os de alta produtividade não foram afetados. Esses números vêm de milho e soja nos Estados Unidos e na Argentina. Mostram o formato da decisão, não o que o seu talhão fará.
Como a lavoura nasceu é também parte do motivo de a produtividade de cada talhão ano a ano variar como varia, e o número da colheita sozinho não mostra isso.
O que escrevo primeiro, e quanto tempo leva?
Comece por duas linhas, a população semeada e o dia da contagem. Você já tem as duas, na regulagem da plantadeira e no calendário. O resto da ficha leva cerca de uma hora antes da semeadura e uma passada por talhão no dia da contagem.
Escrita, a contagem desta safra fica ao lado da anterior, e quem contar na próxima safra lê o que você contou. A decisão de replantar passa a se apoiar num número, dentro da janela que o agrônomo der. Definir antes da safra como a lavoura será conferida faz parte da gestão de fazendas.